


A primeira Investigao de Poirot

Agatha Christie


        Os livros desta coleco so constitudos por dois ttulos. Este  o primeiro, sendo o segundo: O 
adversrio secreto da mesma autora




Captulo I

Vou   PARA   STYLES

J se dissipou um pouco o intenso interesse despertado no pblico pelo que ento se chamou O Caso 
Styles. No entanto, em virtude da notoriedade a nvel mundial de que foi alvo, tanto o meu amigo Poirot 
como a prpria famlia da vtima me pediram que escrevesse um relato da histria. Esperamos silenciar 
assim, eficazmente, os boatos sensacionalistas que ainda persistem.

Comearei por expor resumidamente as circunstncias que conduziram ao meu relacionamento com o 
caso.

Na frente tinham-me dado como invlido e mandado regressar  ptria onde, aps alguns meses num muito 
deprimente Lar de Convalescentes, me deram uma licena de um ms, antes de retomar o servio. Como 
no tinha parentes chegados nem amigos, tentava decidir o que faria quando encontrei casualmente John 
Cavendish. Vira-o muito poucas vezes, nos ltimos anos, e na realidade nunca o conhecera muito bem, em 
parte devido, certamente, ao facto de ele ter uns bons quinze anos mais do que eu, embora no 
aparentasse nada ser um homem de quarenta e cinco anos. Quando eu era rapaz, porm, estivera vrias 
vezes em Styles), residncia da me dele no Essex.

Conversmos um bom bocado acerca do passado e, no fim, ele convidou-me a ir passar a licena a 
Styles.

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A me ficar encantada por te voltar a ver, depois de todos estes anos  acrescentou.

Ela est boa?

Oh, sim! Sabes, suponho, que voltou a casar?

Receio ter evidenciado a minha surpresa; com excessiva franqueza. Mrs. Cavendish, que casara com o pai 
de John, um vivo com dois filhos, era, quando eu a conhecera, uma mulher interessante, de meia-idade. 
Agora no devia ter menos de setenta anos. Recordava-a como uma mulher com uma personalidade 
enrgica e autocrtica, um tanto ou quanto inclinada para a notoriedade que provm da caridade e da vida 
social, com um fraco por inaugurar vendas de caridade e fazer, em suma, de Dona Benificncia. Era, uma 
senhora muito generosa e dona de fortuna pessoal considervel.

A sua propriedade no campo, STYLES Court, fora comprada por Mr. Cavendish no princpio da sua vida 
de casados. Ele vivera a tal ponto sob a a>scendncia da mulher que, ao morrer, lhe deixara a propriedade, 
enquanto vivesse, assim como a maior parte do seu rendimento, procedimento francamente injusto para 
com os dois filhos. A madrasta destes, porm, fora sempre muito generosa com eles. Eram to novos 
quando o pai casara com ela que sempre a tinham considerado sua verdadeira me.

Lawrence, o mais novo, fora um jovem frgil. Formara-se em medicina, mas depressa abandonara a 
profisso e ficara a viver em casa, entregue a ambies literrias, embora os seus versos nunca 
alcanassem assinalvel xito.

John trabalhara durante algum tempo como advogado, mas por fim desistira tambm e entregara-se  vida 
para ele mais agradvel de nobre rural. Casara havia dois anos e levara a mulher para Styles, embora eu 
desconfiasse de que teria preferido que a me lhe aumentasse a penso, o que lhe permitiria ter casa sua. 
Mas Mrs. Cavendish era uma senhora que gostava de elaborar os seus prprios planos e esperava que os 
outros os aceitassem, e neste caso, ainda por cima, eram dela todas as vantagens, pois os cordes da 
bolsa estavam nas suas mos.

John notou a minha surpresa perante a notcia do novo casamento da me e sorriu com certa amargura.

E foi logo escolher um grandssimo salafrrio! afirmou, furioso.  Acredita, Hastings, est a tornar-nos a vida 
muito difcil. Quanto  Evie... Lembras-te da Evie?

No.

Tens razo, parece-me que no  do teu tempo.  a dama de companhia da me e, por extenso, o seu 
pau para toda a colher. Fixe e boa mulher, a velha; Evie! No  precisamente uma menina nem uma 
beldade, mas de toda a confiana.

Ias dizer

Ah, sim, o tal tipo! Apareceu vindo no se sabe de onde, a pretexto de que era segundo primo ou coisa 
parecida da Evie, embora ela  no parecesse muito interessada em admitir o parentesco. Salta aos olhos 
que o indivduo  um intruso absoluto, qualquer pessoa v isso. Tem uma grande barba preta e usa botas 
de verniz esteja o tempo que estiver! Mas a me teve logo um fraco por ele, aceitou-o como secretrio... 
Como sabes, anda sempre metida na direco de cem sociedades...

Acenei afirmativamente.

Claro que a guerra transformou as cem em mil. O tipo tem-lhe sido muito til nesse aspecto, a esse 
respeito no h duvida. Mas ficmos todos para morrer quando, h trs meses, ela nos comunicou, de 
sbito, que estava noiva de Alfred! O indivduo deve ser pelo menos vinte anos mais novo do que ela!  uma 
simples e descarada caa  fortuna... mas, enfim, ela  senhora de si prpria, no est s ordens de 
ningum, e casou com ele.

Deve ser, realmente, uma situao difcil para todos vocs.

Difcil?  infernal!

, Sucedeu assim que, trs dias depois, me apeei do comboio em Styles St. Mary, uma absurda 
estaozinha aparentemente sem qualquer razo de existir, empoleirada no meio de campos verdes e 
azinhagas. John Cavendish esperava-me no cais e conduziu-me para o automvel.
Ainda temos uma gota ou duas de gasolina, como vs observou.  Principalmente graas s actividades da 
me.

A aldeia de Styles St. Mary ficava a cerca de trs quilmetros da estaozinha e Styles Court mais ou 
menos quilmetro e meio do outro lado. Estava um dia sereno e quente de princpios de Julho. Ao olhar a 
regio plana do Essex, to verde e pacfica sob o sol da tarde, parecia quase impossvel acreditar que, no 
muito longe, uma grande guerra seguia o seu curso determinado. Tive a sensao de que, de repente, fora 
parar a outro mundo. Quando transpusemos o porto da propriedade, John observou:

Receio que vs achar isto por aqui muito parado, Hastings.

Meu caro,  exactamente disso que preciso.

Enfim,    agradvel,  quando se  quer  levar  uma  vida ociosa. Treino com os voluntrios duas vezes por 
semana e dou uma ajuda nas quintas. A minha mulher trabalha regularmente

na terra. Levanta-se sempre s cinco da manh para ordenhar e continua a trabalhar sem parar at  
hora do almoo. Seria uma vida boa, bem vistas as coisas... se no fosse aquele tipo, Alfred Inglethorp!  
Parou, de repente, e viu as horas. Talvez sejam horas de ir buscar a Cynthia... No, a esta hora j saiu do 
hospital.

Cynthia? No  a tua mulher?

No. A Cynthia  uma protegida da minha me, filha de uma antiga condiscpula dela, que casou com um 
solicitador m pea. Enfim, a pequena ficou rf e sem nada. A minha me interveio e a Cynthia est 
connosco h quase dois anos. Trabalha no hospital da Cruz Vermelha de Tadminsler, a onze quilmetros 
de distncia.

Quando disse as ltimas palavras, parmos defronte da bela casa antiga. Uma senhora de grossa saia de 
tweed, que estava debruada para um canteiro, endireitou-se, ao ouvir-nos aproximar.

Ol, Evie! C est o nosso heri ferido! Mr. Hastings  , Miss Howard.

Miss Howard tinha um aperto de mo muito firme, quase
doloroso. Fiquei com a vaga impresso de uns olhos muito azuis num rosto bronzeado. Era uma mulher de 
aspecto agradvel, cerca de quarenta anos e voz profunda, quase masculina nas suas intonaes 
estentreas, e tinha um corpo forte e quadrado, com ps a condizer enfiados em boas botas grossas. No 
tardei a perceber que falava num estilo de certo modo telegrfico:

As ervas daninhas alastram como fogo. Impossvel acompanh-las. Acautele-se, tentarei aproveit-lo.

Terei muito prazer em ser til  afirmei.

Nunca diga isso. Mais tarde arrependem-se sempre.

 uma cnica, Evie  disse John, a rir.  Onde se toma o ch, hoje? L dentro ou c fora?

Fora. O dia est muito bonito para nos fecharmos em casa.

Venha da, ento; por hoje j jardinou o suficiente. O trabalhador tem direito  sua paga, como sabe. 
Venha repousar e restaurar-se.

Bem  respondeu Miss Howard, enquanto descalava as luvas de jardinagem , sinto-me inclinada a 
concordar consigo.

Contornou a casa  nossa frente e conduziu-nos ao lugar onde o ch estava servido,  sombra de um 
grande sicmoro.

Levantou-se um vulto de uma das cadeiras-cesto e deu alguns passos na nossa direco.

A minha mulher, Hastings  apresentou John.

Nunca esquecerei a primeira vez que vi Mary Cavendish. O seu corpo alto e esbelto recortado na luz viva; a 
noo forte de fogo amodorrado que parecia encontrar expresso apenas naqueles maravilhosos olhos 
fulvos, naqueles olhos extraordinrios, diferentes dos de qualquer mulher que jamais conheci; a intensa 
capacidade de serenidade que possua, embora desse a impresso de ser um esprito bravio num corpo 
delicadamente civilizado  todas essas coisas ficaram gravadas a fogo na minha memria. Jamais as 
esquecerei.

Cumprimentou-me com algumas palavras de agradveis boas-vindas, em voz baixa e clara, e eu deixei-me 
cair numa das cadeiras, francamente satisfeito por ter aceitado o convite do John. Mrs. Cavendish serviu-me 
ch e as suas observaes
serenas sublinharam a primeira impresso que me causara, isto , que se tratava de uma mulher 
absolutamente fascinante. Uma pessoa que sabe ouvir e apreciar o que ouve  sempre estimulante, e eu 
dei comigo a descrever, de modo humorstico, alguns incidentes ocorridos no meu Lar de Convalescentes, 
de uma maneira que, disso me gabo, divertiu muito a minha anfitri. Claro que o John, apesar de bom tipo, 
dificilmente se poderia considerar um bom conversador.

Nesse momento, uma voz de que me recordava bem soou, vinda da porta-janela aberta prxima:

Escreves ento a princesa depois do ch, Alfred? Eu prpria escreverei a Lady Tadminster para o segundo 
dia. Ou deveremos aguardar a resposta da princesa? Em caso de recusa, Lady Tadminster passaria para o 
primeiro dia e Mrs. Crosbie para o segundo. . H tambm a duquesa, acerca da festa escolar.

Ouviu-se o murmrio de uma voz masculina e, depois, de novo, a voz  era de Mrs. Inglethorp:

Sim, com certeza, depois do ch est muito bem. s to prestvel, querido Alfred!

A porta-janela abriu-se um pouco mais e uma elegante senhora de cabelo branco e feies um tanto ou 
quanto autoritrias, saiu para o relvado. Seguiu-a um homem, com uma sugesto de deferncia na atitude.

Mrs. Inglethorp cumprimentou-me efusivamente.

Que prazer voltar a v-lo ao fim de tantos anos, Mr. Hastings! Alfred, querido: Mr. Hastings... o meu marido.

Olhei com certa curiosidade para o Alfred, querido, que parecia realmente discrepante, ali. No me 
admirei de John no gostar da sua barba, que era uma das mais compridas e das mais pretas que j vira. O 
indivduo usava lunetas com aros de ouro e tinha umas feies curiosamente impassveis. Pensei que 
poderia parecer natural num palco, mas estava estranhamente deslocado na vida real. Tinha voz profunda e 
untuosa. Colocou na minha a sua mo, que parecia de madeira, e disse:  um prazer, Mr. Hastings.  Virou-
se para a mulher e

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acrescentou:  Minha querida Emily, acho que essa almofada est um pouco hmida.

Ela sorriu-lhe meigamente, enquanto ele substitua a almofada com todas as demonstraes do mais terno 
carinho Estranha cegueira da parte de uma mulher to sensata!

A presena de Mr. Inglethorp pareceu provocar uma atmosfera de constrangimento e velada hostilidade 
entre os outros Sobretudo Miss Howard, no tentou sequer disfarar os seus sentimentos, Mas Mrs. 
Inglethorp parecia no notar nada de especial. Dir-se-ia que a sua loquacidade, que recordava de outros 
tempos, no perdera nada ao longo daqueles anos em que no a vira. Falou quase incessantemente, em 
especial acerca da venda de caridade que estava a organizar e que seria inaugurada em breve. Recorreu 
uma vez por outra ao marido, por causa de dias ou datas, e a atitude atenta e atenciosa do indivduo nunca 
se modificou. Senti desde o princpio uma antipatia funda e firme por ele, e gabo-me de as minhas primeiras 
impresses serem geralmente acertadas.

Pouco depois, Mrs. Inglethorp virou-se para dar certas instrues a Evelyn Howard, acerca de umas cartas, 
e o marido aproveitou a ocasio para se me dirigir, na sua voz meticulosa

Ser soldado  a sua profisso habitual, Mr. Hastings?

No. Antes da guerra trabalhava na Lloyds.

E tenciona voltar para l quando o conflito terminar?

Talvez. Ou volto ou comeo totalmente de novo.

Mary Cavendish inclinou-se para a frente e perguntou-me

Que escolheria,  realmente,  como  profisso se pudesse obedecer apenas  sua inclinao?

Bem, depende.

No tem nenhum passatempo secreto? Diga-me, sente-se atrado para  qualquer coisa? Toda a gente se 
sente, e em geral para algo absurdo. 

Rir-se-ia de mm... , Mary Cavendish admitiu, a sorrir:                           , 

Talvez. 

Bem, tive sempre o desejo secreto de ser detective!

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Detective a srio, gnero Scotland Yard? Ou Sherlock Holmes?

Oh, Sherlock Holmes, claro! Mas, palavra,  uma coisa que me atrai tremendamente. Em tempos conheci 
um indivduo na Blgica, um detective muito famoso, e ele entusiasmou-me muitssimo. Era um 
homenzinho maravilhoso, que costumava dizer ser todo o bom trabalho de detective uma simples questo 
de mtodo. O meu sistema baseia-se no dele... embora, claro, eu tenha progredido mais. Era um 
homenzinho engraado, um grande janota, mas extraordinariamente esperto.

Pessoalmente, gosto de uma boa histria policial  observou Miss Howard.  Mas escrevem-se muitas tolices 
nesses livros. Criminosos desmascarados no ltimo captulo, toda a gente estupefacta   . No crime a srio 
sabe-se logo.

Tem havido um grande nmero de crimes que ficam por descobrir  discordei.

No me refiro  Polcia, mas s pessoas que esto envolvidas no assunto,  famlia. No  possvel engan-
las. Elas percebem logo.

Nesse caso  perguntei, divertido , acha que se estivesse relacionada com um crime  um assassnio, 
digamos  seria capaz de identificar logo o assassino?

Claro que seria! Talvez no fosse capaz de o provar a uma quantidade de advogados, mas tenho a certeza 
de que eu saberia. Senti-lo-ia nas pontas dos dedos, se ele se aproximasse de mim.

Poderia ser uma ela  observei.

Pois poderia. Mas o assassnio  um crime violento. Associo-o mais com o homem.

i No caso de envenenamento, no.  A voz clara de Mrs. Cavendish surpreendeu-me.  Ainda ontem o Dr. 
Baiuerv tein disse que, devido  ignorncia geral, pela classe mdica, dos venenos mais invulgares, havia 
provavelmente inmeros casos de envenenamento que nem sequer levantavam suspeitas.

Mas que sinistra conversa, Mary!  exclamou Mrs. Inglethorp.  At me arrepiou toda! Olhem, vem a a 
Cynthia.

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Uma rapariga nova, de uniforme das V. A. D., atravessou o relvado numa corrida leve.

Chegaste atrasada, Cynthia,! Mr. Hastings... Miss Murdoch. Cynthia Murdoch era uma jovem de ar fresco, 
cheia de vida

e energia. Tirou o bivaquezinho e eu admirei as grandes ondas soltas do seu cabelo arruivado e a pequenez 
e a brancura da mo que estendeu, a reclamar o seu ch. Se tivesse olhos e pestanas escuras seria uma 
autntica beldade.

Sentou-se no cho ao lado de John e sorriu-me quando lhe estendi um prato de sanduches.

Sente-se aqui na relva, ande  convidou-me.   muito mais agradvel.

Sentei-me obedientemente.

-Trabalha em Tadininster, no trabalha, Miss Murdoch?

Por mal dos meus pecados  confirmou, a acenar com a cabea.

O qu, arreliam-na?  perguntei, a sorrir.

Gostava de v-los atreverem-se a isso!  replicou Cynthia, cheia de dignidade.

Tenho uma prima auxiliar de enfermeira e ela sente verdadeiro terror pelas enfermeiras.

No me admiro. As enfermeiras so um terror, Mr. Hastings, so pura e simplesmente um terror! Nem faz 
ideia! Mas eu no estou em enfermagem, graas a Deus. Trabalho na farmcia.

Quantas pessoas j envenenou?  indaguei, a sorrir.    

Oh, centenas!  respondeu-me, tambm a sorrir.

Cynthia, podes escrever-me uns apontamentos?  perguntou  Mrs. Inglethorp.

com certeza, tia Emily.

Levantou-se imediatamente e na sua atitude houve algo que me recordou encontrar-se ela ali numa situao 
de dependncia, situao que Mrs. Inglethorp, apesar de bondosa, de modo geral, no lhe permitia 
esquecer.

A minha anfitri virou-se para mim e informou:

O John mostra-lhe o seu quarto. O jantar  s sete e meia.

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H j algum tempo que abandonmos os jantares prolongados. Lady Tadminster, a mulher do nosso 
membro do Parlamento filha do falecido Lorde Abbotsbury, fez o mesmo. Concorda com a minha opinio de 
que devemos dar o exemplo da economia. Somos uma casa em guerra, aqui nada se desperdia. At o 
mais pequenino bocado de papel  guardado e enviado em sacas!

Manifestei o meu apreo por tal procedimento e John levou-me para dentro. Subimos a larga escada, que 
bifurcava para a esquerda e para a direita, a meio do caminho, para diferentes alas do edifcio. O meu 
quarto ficava na ala esquerda  e dava para o parque.

John deixou-me e, poucos minutos depois, vi-o da janela atravessar lentamente o relvado, de brao dado 
com Cynthia Murdoch. Ouvi Mrs. Inglethorp chamar, impacientemente: Cynthia!, e vi a rapariga estremecer 
e voltar para trs a Correr. No mesmo momento, um homem saiu da sombra de uma rvore e dirigiu-se 
lentamente na mesma direco. Aparentava cerca de quarenta anos, era muito moreno e tinha rosto 
melanclico e rapado. Parecia dominado por qualquer emoo violenta. Levantou a cabea para a minha 
janela, ao passar, e reconheci-o, embora ele tivesse mudado muito nos quinze anos decorridos desde que 
nos vramos pela ltima vez: era o irmo mais novo de John, Lawrence Cavendish. Que lhe teria provocado 
aquela singular expresso?

Afastei-o, porm, do pensamento e recomecei a meditar nos meus prprios problemas.

O sero decorreu agradavelmente e nessa noite sonhei com a enigmtica Mary Cavendish.

A manh seguinte nasceu luminosa e cheia de sol e eu sentia-me encantado com a perspectiva de umas 
maravilhosas frias.

S vi Mrs. Cavendish  hora do almoo, e ela ofereceu-se para dar um passeio comigo. Passmos uma 
tarde encantadora nos bosques e regressmos a casa por volta das cinco horas.

Quando entrmos no grande trio, John chamou-nos, com

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um sinal,  sala de fumo. Percebi logo pela sua cara que acontecera algo aborrecido. Seguimo-lo e ele 
fechou a porta, depois de entrarmos.

Sucedeu uma grande chatice, Mary. A Evie teve uma discusso com Alfred Inglethorp e vai-se embora.

A Evie? Vai-se embora?

John acenou com a cabea, tristemente.

Sim. Imagina, foi ter com a me e... Olha, a est ela prpria.

Miss Howard entrou, de lbios firmemente cerrados e maleta na mo. Parecia agitada, decidida e 
ligeiramente na defensiva.

Pelo menos, disse o que tinha a dizer!  explodiu.

Minha querida Evelyn, no pode ser verdade!  exclamou Mrs. Cavendish.

Mas ,  verdade!  confirmou a outra, a acenar com a cabea, muito sria.  Creio que disse  Emily umas 
coisas que no poder esquecer nem perdoar to cedo. Mas provavelmente  no penetraram  muito  fundo,  
foram como gua  a escorrer  pelas  costas  de  um  pato.   Disse-lhe  sem  rodeios: A senhora  uma 
velha, Emily, e no h idiota pior do que, uma velha tonta. O homem  vinte anos mais novo do que voc e 
no tenha iluses quanto aos motivos por que casou consigo. Dinheiro! Pois bem, no lhe d demasiado. O 
agricultor Raikes tem uma mulher jovem e muito bonita. Pergunte ao seu Alfred quanto tempo ele passa por 
l. Ficou furiosa, naturalmente, e eu continuei: vou avis-la de uma coisa, quer lhe agrade, quer no: 
aquele homem de melhor grado a assassinaria na cama do que olharia para si!  m pea. Podem-me 
dizer o que quiser, mas lembre-se do que eu lhe disse: ele  m pea!

Que respondeu ela?

Querido Alfred... Queridssimo Alfred... Calnias venenosas... Mentiras perversas... Mulher 
perversa... Acusar o seu querido marido!...repetiu Miss Howard, com uma careta muito expressiva.  
Quanto mais cedo eu sasse da casa dela, melhor. Por isso vou-me embora.

Mas no agora, pois no?

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J, neste momento!

Ficmos aparvalhados, a olh-la. Por fim, verificando que no conseguia nada com as suas tentativas de 
persuaso, John Cavendish saiu da sala, para consultar o horrio dos comboios. A mulher seguiu-o, a 
murmurar qualquer coisa acerca da necessidade de convencer Mrs. Inglethorp a reflectir.

Quamdo ela saiu da sala, o rosto de Miss Howard modificou-se. Inclinou-se ansiosamente para mim e 
disse:

O senhor  honesto, Mr. Hastings. Posso confiar em Si? Fiquei um pouco surpreendido. Ela ps a mo no 
meu brao

e reduziu a voz quaise a um murmrio:

Olhe por ela, Mr. Hastings. Minha pobre Bmily! So uns tubares, todos eles. Oh, sei do que estou a falar! 
No h um s que no esteja sem vintm e a tentar apanhar-lhe dinheiro! Protegi-a o mais que pude, mas 
agora que fui afastada do caminho ho-de pression-la, aproveitar-se dela.

Claro que farei tudo quanto puder, Miss Howard, mas estou certo de que a senhora fala assim sob a 
influncia de uma grande agitao e nervosismo...

Ela interrompeu-me, a abanar lentamente o indicador:

Confie em mim, meu rapaz, pois ando neste mundo h> muito mais tempo do que voc. S lhe peo que 
conserve os olhos bem abertos. Ento ver o que quero dizer.

Entrou pela janela a vibrao do motor do automvel e Miss Howard levantou-se e encaminhou-se para a 
porta. A voz de John soou, no exterior. com a mo no puxador da porta, Miss Howard virou a cabea, por 
cima do ombro e recomendou-me:

Principalmente, Mr. Hastings, vigie o demnio: o marido dela!

No houve tempo para mais mada. Miss Howard foi engolida por um grande coro de protestos e adeus. Os 
Inglethorps no apareceram.

Quando o automvel arrancou, Mrs. Cavendish deixou, de sbito, o grupo e atravessou o caminho de 
carros, ao encontro

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de um homem alto e de barba que tudo indicava dirigir-se para a residncia. As faces de Mary coraram 
quando estendeu a mo ao indivduo.

Quem ?  perguntei vivamente, pois o indivduo inspirava-me uma desconfiana instintiva.

O Dr. Bauerstein  respondeu John, concisamente.

E quem  o Dr. Bauerstein?

Est na aldeia a fazer uma cura de repouso, depois de um grave colapso nervoso.  um especialista 
londrino muito competente, creio que um dos maiores peritos em venenos.

E um grande amigo da Mary  acrescentou a irreprimvel Cynthia.

John Cavendish franziu a testa e mudou de assunto:

Vamos dar uma volta, Hastings- Esta histria foi muitssimo desagradvel. A Evelyn teve sempre uma 
lngua muito afiada,  verdade, mas no h em toda a Inglaterra amiga mais fiel do que ela.

Meteu pelo carreiro atravs do campo lavrado e fomos at  aldeia, passando pelos bosques que 
contornavam um dos lados da propriedade.

Ao transpormos um dos portes, no regresso a casa, uma mulher nova e bonita, de tipo cigano, que seguia 
na direco oposta, inclinou a cabea e sorriu.

Bonita  rapariga  observei,  apreciadoramente.

 Mrs. Raikes  respondeu John, cujo rosto endureceu.

Aquela que Miss Howard...?

Exactamente  cortou   John,   com   desnecessria   brusquido.

Pensei na senhora idosa, de cabelos brancos, que morava naquela grande casa, e no rosto atrevido e cheio 
de vivacidade que acabava de nos sorrir, e senti percorrer-me um vago calafrio premonitrio. Mas afastei tais 
pensamentos.

Styles  realmente uma maravilha  disse a John

Sim,  uma bela propriedade  concordou, a acenar melancolicamente com a cabea.  Ser minha um dia... 
j deveria ser minha agora, por direita razo, se o meu pai tivesse

2 - VAMP. G. 1

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feito um testamento decente. Se assim fosse, no estaria to

atrapalhado como estou.

Atrapalhado?

Meu caro Hastings, no me importo de te dizer que preciso desesperadamente de dinheiro e no sei que 
fazer.

O teu irmo no te pode ajudar?

O Lawrence? Gastou tudo quanto tinha a publicar maus versos em bonitas encadernaes! No, estamos 
ambos falidos. Devo dizer que a minha me foi sempre muitssimo boa para ns... isto , at agora. Desde 
que casou, claro...  Calou-se, de testa franzida.

Senti pela primeira vez que, com a partida de Evelyn Howard, algo de indefinvel abamdonara o ambiente. A 
sua presena dera uma impresso de segurana, mas agora essa segurana dissipara-se e a a atmosfera 
parecia carregada de suspeitas. Revi desagradavelmente o rosto- sinistro do Dr. Bauenstein- Encheune o 
esprito de uma suspeita vaga de tudo e todos. Tive, momentaneamente, a premonio de que se 
aproximava algo de mau.

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Captulo II

16   E    17   DE   JULHO

Chegara a STYLES no dia 5 de Julho. Agora vou falar dos acontecimentos de 16 e 17 desse ms. Para 
convenincia do leitor, recapitularei o que se passou nesses dias com a maior exactido possvel. Os 
incidentes foram posteriormente examinados no julgamento, por meio de longos e enfadonhos 
interrogatrios.

Uns dois dias depois da sua partida, recebi uma carta de Evelyn Howard a dizer-me que estava a trabalhar 
como auxiliar de enfermagem no grande hospital de Middlingham, uma cidade industrial a cerca de 25 
quilmetros de distncia, e a pedir-me que a informasse se Mrs. Inglethorp evidenciasse algum desejo de 
reconciliao.

A nica nota discordante dos meus pacficos dias era a extraordinria e, quanto a mim, inexplicvel 
preferncia de Mrs. Cavendish pela companhia do Dr- Bauerstem. No fao a mnima ideia do que ela via no 
indivduo, mas estava constantemente a convid-lo l para casa e dava muitas vezes longos passeios com 
ele. Devo confessar que por muito que me esforasse no descobria o mnimo atractivo no doutor.

O 16 de Julho calhou numa segunda-feira. Foi um dia muito agitado. A famosa venda de caridade efectuara-
se no sbado e naquela noite haveria uma festa, relacionada com a referida obra caritativa, na qual Mrs. 
Inglethorp recitaria um poema

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de guerra. Passmos todos uma manh atarefadssima a arranjar e decorar o salo municipal, onde a 
funo se realizaria. Almomos tarde e passmos a tarde a descansar no jardim. Reparei que a atitude do 
John era diferente da habitual; parecia muito agitado e inquieto.

Depois do ch, Mrs- Inglethorp foi-se deitar a descansar, a fim de estar em forma para o esforo do sero, e 
eu desafiei Mary Cavendish para uma partida de tnis.

Cerca de um quarto para as sete, Mrs. Inglethorp avisou-nos de que nos atrasaramos, visto o jantar ser 
mais cedo, naquele dia. Tivemos de andar depressa, para estarmos prontos a tempo, e antes de 
acabarmos de comer j o carro estava  espera,  porta.

O sero foi um grande xito e a declamao de Mrs. Inglethorp tremendamente aplaudida. Representaram-
se tambm alguns quadros, em que Cynthia participou. A jovem no regressou connosco, pois tinha sido 
convidada para uma ceia e passaria a noite com alguns amigos que tinham representado com ela.

Na manh seguinte, Mrs. Inglethorp tomou o pequeno-almoo na cama, em virtude de estar muito fatigada. 
Mas cerca do meio-dia e meia hora apareceu, desembaraada e activa como sempre, e levou-nos, ao 
Lawrence e a mim, a um almoo-

Tratava-se de um convite encantador de Mrs. Rolleston, a irm de Lady Tadminster. Os Rollestons vieram 
com o Conquistador, so uma das nossas famlias mais antigas.

Mary escusara-se, a pretexto de que j tinha um compromisso com o Dr. Baiuerstein.

Foi um almoo agradvel e, quando nos viemos embora, Lawrence sugeriu que regressssemos por 
Tadminster, o que nos obrigava a um desvio de pouco mais de um quilmetro, apenas, e visitssemos 
Cynthia, na farmcia. Mrs. Inglethorp achou a ideia excelente, mas disse que tinha umas cartas para 
escrever e, por isso, nos deixaria l e depois ns seguiramos com Cynthia na charrete.

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O porteiro do hospital deteve-nos, desconfiado, at Cynthia aparecer, muito severa e bonita na comprida 
bata branca, e se responsabilizar por ns. Levou-nos para o seu santurio e apresemtou-nos  colega, uma 
mulher cujo aspecto inspirava temor, mas que ela tratava alegremente por Nibs.

Ena, tantos frascos!  exclamei, enquanto os meus olhos percorriam a pequena sala-  Sabe realmente o que 
est em todos eles?

Diga qualquer coisa original!  pediu Cynthia, comicamente.  No vem aqui ningum, absolutamente 
ningum, que no diga isso. Estamos at a pensar em oferecer um prmio  primeira pessoa que no diga: 
Ena, tantos frascos! E sei que a seguir me vai perguntar: Quantas pessoas j envenenou?

Dei uma gargalhada e declarei-me culpado.

Se soubessem como  fatalmente fcil envenenar algum por engano, no brincariam com o assunto. 
Vamos tomar ch! Temos uma quantidade de provises de toda a espcie naquele armrio. No, Lawrence, 
esse  o armrio dos venenos. No grande... esse mesmo.

Tommos ch alegremente e depois ajudmos Cynthia a lavar a loua. Acabvamos de arrumar a ltima 
colher quando bateram  porta.. As feies de Cynthia e Nibs petrificaram-se, de sbito, numa expresso 
severa e grave.

Entre  ordenou Cynthia, em tom brusco e profissional. Uma auxiliar de enfermeira muito nova e de ar 
assustado

entrou e estendeu um frasco a Nibs, que apontou para Cynthia, com um gesto vago, e observou, um pouco 
enigmaticamente:

Eu no estou realmente aqui, hoje.

Cynthia pegou no frasco e examinou-o com a severidade de um juiz.

Isto devia ter vindo esta manh.

A Sr. Enfermeira pede muita desculpa, mas esqueceu-se.

A Sr. Enfermeira devia ler os regulamentos, que esto afixados do lado de fora da porta.

Deduzi pela expresso da jovem auxiliar no haver a mnima

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probabilidade de ela ter a coragem de repetir a mensagem  temida Sr. Enfermeira.

 Agora s pode ser preparado amanh  declarou Cynthia.   No lhe seria possvel arranjar para esta noite?...

Bem, estamos muito cheias de trabalho, mas se tivermos tempo prepar-lo-emos  prometeu Cynthia, em 
tom de quem faz um favor.

A rapariga saiu e Cynthia tirou imediatamente um boio da prateleira, encheu o frasco e colocou-o em cima 
da mesa, do lado de fora.

Ri-me.

H que mamter a disciplina?

Exactamente- Venham  nossa varandinha, de onde se vem todas as nossas enfermarias externas.

Segui Cynthia e a amiga e elas apontaram-me as diferentes enfermarias. Lawrence deixou-se ficar na sala, 
mas passados momentos Cynthia chamou-o, por cima do ombro, para se nos juntar. Depois viu as horas.

No h mais nada que fazer, Nibs?  perguntou.

No.

Nesse caso, podemos fechar a loja e ir-nos embora. Naquela tarde fora-me dado ver Lawrence a uma luz 
muito

diferente. Comparado com o irmo, era uma pessoa dificlima de conhecer. Extraordinariamente tmido e 
reservado, era o contrrio de John em quase todos os aspectos. No entanto, as suas maneiras tinham um 
certo encanto e eu imaginei que, se algum o conseguisse conhecer bem, poderia ter-lhe uma afeio 
profunda. Sempre me parecera que a sua atitude para com Cynthia era muito constrangida e que ela tinha 
tendncia para o evitar, mas naquela tarde mostraram-se ambos alegres e tagarelaram um com o outro 
como dois garotos.

Ao atravessarmos a aldeia, lembrei-me de que precisava de selos e, por isso, parmos nos Correios.

Quando sa, choquei com um homenzinho que ia a entrar.

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v Desviei-me e pedi desculpa, mas, nisto, com uma sonora exclamao, ele abraouHme e beijou-me 
enternecidamente.

Mon ami Hastings!  realmente mon ami Hastings!

Poirot!  exclamei.

Virei-me para a charrete e anunciei:

Acabo de ter um encontro muito agradvel, Miss Cynthia! Este  o meu velho amigo, Monsieur Poirot, que 
no via h anos.

Ns conhecemos Monsieur Poirot  redarguiu Cynthia, risonha.  Mas no fazia ideia que fosse seu amigo.

 verdade, conheo Mademoiselle Cynthia  confinmou Poirot, muito srio.   graas  caridade da boa Mrs. 
Inglethorp que estou aqui.  E, como eu o olhasse interrogadoramente, explicou:  Sim, meu amigo, ela teve 
a bondade de nos conceder hospitalidade, a mim e a sete compatriotas meus, refugiados da sua terra 
natal.  Ns,  belgas, record-la-emos sempre com gratido.

Poirot era um homenzinho de aspecto extraordinrio. No devia medir mais de 1,60m de altura, mas tinha 
um porte cheio de dignidade. O formato da sua cabea era exactamente o de um ovo e ele andava sempre 
com ela um nadinha inclinada para o lado. Usava um bigode muito espetado e muito marcial. A 
impecabilidade do seu trajar era quase inacreditvel. Creio que um gro de p lhe faria doer mais do que o 
ferimento de uma bala. Contudo, aquele homenzinho janota que, triste me foi verific-lo, coxeava muito, o 
que no sucedera quando o conhecera, tinha sido no seu tempo um dos mais famosos membros da Polcia 
belga. Como detective, o seu faro era excepcional e ele acumulara triunfos ao deslindar alguns dos casos 
mais intrigantes da poca.

Apontou-me a casinha onde morava com os outros belgas e eu prometi visit-lo em breve. Depois tirou o 
chapu a Cynthia, com um floreado, e ns partimos,


 um homenzinho simptico  observou Cynthia.  No imaginava que o conhecesse.
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Deram hospitalidade a uma celebridade sem o saberem afirmei.

Durante o restante trajecto falei-lhes das vrias proezas e dos triunfos de Hercule Poirot.

Chegmos numa disposio muito alegre, mas ao entrarmos no vestbulo, Mrs. Inglethorp saiu da sua 
saleta e pareceu-nos afogueada e transtornada.

Ah, so vocs!  exclamou.

Aconteceu alguma coisa, tia Emily?perguntou Cynthia.

Claro que no!  respondeu a anci, bruscamente.  Que querias que acontecesse?  Depois, ao ver Dorcas, a 
criada de fora, entrar na sala de jantar, chamou-a e pediu-lhe que lhe levasse uns selos  saleta.

Sim, minha senhora.  A velha criada hesitou e por fim perguntou, respeitosa:  No acha que seria melhor 
deitar-se? Tem um ar muito cansado.

Talvez tenhas razo, Dorcas... sim... no, agora, no. Preciso de escrever umas cartas a tempo de 
seguirem no conreio. Acendeste a lareira no meu quarto, como te disse?

Sim, minha senhora.

Deitar-me-ei logo depois do jantar.

Voltou para a saleta e Cynthia seguiu-a com o olhar.

Meu Deus, que ter acontecido?  perguntou a Lawrence, Mas ele nem pareceu ouvi-la, pois, sem dizer 
palavra girou

nos calcanhares e saiu de casa.

Sugeri uma rpida partida de tnis, antes do jamtar, e, como Cynthia concordou, fui a correr buscar a 
raquete ao quarto.

Mrs- Cavendish vinha a descer a escada. Pode ter sido impresso minha, mas parecenwne tambm 
estranha e perturbada.

Deu um bom passeio com o Dr. Bauerstein?  perguntei, tentando falar no tom mais indiferente possvel.

No sa respondeu bruscamente.  Onde est Mrs. Inglethorp?

Na saleta.

Vi a mo fechar-se-lhe no corrimo e, depois, pareceu-me que

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se enchia de coragem, como se decidisse enfrentar qualquer encontro difcil. Desceu rapidamente a 
escada, atravessou o vestbulo, entrou na saleta e fechou a porta.

Quando corria para a quadra de tnis, poucos momentos depois, tive de passar pela janela da saleta, que 
estava aberta, e no pude deixar de ouvir um fragmento de dilogo. Mary Cavendish perguntava, no tom de 
voz de uma mulher que se dominava desesperadamente:

No ma quer, ento, mostrar? Ao que Mrs. Inglethorp respondeu:

Minha querida  Mary, no tem nada a  ver com esse assunto.

Ento mostre-ma.

J te disse que no  o que imaginas. No te diz absolutamente respeito nenhum.

E Mary Cavendish redarguiu, com amargura crescente:

Claro, eu devia saber que a senhora o protegeria. Cynthia esperava por mim e, ao verme, informou:

Houve uma grande discusso! A Dorcas contou-me tudo.

Que tipo de discusso?

Entre a tia Emily e ele. Espero que ela lhe tenha descoberto o jogo, finalmente!

Ento a Dorcas assistiu?

Qlaro que no! Por coincidncia estava perto da porta. Mas foi uma zaragata das antigas! Gostaria de 
saber acerca de qu.

Pensei no rosto aciganado de Mrs. Raikes e nas advertncias de Evelyn Howard, mas decidi sensatamente 
calar a boca, enquanto Cynthia esgotava todas as hipteses possveis e rematava, animada pela 
esperana:

A tia Emily mand-lo- embora e nunca mais lhe falarEstava ansioso por falar com o John, mas ele 
parecia ter levado sumio. Era evidente que sucedera algo muito importante naquela tarde. Tentei esquecer 
as poucas palavras que por minha vez tambm ouvira, ao passar, mas por muito que

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fizesse no consegui afast-las por completo do pensamento. Que preocuparia Mary Cavendish em tudo 
aquilo?

Mr. Inglethorp estava na sala quando desci para jantar. O seu eterno rosto impassvel e a sua estranha 
irrealidade surpreenderam-me mais uma vez.

Mrs. Inglethorp foi a ltima a descer. Ainda parecia agitada e durante a refeio reinou um silncio um 
pouco constrangido. Inglethorp mostrouHse invulgarmente calado e sossegado. Por norma, rodeava a 
mulher de pequenas atenes, punha-lhe uma almofada nas costas da cadeira, enfim, desempenhava o 
papel do marido devotado. Mas naquela noite, no. Logo aps o jantar, Mrs. Inglethorpe voltou para a sua 
saleta.

Manda-me l o meu caf, Mary  pediu.  Disponho apenas de cinco minutos, antes do correio.

Cynthia e eu sentmo-nos junto da janela aberta da sala e Mary serviu-nos l o caf. Tambm parecia 
enervada.

Querem a luz acesa ou gostam da penumbra?  perguntou-nos.  Levas o caf a Mrs. Inglethorp, Cynthia? Eu 
vou deit-lo.

No se incomode, Mary  interveio Inglethorp.  Eu levo-o  Emily.  Deitou o caf e saiu da sala, segurando 
cuidadosamente a chvena.

Lawrence seguiu-o e Mrs. Cavendish sentou-se junto de ns.

Ficmos algum tempo calados, os trs. Estava uma noite maravilhosa, quente e serena. Mrs. Cavendish 
abanava-se lentamente com uma folha de palmeira.

Est um calor quase excessivo  murmurou.  Vai haver trovoada.

Infelizmente, tais momentos harmoniosos no podem durar. O meu paraso foi rudemente despedaado 
pelo som de uma voz bem conhecida e profundamente detestada, no vestbulo.

O Dr. Rauerstein!  exclamou Cynthia.  Que estranha hora para aparecer!

Olhei, ciumento, para Mary Cavendish, mas ela parecia absolutamente imperturbvel e a palidez delicada 
das suas faces no mudou.

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Poucos momentos depois, Alfred Inglethorp entrava com o doutor, o qual afirmava, a rir, que no se 
encontrava em estado de aparecer numa sala. E, na verdade, apresentava um espectculo lamentvel, todo 
ele coberto de lama seca.

Que andou a fazer, doutor?  perguntou-lhe Mrs.  Cavendish.

Devo apresentar as minhas desculpas  insistiu o indivduo. No tencionava entrar, creiam, mas Mr. 
Inglethorp insistiu.

Bem, Bauerstein, parece em apuros  observou John, que entrava na sala vindo do vestbulo.  Beba uma 
chvena de caf e conte-nos em que andou metido.

Obrigado, aceito.

Riu-se, um pouco atrapalhado, ao explicar que descobrira uma espcie de feto muito rara, num lugar 
inacessvel, e que ao esforar-se por alcan-lo, escorregara e fora parar ignominiosamente a um tanque 
prximo.

O sol secou-me depressa  acrescentou , mas o meu aspecto est uma desgraa.

Nesse momento, Mrs. Inglethorp chamou Cynthia, do vestbulo, e a jovem levantou-se e correu ao seu 
encontro.

Leva para cima a minha caixa da correspondncia, sim, querida? Vou-me deitar.

A porta de acesso ao vestbulo era larga. Eu levantara-me quando Cynthia se levantara, e John estava perto 
de mim Havia portamto trs testemunhas que podiam jurar que Mrs. Inglethorp tinha a chvena do caf na 
mo, ainda intacta

A presena do Dr. Bauerstein estragou-me por completo o sero. Parecia-me que o indivduo nunca mais 
se ia embora. Mas ele l se levantou, por fim, e eu soltei um suspiro de alvio.

Acompanho-o a p at  aldeia  disse Mr. Inglethorp. Preciso de falar com o nosso agente acerca de umas 
contas da propriedade.  Voltou-se para John e acrescentou:  No  necessrio ficar ningum levantado  
minha espera; levo a chave do trinco.

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Captulo III
A NOITE DA TRAGDIA
Para tornar esta parte da minha histria mais cclara junto a seguinte planta do primeiro andar de Styles:
***
 H aqui um esquema que no pode ser descrito de modo intelegvel
Nota do digitalizador
***
O acesso aos quartos dos criados faz-se pela porta B. Estes no tm qualquer comunicao com a ala 
direita, onde ficavam os quartos dos Inglethorps.

Lawrence Cavendish acordou-me, creio que mo meio da noite. Segurava uma vela e a agitao do seu rosto 
disse-me logo que se passava algo muito grave.

Que aconteceu?  perguntei, sentando-me na cama e tentando ordenar as ideias.

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, Receamos que a minha me esteja muito doente. Parece estar com uma espcie de ataque qualquer. 
Infelizmente, aferrolhou-se por dentro.

Vou imediatamente.

Saltei da cama, enfiei um roupo e segui Lawrence pelo corredor, at  ala direita da casa.

John Cavendish reuniu-se-nos. Duas ou trs criadas estavam paradas nas proximidades, cheias de 
nervosismo e medo. Lawrence virou-se para o irmo e perguntou-lhe:

Que te parece que devemos fazer?

Nunca a indeciso do seu carcter me parecera mais aparente.

John girou violentamente o puxador da porta de Mrs. Inglethorp, mas sem resultado. Era evidente que a 
porta estava fechada  chave ou aferrolhada do lado de dentro. Entretanto, toda a casa acordara. Do interior 
do quarto vinham os sons mais alarmantes. Era preciso fazer qualquer coisa, sem dvida.

Tente entrar pelo quarto de Mr.  Inglethorp  sugeriu Dorcas.  Oh, a pobre senhora!

De sbito, reparei que Alfred Inglethorp no estava connosco, que s ele no dera ainda sinal da sua 
presena. John abriu a porta do quarto do indivduo, que estava absolutamente s escuras. Mas Lawrence 
seguiu-o com a vela, a cuja luz fraca vimos que ningum utilizara a cama nem havia quaisquer sinais de o 
quarto ter sido ocupado-

Fomos direitos  porta de comunicao, mas tambm estava fechada, ou aferrolhada, do outro lado. Que 
fazer?

Oh, meu querido senhor  choramingou Dorcas, a torcer as mos, que havemos de fazer?

Temos de tentar arrombar a porta, creio. Mas ser difcil. Olhe, mande uma das criadas l abaixo, acordar o 
Baily, e ele que v imediatamente chamar o Dr. Wilkins. Entretanto, experimentaremos arrombar a porta. 
Um momento! No h uma porta de acesso ao quarto de Miss Cynthia?

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H, sim, senhor, mas essa est sempre aferrolhada. Nunca

 aberta.

Bem, podamos ver.

Correu rapidamente pelo corredor fora, para o quarto de Cynthia. Mary Cavendish j l estava, a sacudir a 
rapariga que devia ter um sono extraordinariamente pesado  e a tentar acord-la

Voltou passados momentos.

Nada feito, tambm est aferrolhada. Temos de arrombar a porta. Creio que esta  um bocadinlho menos 
slida do que a do corredor.

Tommos balano e investimos juntos. A porta era slida e resistiu durante muito tempo aos nossos 
esforos, mas por fim sentimo-la ceder sob o nosso peso at que, estrondosamente,

se escancarou.

Entrmos todos de cambulhada, o Lawrence ainda a segurar a vela. Mrs. Inglethorp estava deitada na 
cama, com todo o corpo agitado por violentas convulses, numa das quais devia ter derrubado a mesa-de-
cabeceira. Quando entrmos, porm, os membros descontraram-se-lhe e recaiu nas almofadas.

John atravessou o quarto e acendeu o gs- Depois virou-se para Annie, uma das criadas, e mandou-a 
buscar brande  sala de jantar. Em seguida aproximou-se da me, enquanto eu abria a porta que dava para 
o corredor.

Virei-me para Lawrence, para lhe dizer que talvez fosse melhor deix-las, agora que j no necessitavam 
dos meus servios, mas as palavras gelaram-me nos lbios. Nunca vira uma expresso to terrvel no rosto 
de qualquer homem. Estava lvido como a cal, a vela que segurava com mo trmula pingava cera para a 
carpete e os seus olhos, petrificados de terror ou de qualquer emoo semelhante, olhavam fixamente, por 
cima da minha cabea, para um ponto na parede. Era como se tivesse visto qualquer coisa que o 
transformara em pedra. Segui instintivamente a direco do seu olhar, mas no vi nada de estranho. As 
cinzas da lareira, ainda vagamente averme-

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lhadas, e os ornamenttos afectados da prateleira da chamin, pareceram-me absolutamente inofensivos.

A violncia do ataque de Mrs. Inglethorp parecia diminuir e ainda conseguiu falar, em arrancos breves:

Estou melhor... foi muito rpido... estupidez a minha... fechar-nme c dentro...

Projectou-se uma sombra na cama e, levantando a cabea, vi Mary Cavendish parada junto da porta, com o 
brao  volta de Cynthia- Dava a impresso de estar a amparar a rapariga, que parecia absolutamente 
atordoada e diferente de si mesma. Tinha a cara muito corada e bocejava repetidamente.

Pobre Cynthia, est muito assustada  disse Mrs. Cavendish, em voz baixa eclara.

Reparei que ela prpria vestia a bata branca com a qual costumava trabalhar na quinta, o que significava 
que devia ser mais tarde do que eu pensara  Coava-se pelas cortinas das janelas uma leve luminosidade e 
no relgio da chamin eram quase cinco horas.

Um grito estrangulado, vindo da cama, assustou-me. Um novo acesso de dor torturava a infeliz senhora. As 
convulses eram de uma violncia terrvel. Gerou-se confuso. Cerc-mo-la todos, incapazes de a ajudar ou 
de lhe aliviar o sofrimento. Uma derradeira convulso ergueu-a da cama, at ela parecer repousar apenas na 
cabea e nos calcanhares, enquanto todo o corpo se lhe arqueava de modo extraordinrio. Em vo Mary e 
John tentaram faz-la ingerir mais brande. O tempo voavaO corpo voltou a arquear-se daquela estranha 
maneira,

Nesse momento, o Dr. Bauerstein abriu autoritariamente caminho e entrou no quarto. Estacou um 
momento, a fitar a figura na cama, e no mesmo instante Mrs. Inglethorp gritou, em voz estrangulada e com 
os olhos fixos no mdico:

Alfred... Alfred!...  Depois recaiu, imvel, na cama. com uma passada, o mdico alcanou o leito e, 
agarrando nos braos de Mrs. Inglethorp, movimentou-os energicamente, aplicando-lhe aquilo que eu sabia 
ser respirao artificial. Deu

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algumas ordens breves e peremptrias s criadas- Um gesto imperioso da sua mo fez-nos recuar a todos 
para a porta. Observmo-lo, fascinados, embora eu creia que todos sabamos, no nosso ntimo, que era 
demasiado tarde e que j nada podia ser feito. Pareceu-mi, pela expresso de Bauerstein, que ele tambm 
tinha poucas esperanas.

Por fim desistiu dos seus esforos, a abanar gravemente a cabea. Nesse momento ouvimos passos, no 
exterior, e o Dr. Wilkins, mdico particular de Mrs. Inglethorp, um homenzinho corpulento e atarantado, 
entrou no quarto.

Em poucas palavras, o Dr. Bauerstein explicou-lhe que ia a passar junto do porto quando o carro ia a sair 
e que correra para a residncia o mais depressa que pudera, enquanto o automvel ia buscar o Dr. Wilkins. 
Apontou, com um pequeno gesto, o vulto estendido na cama.

Mui...to triste, mui...to triste  murmurou o Dr. Wilkins. Pobre senhora.! Fazia sempre mais do que devia... 
mais ao que devia... contrariamente aos meus conselhos. Eu avisei-a, o seu corao no estava nada 
forte. Tenha calma, recomendei-lhe, tenha calma e no abuse. Mas no, o af das obras de  caridade 
era demasiado grande. A natureza revoltou-se. A na...tu...reza r...voltou-se.

Reparei que o Dr. Bauerstein observava o mdico local de olhos semicerrados. E foi sem o desfitar que 
falou:

As convulses revestiram-se de violncia peculiar, Dr. Wilkins. Lamento que no tenha chegado a tempo de 
as observar. Eram de carcter... tetnico.

Ah!  exclamou o Dr. Wilkins, sensatamente.

Gostaria de falar consigo em particular  disse o Dr. Bauerstein, e acrescentou, voltando-se para John:  
Importa-se?

Claro que no.

Samos todos para o corredor, deixando os dois mdicos sozinhos, e eu ouvi a chave girar na fechadura.

Descemos a escada, devagar. Sentia-me violentamente excitado. Possuo um certo talento dedutivo e a 
atitude do Dr.

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Bauerstein desencadeara uma srie de loucas suposies no meu esprito. Mary Cavendish ps a mo no 
meu brao e perguntou:

Que se passa? Porque se mostrou o Dr. Bauerstein to... estranho?

Quer saber o que penso?perguntei, fitando-a.

Quero.

Escute.  Olhei em redor, certifiquei-me de que os outros estavam afastados, mas mesmo assim baixei a 
voz, ao dizer: Acho que ela foi envenenada! Tenho a certeza de que o Dr. Bauerstein suspeita disso.

O  qu?!  Mary encolheu-se contra a parede, com as pupilas muito dilatadas, e depois assustou-me, 
desatando subitamente a gritar: No, no... isso no... isso no!

Afastou-se de mim e correu pela escada acima. Segui-a, com receio de que desmaiasse, e encontrei-a 
encostada ao corrimo, mortalmente plida. Mandou-me embora com um gesto impaciente.

No, no...  deixe-me.  Prefiro ficar sozinha.  Deixe-me sossegada um minuto ou dois, volte para junto dos 
outros.

Obedeci-lhe, contrafeito. John e Lawrence estavam na sala e eu juntei-me a eles. Creio que exprimi o 
pensamento de todos quando quebrei, finalmente, o silncio e perguntei:

Onde est Mr. Inglethorp?

John abanou a cabea.

No est em casa.

Os nossos olhos fitaram-se. Onde estava Alfred Inglethorp? A sua ausncia era estranha e inexplicvel. 
Lembrei-me das ltimas palavras de Mrs- Inglethorp. Que ocultariam? Que mais poderia ela ter-nos dito, se 
tivesse tido tempo?

Finalmente ouvimos os mdicos descer a escada. O Dr. Wilkins vinha com um ar importante e agitado e 
dir-se-ia tentar ocultar a exultao interior sob uma atitude de calma apropriada. O Dr. Bauerstein manteve-
se em segundo plano, com o grave rosto barbudo imperturbvel. O Dr. Wilkins foi o porta-voz de ambos, ao 
dirigir-se a John:
 3 - VAMP. G. 1

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Mr. Cavendish, desejava o seu consentimento para, uma autpsia.

 necessrio?  perguntou John, muito srio, e um espasmo de dor perpassou-lhe pelo rosto.

Absolutamente  respondeu o Dr. Bauerstein.

Quer dizer com isso...?

Quero dizer que, dadas as circunstncias, nem o Dr. Wilkins nem eu poderamos assinar uma certido de 
bito.

John baixou a cabea.

Nesse caso, no tenho outro remdio seno autorizar.

Obrigado  agradeceu, vivamente, o Dr. Wilkims.  Tencionamos efectu-la amanh  noite, ou melhor, esta 
noite informou, a olhar para a luz do dia.  Dadas as circunstncias, receio que seja impossvel evitar um 
inqurito. Estas formalidades so necessrias, mas peo-lhes que no se atormentem...

Seguiu-se uma pausa e, depois, o Dr. Bauerstein tirou duas chaves da algibeira e estendeu-as a John:

So as chaves dos dois quartos Fechei-os  chave e, na minha opinio, acho que os deviam conservar 
assim, por enquanto.

Os mdicos foram-se embora.

Estivera a remoer uma ideia, mentalmente, e pareceu-me que chegara o momento de a expor. No entanto, 
tinha um certo receio de o fazer, pois sabia que o John tinha horror a qualquer tipo de publicidade e era uma 
espcie de optimista, que preferia no ir, nunca, ao encontro de aborrecimentos. Talvez fosse difcil 
convenc-lo do acerto do meu plano. Quanto a Lawrence, parecia-me que poderia contar com ele como 
aliado, em virtude de ser menos convencional e de possuir mais imaginao do que o irmo. No me 
restavam dvidas de que chegara o momento de falar:

John, vou pedir-te uma coisa.

O qu?

Lembras-te de eu falar do meu amigo Poirot, o detective belga que est c?

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Lembro.

Quero que me deixes cham-lo... para investigar este caso.

O qu, agora? Antes da autpsia?

Sim. O tempo  uma vantagem, se... se houve crime.

Disparate!  protestou   Lawrence,   furioso.  Na  minha opinio,  tudo uma confuso do Bauerstein! No 
passou tal coisa pela cabea do Wilkins enquanto o Bauerstein l no lha meteu. Mas, como todos os 
especialistas, o Bauerstein no regula bem. Os venenos so o seu passatempo e por isso, claro, v-os em 
toda a parte.

Confesso que fiquei surpreendido com a atitude do Lawrence, que s muito raramente manifestava 
veemncia acerca de qualquer coisa.

John hesitou.

No penso como tu, Lawrence  declarou, por fim.  Sinto-me inclinado a dar pulso livre ao Hastings, embora 
preferisse esperar um pouco. No desejamos nenhum escndalo desnecessrio.

No,  no!  apressei-me a  tranquiliz-lo.  No tenhas qualquer receio a esse respeito. O Poirot  a 
discrio em pessoa.

Nesse caso, muito bem, procede como entenderes. Deixo tudo nas tuas mos... embora, se as coisas so 
como suspeito, o caso seja simples e claro. Deus me perdoe se estou a ser injusto!

Consultei o relgio. Seis horas. Decidi no perder tempo.

No entanto, concedi-me uma demora de cinco minutos, durante os quais bisbilhotei na biblioteca at 
encontrar um livro de medicina que descrevia o envenenamento pela estricnina.
35
Captulo IV

POIROT   INVESTIGA

A casa ocupada pelos belgas na aldeia ficava muito perto dos portes do parque. Poupava-se tempo 
metendo por um estreito carreiro atravs da erva alta, que evitava os desvios do caminho de carros, todo s 
curvas. Fui, pois, por a. Estava quase a chegar  casa do guarda quando atraiu a minha ateno o vulto de 
um homem a correr na minha direco. Era Mr. Inglethorp. Onde estivera? Como pensaria explicar a sua 
ausncia?

Dirigiu-se-me ansiosamente e exclamou:

Meu Deus,  horrvel! A minha pobre mulher! S agora tive conhecimento...

Onde esteve?

O Denby demorou-me, a noite passada, j era uma hora da manh quando acabmos. Depois, ainda por 
cima, descobri que me esquecera da chave do trinco. No quis acordar toda a gente e, por isso, o Denby 
cedeu-me uma cama.

Como soube a notcia?

O Wilkins acordou o Denby para lhe dizer. Minha pobre Emily! To abnegada, um carcter to nobre... 
Abusou das foras.

Percorreu-me uma grande nusea. Que consumado hipcrita o indivduo era!

Estou com pressa  disse-lhe, grato por ele no me perguntar aonde ia.

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Poucos minutos depois estava a bater  porta do Leastway Cottage.

Como no obtivesse resposta, bati de novo, impacientemente. Abriu-se uma janela do andar de cima, 
cautelosamente, e Poirot em pessoa espreitou pela abertura.

Soltou uma exclamao de surpresa, ao ver-me. Em poucas e breves palavras relatei-lhe a tragdia ocorrida 
e disse-lhe que desejava a sua ajuda.

Espere, meu amigo. vou abrir-lhe a porta e contar-me- tudo de novo enquanto eu me vestir.

Passados instantes destrancou a porta e eu acompanhei-o ao quarto, onde me instalou numa cadeira. 
Contei-lhe ento a histria toda, sem ocultar nada nem omitir quaisquer circunstncias, por muito 
insignificantes que parecessem, enquanto ele se arranjava com todo o cuidado e esmero.

Contei-lhe como acordara, repeti-lhe as ltimas palavras de Mrs. Inglethorp e pu-lo ao corrente da ausncia 
do marido da vtima, da zaragata do dia anterior, do fragmento de conversa que ouvira por acaso entre Mary 
e a sogra, da anterior discusso entre Mrs. Inglethorp e Evelyn Howard e das insinuaes desta ultima.

No entanto, no fui to claro quanto desejaria, repeti-me diversas vezes e ocasionalmente tive de voltar 
atrs, para referir um ou outro pormenor que esquecera. Poirot sorriu-me, compreensivamente.

A mente est confusa, no  verdade? No se apresse, mon ami. Est nervoso, agitado, o que  natural. 
Daqui a bocadinho, quando estivermos mais calmos, ordenaremos os factos, arrum-los-emos muito bem  
arrumadinhos nos seus lugares prprios. Estud-los-emos e rejeitaremos os que no interessarem. 
Poremos os importantes de um lado e os outros, os sem importncia... puf!  franziu a cara de querubim e 
soprou comicamente, prescindiremos deles.

Isso  muito bonito, mas como decidir o que  importante e o que no ?  isso que me parece sempre 
difcil, a mim.

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Poirot abanou a cabea, energicamente, enquanto tratava do bigode com minucioso cuidado.

Mas no . Voyons! Um facto conduz a outro, por isso continuamos.   O   seguinte  tambm  se  ajusta?  
A   merveille! ptimo!  Podemos prosseguir.  O  factozinho seguinte...   no! Ah,  curioso! Falta qualquer 
coisa, no est presente um elo da cadeia. Examinamos. Procuramos. E o factozinho curioso, o 
pormenorzinho porventura insignificante que no se coaduna, pomo-lo aqui!  Fez um gesto extravagante, 
com a mo.  significativo!  tremendo!

Sim...

Ah!  Poirot agitou to veementemente o polegar  minha frente que me encolhi.  Acautele-se! Ai do 
detective que diz:  muito insignificante... no tem importncia. No se conjuga. No pensarei mais nele. 
Esse  o caminho para a confuso! Tudo tem importncia.

Bem sei, o senhor sempre me afirmou isso. Foi por tal motivo que lhe revelei todos os pormenores do caso, 
quer me parecessem relevantes, quer no.

E eu estou satisfeito consigo por t-lo feito. Tem boa memria e revelou-me os factos fielmente. Da ordem 
pela qual se apresentam, no digo nada...  francamente deplorvel! Mas dou desconto, voc est 
transtornado.  a isso, alis, que atribuo ter omitido um facto de extrema importncia.

Qual?

No me disse se Mrs. Inglethorp comeu  bem a noite passada.

Fitei-o, pasmado. A guerra afectara, com certeza, o crebro do homenzinho! Escovava cuidadosamente o 
casaco, antes de o vestir, e parecia completamente absorto na tarefa.

No me lembro  confessei.  E, de resto, no vejo...

No v? Mas  de primordial importncia!

No compreendo porqu  repliquei, um pouco abespinhado.  Que me lembre, ela no comeu muito. Estava 
visivelmente transtornada e isso tirara-lhe o apetite, o que era natural.

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Sim  murmurou Poirot, pensativo, era natural. Abriu uma gaveta da qual tirou uma pequena pasta e depois 
virou-se para mim.

Estou pronto. Podemos seguir para a manso e estudar o assunto in loco. Desculpe, mon ami, vestiu-se  
pressa e tem a gravata  banda. D-me licena.

Endireitou-a, com um gesto hbil e lesto.

a y est! J est! Podemos partir?

Percorremos a aldeia apressadamente e transpusemos o porto da propriedade. Poirot deteve-se um 
momento e olhou, pesaroso, para o enorme parque, ainda cintilante de orvalho.

To belo, to belo! E pensar que a pobre famlia est mergulhada em sofrimento, prostrada pelo desgosto!

Olhou-me vivamente, enquanto falava, e eu tive conscincia de que corava sob o seu olhar prolongado. A 
famlia estava prostrada pelo desgosto? O sofrimento causado pela morte de Mrs. Inglethorp era assim to 
grande? Compreendi que havia na atmosfera como que uma carncia emocional. A morta no tivera o dom 
de inspirar amor. O seu falecimento era um choque e uma angstia, mas ela no seria apaixonadamente 
chorada.

Poirot, que parecia ler-me os pensamentos, acenou gravemente com a cabea.

Tem razo, no  como se existissem laos de sangue murmurou.  Ela foi boa e generosa para os 
Cavendish, mas no era a sua verdadeira me. O sangue conta, lembre-se sempre disso, o sangue conta.

Poirot, gostaria que me dissesse porque quis saber se Mrs. Inglethorp comeu bem a noite passada. Tenho 
estado a pensar nisso, mas no consigo compreender como poder esse pormenor ter alguma coisa a ver 
com o assunto.

Recomemos a andar e Poirot deixou passar um momento, antes de se decidir a responder:

No me importo de lho dizer... embora, como sabe, no seja meu hbito explicar as coisas antes do fim. A 
presente suposio  que Mrs. Inglethorp morreu em consequncia de

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envenenamento pela estricnina, presumivelmente administrada

no caf.

E ento?

A que horas foi o caf servido?

Cerca das oito horas.

Portanto, ela t-lo- bebido entre as oito e as oito e meia... nunca muito mais tarde, com certeza. Ora a 
estricnina  um veneno relativamente rpido. O seu efeito devia ter sido sentido pouco tempo depois, 
provavelmente no espao de cerca de uma hora. No entanto, no caso de Mrs. Inglethorp, os sintomas s se 
manifestaram s cinco da manh seguinte, ou seja, passadas nove horas! Mas uma refeio pesada, 
ingerida mais ou menos ao mesmo tempo que o veneno, poderia retardar-lhe os efeitos, embora dificilmente 
os conseguisse retardar tantas horas. , contudo, uma possibilidade a ter em considerao. Mas, segundo 
diz, ela comeu muito pouco ao jantar, e apesar disso os sintomas s se manifestaram ao princpio da 
manh seguinte! Curiosa circunstncia, meu amigo.  possvel que a autpsia revele  qualquer  coisa  que  
a  explique.   Entretanto,  no  a esquea.

Quando nos aproximvamos da casa, John saiu e veio ao nosso encontro. Tinha um ar muito cansado e 
perturbado.

Um caso horrvel, Monsieur Poirot. O Hastings explicou-lhe que desejamos evitar toda a publicidade?

Compreendo perfeitamente.

J v, por enquanto no passa de uma suspeita, no temos nada em que nos basear... 

Precisamente. Trata-se apenas de uma precauo.

John virou-se para mim, ao mesmo tempo que tirava a cigarreira e acendia um cigarro.  Sabes que o 
Inglethorp regressou?

Sei. Encontrei-o.

John atirou o fsforo para um canteiro adjacente, o que foi de mais para os sentimentos de Poirot: apanhou 
o fsforo e enterrou-o muito bem.

 muito difcil saber como trat-lo.

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Essa  dificuldade  no  durar  muito  tempo  declarou Poirot, calmamente.

John pareceu intrigado, sem compreender bem o alcance da enigmtica frase. Estendeu-me as duas 
chaves que o Dr. Baiuerstein lhe dera.

Mostra a Monsieur Poirot tudo quanto ele quiser ver.

Os quartos esto fechados  chave?  perguntou o detective.

O Dr. Bauerstein achou aconselhvel... Poirot acenou com a cabea, pensativamente.

O que significa que no tinha dvidas.., Bem, isso simplifica as coisas, para ns.

Fomos juntos ao quarto da tragdia Para convenincia do leitor, segue-se um esquema do quarto e dos 
seus principais mveis.
***
H outro esquema que no descrevo por ser difcil faz-lo
Nota do digitalizador
***
Poirot fechou a porta  chave, pelo interior, e iniciou uma inspeco minuciosa do quarto. Saltava de um 
objecto para outro com a agilidade de um gafanhoto. Quanto a mim, dei-

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xei-me ficar junto da porta, receoso de obliterar quaisquer vestgios. Mas Poirot no pareceu grato com os 
meus cuidados

Que tem, meu amigo? Porque est a parado como... como  que vocs dizem? ... ah, j sei, como um 
basbaque?

Expliquei-lhe que receava obliterar quaisquer pegadas.

Pegadas? Mas que ideia! J esteve praticamente um exrcito neste quarto! Que pegadas poderamos 
encontrar? No, homem, venha ajudar-me na minha busca. vou largar aqui a minha pastinha, at precisar 
dela.

Colocou-a na mesinha redonda, junto da janela, mas foi mal pensado, pois o tampo da mesa estava solto, 
inclinou-se e a pasta foi parar ao cho.

En voil une table (1)  exclamou o detective.  Ah, meu amigo, pode-se viver numa gramde casa e, apesar 
disso, no ter conforto nenhum!

Depois  da  sentenazinha  moralista,  voltou   ao  trabalho.

Uma caixa de correspondncia cor de prpura, com uma chave na fechadura e colocada em cima da 
escrivaninha, prendeu-lhe a ateno durante algum tempo. Tirou a chave da fechadura e estendeu-ma, para 
que a observasse. Mas eu no lhe encontrei nada- de especial. Era uma chave vulgar, de tipo Yale, com um 
pedao de arame torcido passado pelo buraco.

Em seguida examinou a porta que arrombramos, certificando-se de que o ferrolho estivera realmente 
corrido. Depois dirigiu-se  porta oposta, que levava ao quarto de Cynthia. Tambm estava o ferrolho corrido, 
como eu declarara. No entanto, ele deu-se ao trabalho de correr o ferrolho e abri-la e fech-la vrias vezes, 
usando de extremo cuidado para no fazer barulho. De sbito, algo no ferrolho pareceu prender-lhe a 
ateno. Examinou tudo demoradamente e, gil, tirou uma pina da pasta e com ela recolheu qualquer 
partcula minscula, que fechou cuidadosamente num pequeno sobrescrito.

Em cima da cmoda estava uma bandeja com uma lamparina de lcool, sobre a qual se encontrava um 
tachinho. No fundo

(1)   Isto  que me saiu uma mesa! (N. da T.)

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deste via-se uma pequena quantidade de um lquido escuro e perto estavam uma chvena e um pires 
usados, mas vazios. Perguntei a mim mesmo como me escapara tudo aquilo antes. Ali estava um indcio a 
no desperdiar. Delicadamente, Poirot molhou o dedo no lquido escuro e provou. Fez uma careta.

Cacau... creio que com rum.

Dedicou em seguida a sua ateno aos objectos espalhados no cho, em consequncia da queda da 
mesa-de-cabeceira Um candeeiro de leitura, alguns livros, fsforos, um molho de chaves e os fragmentos 
esmagados de uma chvena de caf.

Ah, isto  curioso!  exclamou.

Confesso que no vejo nada de particularmente curioso...

No? Observe o candeeiro. O quebra-luz est partido em dois pontos, e os bocados encontram-se onde 
caram. A chvena, no entanto, est completamente triturada, feita em p.

Bem, suponho que algum a pisou...

Exactamente  aquiesceu  Poirot,  em  voz estranha. Algum a pisou.

Levantou-se e dirigiu-se devagar para a prateleira, da chamin, onde parou a tocar distraidamente nos 
objectos ornamentais e a endireit-los  um tique seu, quando estava agitado.

Mon ami  disse,  finalmente,  virando-se para mim, algum pisou essa chvena, at a fazer em p, e f-lo 
quer porque a chvena contivera estricnina,  quer  e isso seria muito mais grave  porque no contivera 
estricnina!

No respondi. Estava intrigado, mas sabia que seria intil pedir-lhe que explicasse. Passados momentos, 
Poirot arrancou-se aos seus pensamentos e recomeou a investigar. Apanhou o molho das chaves do cho 
e, girando-as num dedo, acabou por escolher uma> muito brilhante, que experimentou na fechadura da 
caixa cor de prpura. Servia e ele abriu a caixa, mas aps um momento de hesitao fechou-a de novo  
chave e guardou na algibeira o molho de chaves, assim como a que estivera primitivamente na fechadura da 
caixa.  

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No tenho autoridade para mexer naqueles papis. Mas  uma coisa que deve ser feita... imediatamente!

Depois examinou com muito cuidado as gavetas do lavatrio. Ao atravessar o aposento na direco da 
janela do lado esquerdo, uma ndoa redonda, quase invisvel na carpete castanha-escura, pareceu 
despertar-lhe especial interesse. Ajoelhou e examinou-a minuciosamente, indo ao ponto de a cheirar.

Por fim deitou algumas gotas de cacau num tubinho e fechou-o com cuidado. A seguir tirou da algibeira um 
livrinho de apontamentos.

Encontrmos neste quarto  disse, enquanto escrevia diligentemente seis pontos de interesse. Enumero-os, 
ou enumera-os voc?

Oh, enumere-os o senhor!  apressei-me a responder.
Muito bem. Um, uma chvena de caf que foi triturada at ficar reduzida a p; dois, uma caixa de 
correspondncia com uma chave na fechadura; trs, uma ndoa no cho...

Pode ter sido feita h algum tempo  interrompi.

No, pois ainda est perceptivelmente hmida e cheira a caf. Quatro, um fragmento de qualquer tecido 
verde-escuro apenas um fio ou dois, mas reconhecvel.

Ah!  exclamei.  Foi isso que fechou no sobrescrito?

Foi. Pode descobrir-se que pertence a um dos vestidos da prpria Mrs.  Inglethorp e, portanto, no tem 
importncia. Veremos. Cinco, isto.  com um gesto teatral, apontou para um grande pingo de estearina no 
cho, junto da escrivaninha. Ontem no devia c estar, pois uma boa criada t-lo-ia tirado, mal o visse, com 
um mata-borro e um ferro quente. Uma vez, um dos meus melhores chapus... Mas isso no interessa.

 muito provvel que tenha sido feito ontem  noite. Estvamos todos muito agitados... Ou talvez a prpria 
Mrs. Inglethorp tenha deixado cair a vela!

Trouxeram apenas uma vela quando entraram no quarto?

Sim, apenas uma. Era o Lawrence Cavendish quem a trazia., mas estava muito enervado. Pareceu ver 
qualquer coisa

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ali  apontei para a prateleira da chamin, qualquer coisa que o paralisou.

Isso  interessante  afirmou Poirot, muito depressa. Sim,  sugestivo...  enquanto falava, os seus olhos iam 
percorrendo toda a extenso da parede ... mas no foi a vela dele que largou este grande pingo, que como 
v  branco, ao passo que a vela de Monsieur Lawrence, que ainda est em cima do toucador,  cor-de-
rosa. Por outro lado, Mrs. Inglethorp no tinha nenhum castial no quarto, tinha apenas um candeeiro de 
leitura,

Ento que deduz?

O meu amigo limitou-se a responder-me irritavelmente, aconselhando-me a utilizar as minhas prprias 
faculdades naturais.

E o sexto ponto?  indaguei.  Suponho que se trata da amostra de cacau.

No  respondeu Poirot, pensativamente.  Podia ter, de facto, includo isso nos seis pontos, mas no inclu. 
Por enquanto, guardarei segredo do sexto ponto.

Lanou um olhar rpido em redor da sala e declarou:

No h mais nada a fazer aqui, creio, a no ser...  olhou atenta e demoradamente para as cinzas apagadas 
da lareira. O fogo queima... e destri. Mas, com sorte, talvez... Vejamos!

Ajoelhou-se, gil, e comeou a remexer nas cinzas com o mximo cuidado. De sbito, soltou uma 
exclamao abafada e pediu-me:

A pina, Hastings!

Entreguei-lha sem demora e, com movimentos hbeis, ele extraiu das cinzas um bocadinho de papel meio 
chamuscado.

Aqui tem, mon ami! Que pensa disto?

Observei o fragmento, que reproduzo exactamente a seguir:

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Senti-me intrigado. Era um papel grosso, muito diferente do papel de apontamentos vulgar... De sbito, tive 
uma ideia:

Poirot,  um bocado de um testamento!

Exactamente.

No est surpreendido?  admirei-me.

No  respondeu, em tom muito srio.  J o esperava. Entreguei-lhe o bocadinho de papel e vi-o guard-lo na 
pasta,

com o mesmo cuidado metdico com que fazia tudo. No meu crebro havia um verdadeiro turbilho. Que 
complicao vinha a ser agora aquela do testamento? Quem o destrura? A pessoa que deixara o pingo de 
estearina no cho? Sem dvida. Mas como conseguira algum entrar ali? Todas as portas estavam 
aferrolhadas por dentro...

Agora, meu amigo, podemos ir  disse Poirot, desembaraado.  Gostaria de fazer algumas perguntas  
criada de fora... chama-se Dorcas, no ?

Passmos pelo quarto de Alfred Inglethorp, no qual Poirot se demorou o tempo suficiente para um exame 
breve, mas que abarcou praticamente tudo. Samos pela porta desse quarto, que fechmos  chave  assim 
como fechramos a do quarto de Mrs. Inglethorp.

Levei-o  saleta que ele mostrara o desejo de ver e fui eu prprio procurar Dorcas.

Quando voltei com ela, porm, a sala estava deserta,.

Poirot  chamei-o , onde est?

Estou aqui, meu amigo.

Sara pela porta-janela e estava parado, aparentemente absorto na admirao dos canteiros de flores de 
diversos formatos.

Admirvel!  murmurou.  Admirvel!   Que  simetria! Repare naquele crescente... e naqueles losangos... A 
sua perfeio alegra os olhos. O espacejamento das plantas tambm est perfeito. Foi arranjado 
recentemente, no foi?

Sim, creio que estiveram a a trabalhar ontem  tarde. Mas entre, a Dorcas est aqui.

Eh bien, eh bien! No me negue um momento de satisfao visual!

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Pois sim, mas este assunto  mais importante.

E como sabe que estas lindas begnias no tm igual importncia?

Encolhi os ombros. No valia a pena argumentar com ele quando optava por proceder assim.

No concorda? Olhe que j tm acontecido coisas desse gnero. Mas, enfim, vamos l interrogar a boa 
Dorcas.

A mulher estava parada na saleta, com as mos cruzadas  frente do corpo e o cabelo grisalho vincado em 
ondas duras, sob a touca branca. Era o modelo autntico de uma boa criada antiga.

Sentia uma leve desconfiana em relao a Poirot, mas ele no tardou a vencer-lhe as defesas e a cativ-
la. Puxou uma cadeira para a frente e convidou:

Faa favor de se sentar, mademoiselle.

Obrigada, senhor. 

Esteve muitos anos com a sua ama, no esteve?

Dez anos, senhor.

 muito tempo, e servio muito leal. Era-lhe muito dedicada?, no era?

Ela foi uma boa senhora para mim.

Ento no se importar de responder a algumas perguntas que lhe vou fazer com a aprovao de Mr. 
Cavendish.

Oh, com certeza!

Comearei por a interrogar acerca dos acontecimentos de ontem  tarde. A sua ama teve uma discusso?

Teve, sim, senhor. Mas no sei se deva...  Dorcas hesitou e calou-se.

Poirot fitou-a atentamente e explicou:

Minha boa Dorcas,  necessrio que eu saiba todos os pormenores dessa discusso, o mais 
completamente possvel. No pense que vai trair os segredos da sua senhora. Ela morreu e ns 
precisamos de saber tudo, se queremos ving-la. Nada a pode restituir  vida, mas, se houve crime, 
esperamos apresentar o assassino  justia, para que pague o que fez.

Quanto a isso, men!  exclamou Dorcas, veementemente.

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E, sem nomear nomes, h um nesta casa que nenhum de ns pde jamais suportar! Mau dia foi aquele em 
que ele escureceu pela primeira vez o limiar da porta!

Poirot esperou que a sua indignao serenasse e depois, voltando ao tom de voz normal, perguntou:

E quanto  discusso? Quando soube dela?

Bem, eu ia a passar no vestbulo, ontem...

A que horas?

No sei exactamente, mas ainda faltava muito para a hora do ch. Talvez fossem umas quatro horas, ou 
talvez fosse um bocadinho mais tarde. Mas, como dizia, eu ia a passar quando ouvi vozes muito altas e 
zangadas, aqui. No pretendi escutar, exactamente, mas... enfim, parei. A porta estava fechada, mas a 
senhora falava alto e claramente e eu ouvi muito bem o que ela dizia: Mentiste-me e enganaste-me, disse 
ela No ouvi o que Mr. Inglethorp respondeu, pois ele falou muito mais baixo, mas ouvi o que ela disse a 
seguir: Como te atreves? Mantive-te, vesti-te e alimentei-te! Deves-me tudo! E  assim que me pagas! 
Desonrando o nosso nome! Mais uma vez no ouvi o que ele disse. E ela continuou: Nada que possas 
dizer far qualquer diferena. Vejo perfeitamente qual  o meu dever. J tomei a minha deciso. Escusas de 
pensar que me deter qualquer receio de publicidade, ou escndalo entre marido e mulher. Pareceu-me 
ento que iam sair e afastei-me muito depressa.

Tem a certeza de que foi a voz de Mr. Inglethorp que ouviu?

Oh, sim! De quem mais poderia ser?

Pois sim, e depois?

Passados momentos voltei ao vestbulo, mas estava tudo sossegado. s cinco horas Mrs. Inglethorp tocou 
a campainha e pediu-me que levasse uma chvena de ch sem nada de comer

 saleta. Estava com muito m cara e muito branca e transtornada. Dorcas, disse-me, sofri um grande 
abalo. E eu respondi-lhe: Lamento muito, minha senhora. Sentir-se- melhorzinha depois de beber uma 
boa chvena de ch. Ela tinha qualquer coisa na mo, no sei se era uma carta, se um bocado

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de papel, mas o que quer que era estava escrito e ela no tirava os olhos das letras, como se no pudesse 
acreditar no que l dizia. Murmurou para consigo, como se se tivesse esquecido da minha presena: 
Estas poucas palavras... e tudo mudou. E depois disse-me: Nunca acredites em nenhum homem, 
Dorcas, eles no o merecem! Fui-lhe buscar uma boa chvena de ch forte e ela agradeceu-me e disse 
que se sentiria melhor depois de o beber. No sei que fazer, Dorcas, acrescentouEscndalo entre 
marido e mulher  uma coisa terrvel. Preferia ocultar tudo, se pudesse... Mrs. Cavendish entrou nessa 
altura e, por isso, ela no disse mais nada.

Ainda tinha a carta, ou l o que era, na mo? Tinha, sim, senhor.

Que lhe parece que ela lhe faria depois?

Bem, no sei, mas suponho que a fecharia naquela sua caixa encarnada.

Era a que costumava guardar os papis importantes?

>Era, sim, senhor. Trazia-a para baixo todas as manhs e levava-a para cima todas as noites.

Quando foi que perdeu a chave da caixa?

Deu por falta dela ontem  hora do almoo e pediu-me que a procurasse muito bem. Ficou muito 
transtornada por a ter perdido.

Mas tinha outra chave, no tinha?

Oh, sim, tinha!

Dorcas olhava-o cheia de curiosidade e, para ser franco, eu tambm. Que conversa vinha a ser aquela 
acerca de uma chave perdida? Poirot sorriu.

No  caso para grande admirao, Dorcas, pois o meu trabalho  saber coisas.  esta a chave perdida?  
Tirou da algibeira a chave que encontrara na fechadura da caixa da correspondnciai, no andar de cima.

Os olhos da criada pareceram querer saltar-lhe das rbitas.

, sim, senhor,  essa mesma! Mas onde a encontrou? Procurei-a em toda a parte...

Compreende, ontem no estava no mesmo lugar onde

3 - VAMP. G. 1
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estava hoje. Mudando de assunto: a sua senhora tinha um vestido verdescuro?

Dorcas ficou perplexa com a pergunta inesperada, mas respondeu: ,

No, senhor. Tem a> certeza absoluta?

Oh, sim, tenho!

Algum c de casa tem um vestido verde? Dorcas pensou um bocado, antes de responder:

Miss Cynthia tem um vestido de noite verde.

Verde-claro ou verde-escuro?

Verde-claro.  assim de uma espcie de chiffon, como dizem.

Bem sei, mas no  isso que procuro. E mais ningum tem nada verde?

No, senhor... que eu saiba.

O rosto de Poirot no denunciava se ele estava decepcionado ou no. Limitou-se a observar:

Muito bem, deixemos isso e passemos adiante. Tem alguma razo para crer que a sua senhora podia ter 
tomado um p para dormir, a noite passada?

A noite passada, no senhor. Sei que no tomou. Por que motivo  to positiva a esse respeito?

Porque a caixa estava vazia. Ela tomou o ltimo papelinho de p h duas noites e no mandou preparar 
mais.

Tem a certeza?

Absoluta, senhor.

Ento esse assunto est arrumado! A propsito, a sua senhora no lhe pediu que assinasse nenhum papel, 
ontem?

Que assinasse um papel? No, senhor.

Quando Mr. Hastings e Mr. Lawrence chegaram, ontem  tarde, encontraram a sua senhora ocupada a 
escrever cartas. Suponho que no me sabe dar uma ideia dos destinatrios dessas cartas?

Infelizmente, no. Ontem sa,  noitinha. Talvez a Annie

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lhe saiba dizer, embora ela seja uma rapariga descuidada, que no presta ateno a nada. Ontem  noite 
nem levou para dentro as chvenas do caf.  o que acontece quando c no estou, para tomar conta das 
coisas.

J que no levaram as chvenas, Dorcas, deixe-as ficar mais um bocadinho, peo-lhe. Gostava de as 
examinar.

Muito bem, senhor.

A que horas saiu, ontem?

Cerca das seis da tarde,

Obrigado, Dorcas, no desejo perguntar-lhe mais nada. Levantou-se e foi at  janela Estive a admirar estes 
canteiros. A propsito, quantos jardineiros trabalham aqui?

Agora s trs, senhor. Tnhamos cinco antes da guerra, quando estava tudo arranjado como deve estar em 
casa de um cavalheiro. S queria que tivesse visto o jardim, ento! Uma lindeza! Mas agora s temos o 
velho Manning e o rapaz, o William, alm de uma- jardineira moderna, de cales e coisas assim. Ah, 
terrveis tempos estes!

Os bons tempos voltaro, Dorcas. Pelo menos assim esperamos. Agora importa-se de me mandar a 
Annie?

Sim, senhor, eu mando. Obrigada.

Como soube que Mrs. Inglethorp tomava ps para dormir? perguntei,  cheio de curiosidade,  quando  
Dorcas  saiu. E como soube tambm da chave perdida e do duplicado?

Uma coisa de cada vez. Quanto aos ps para dormir, soube-o graas a isto...  E mostrou-me, de sbito, 
uma caixinha de carto, como as utilizadas pelos farmacuticos para acondicionar os papelinhos de p.

Onde a encontrou?

Na gaveta do lavatrio do quarto de Mrs.  Inglethorp. Era o nmero seis da minha relao.

Mas, como o ltimo papelinho de p foi tomado h dois dias, suponho que j no tem grande importncia?

Provavelmente, no, mas no nota nada de especial nesta caixa? -   

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-Examinei-a atentamente, mas

No, confesso que no noto. Repare no rtulo.

Li o rtulo com todo o cuidado: Tomar um papelinho  hora do deitar, se necessrio. Mrs. Inglethorp.

Continuo a no notar nada de especial.

Ento no v que no tem o nome do farmacutico?

Ah! Tem razo, isso  estranho.

J conheceu algum farmacutico que mandasse uma caixa dessas sem o seu nome impresso?

Confesso que no.

Comeava a ficar todo excitado, mas Poirot fez uma observao que foi como um balde de gua fria para o 
meu entusiasmo:

A explicao , no entanto, muito simples, por isso no fique intrigado, meu amigo.

No tive tempo de responder, pois um estalido audvel anunciou a aproximao de Annie, que era uma 
rapariga simptica e sadia e estava, visivelmente presa de intensa excitao, misturada com um certo 
gosto mrbido pela tragdia.

Poirot no esteve com rodeios e disse-lhe logo o que queria, em tom prtico e expedito:

Mandei-a chamar, Annie, porque pensei que me poderia dizer qualquer coisa acerca das cartas que Mrs.  
Inglethorp escreveu a noite passada. Quantas eram? E sabe dizer-me alguns dos nomes e moradas?

Annie pensou, antes de responder:

Eram quatro cartas. Uma para Miss Howard e outra para Mr. Wells, o advogado, e as outras duas... no me 
lembro... Ah, sim, uma era para Rosss, o fornecedor de Tadminster. Da outra  que no me lembro 
mesmo.

Pense  pediu o detective. Annie puxou em vo pela memria.

Lamento, senhor, mas apagou-se por completo. Creio que no devo ter reparado.

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No tem importncia  declarou Poirot, sem revelar o mnimo indcio de decepo.  Agora desejo interrog-la 
acerca de outra coisa. No quarto de Mrs. Inglethorp est um tachinho com um resto de cacau. Ela tomava 
aquilo todas as noites?

Tomava, sim, senhor. Era levado para o seu quarto todos os dias, ao anoitecer, e ela aquecia-o durante a 
noite, quando lhe apetecia

O que era? Cacau simples?

Sim, senhor, feito com leite, uma colher de ch de acar e duas colheres de ch de rum.

Quem o levava para o quarto?

Eu. , - -    -

Sempre?

Sim, senhor. >-

A que horas?     

Geralmente quando ia correr os reposteiros.

Levava-o, ento, directamente da cozinha para o quarto?

No, senhor. No h muito espao no fogo a gs e. por isso, a cozinheira fazia-o cedo, antes de cozinhar 
os vegetais para o jantar. Depois eu levava-o para cima e punha-o na mesinha junto da porta de correr, e 
mais tarde levava-o para o quarto da senhora,

A porta de correr fica na ala esquerda, no fica?

Fica, sim, senhor. 

E a mesa fica deste lado da porta, ou do outro, do lado dos aposentos dos criados?

Fica deste lado.

A que horas levou, ontem, o cacau para cima? 
Creio que seriam umas sete e um quarto.

E quando o levou para o quarto de Mrs. Inglethorp?

Cerca das oito horas, quando fui fechar as janelas. Mrs. Inglethorp subiu para se deitar antes de eu ter 
acabado.

Isso significa que, entre as sete e um quarto e as oito horas, o cacau esteve em cima da mesa da ala 
esquerda?

53
Esteve, sim, senhor  confirmou Annie, que se tornava cada vez mais corada e, de sbito, explodiu:   se 
tinha sal, no fui eu que lho pus. Nem sequer me aproximei do cacau com sal

Porque pensa que havia sal no cacau?

Porque o vi no tabuleiro.

Viu sal no tabuleiro?

Vi, sim, senhor. Parecia sal grosso de cozinha. No reparei quando levei o tabuleiro para cima, mas quando 
voltei para o levar para o quarto da senhora vi-o logo. Suponho que devia t-lo levado outra vez para baixo e 
pedido  cozinheira que fizesse outro, mas estava com pressa, por via da Dorcas ter sado, e pensei que 
talvez o sal tivesse cado apenas no tabuleiro e no houvesse nenhum no cacau. Por isso sacudido com o 
avental e levei-o para o quarto da senhora.

Sentia uma grande dificuldade em dominar a minha excitao. Sem saber, Annie fornecera-nos um indcio 
importante. Como abriria a boca de espanto se soubesse que o seu sal grosso de cozinha era estricnina, 
um dos venenos mais letais que a humanidade conhecia! Maraivilhei-me com a calma de Poirot, cujo 
autodomnio era espantoso. Aguardei impacientemente a sua pergunta seguinte, mas ela decepcionou-me:

Quando entrou no quarto de Mrs. Inglethorp a porta de acesso  ao  quarto  de  Miss  Cynthia  tinha  o  
ferrolho  corrido?

Tinha, sim! Tem sempre. Nunca  aberta.

E a porta de comunicao com o quarto de Mr. Inglethorp? Reparou se tambm tinha o ferrolho corrido?

Annie hesitou.

No sei dizer ao certo. Estava fechada, mas no sei se o ferrolho estava corrido ou no.

Quando saiu do quarto Mrs. Inglethorp aferrolhou a porta, atrs de si?

Nessa altura, no, mas creio que a aferrolhou depois.

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Geralmente fecha-a  noite. Refiro-me  porta que d para o corredor.

Quando ontem arrumou o quarto reparou se havia alguma estearina no cho?

Estearina? Oh, no, senhor! Mrs. Inglethorp no usava vela, tinha s um candeeiro de leitura.

Nesse caso, se houvesse um grande pingo de estearina no cho, tem a certeza de que o veria?

Tenho, sim, senhor. E t-lo-ia tirado logo com um pedao de mata-borro e um ferro quente.

Poirot repetiu a pergunta que fizera a Dorcas:

A sua senhora tinha algum vestido verde?
- No, senhor.

Nem uma mantilha, ou uma capa, ou  como se chama? um casaco desportivo?

Verde, no.

Nem algum c de casa? Annie pensou, antes de responder:

No, senhor.

Tem a certeza?

Absoluta.

Bien! No desejo mais nada, muito obrigado.

Annie saiu da sala, com uma gargalhadinha nervosa. A minha agitao contida explodiu:

Felicito-o, Poirot! Que grande descoberta!

Grande descoberta o qu?

Bem, que era o cacau e no o caf que estava envenenado. Isso explica tudo! Claro que s produziu efeito 
de manhzinha, visto o cacau s ter sido bebido no meio da noite.

Pensa ento que o cacau  note bem o que digo, Hastings, o cacau  continha estricnina?

Claro! Que outra coisa poderia ser o sal espalhado no tabuleiro?

Poderia ser sal  respondeu Poirot, placidamente-

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Encolhi os ombros. Se estava decidido a levar as coisas assim, no valia a pena discutir com ele. Passou-
me pela ideia, no pela primeira vez, que o pobre Poirot estava a envelhecer, e intimamente achei uma 
sorte que estivesse associado a uma pessoa de mentalidade mais receptiva.

No est  satisfeito comigo,  mon ami?perguntou,  a observarnme de olhos cintilantes.

Meu caro Poirot, no me incumbe impor-lhe as minhas ideias   respondi friamente.  O senhor tem o direito 
de ter uma opinio prpria, assim como eu tambm o tenho.

A est um sentimento muito admirvel  declarou, enquanto se levantava, gil.  Bem, j vi o que tinha a ver 
nesta sala. A propsito, de quem  aquela escrivaninha mais pequena, ali ao canto?

-De Mr. Inglethorp.

Ah!  Tentou levantar-lhe a tampa fechada  chave. Mas talvez uma das chaves de Mrs. Inglethorp a abra...  
Experimentou vrias, enfiando-as e girando-as com mo prtica, e por fim exclamou, contente:  Voil!         
No  a chave prpria, mas vai abri-la num instante.  Levantou a tampa da escrivaninha e passou uma 
rpida vista de olhos pelos papis muito bem arrumados; para minha surpresa, porm, no os examinou e 
limitou-se a dizer aprovadoramente, enquanto fechava de novo o mvel:  Decididamente, este Mr.  Inglethorp 
 um homem de mtodo!

Um homem de mtodo era, na escala qualificativa de Poirot, o maior elogio que se podia fazer a qualquer 
indivduo.

Mais uma vez achei que o meu amigo j no era o que fora, ao ouvi-lo discorrer, desconexamente:

No havia selos na escrivaninha dele, mas podia ter havido, hem, mon ami? Podia ter havido, no podia?  
Percorreu o aposento com o olhar e acrescentou:  Esta saleta no tem mais nada a dizer-nos e no rendeu 
muito... S isto!

Tirou da algibeira um sobrescrito amarrotado e atirou-mo.

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Era um documento muito curioso, um velho sobrescrito simples, um pouco sujo e com algumas palavras 
rabiscadas, aparentemente ao acaso, as quais reproduzo a seguir:



eu seja possuidora
ele seja possuidora
posuidora
***
estas palavras encontram-se manuscritas no texto
Nota do digitalizador
***
57Captulo V

NO    ESTRICNINA,  Pois  NO?

Onde encontrou isso?  perguntei a Poirot, cheio de curiosidade.

No cesto dos papis. Reconhece a letra?

Reconheo,  de Mrs. Inglethorp. Mas que significa? Poirot encolheu os ombros-

No lhe sei dizer... mas  sugestivo.

Uma ideia louca atravessou-me o crebro. Seria possvel que Mrs. Inglethorp no estivesse boa da cabea? 
Teria querido escrever possuidora ou... possessa? Ter-se-ia apoderado dela alguma ideia fantstica de 
posse demonaca? E, sendo assim, no seria tambm possvel que tivesse posto fim  vida?

Ia a expor semelhante teoria a Poirot quando as palavras dele me desviaram de tal curso de pensamento:

Venha, vamos examinar as chvenas do caf!

Meu caro Poirot, para que demnio servir isso, agora que sabemos que foi o cacau...?

Oh, l l Esse maldito cacau!  exclamou Poirot, ironicamente.

Riu-se, com aparente boa disposio, e levantou as mos numa atitude de fingido desespero, que no pude 
deixar de considerar de pssimo gosto.

De qualquer modo  acrescentei, com crescente frieza , como Mrs. Inglethorp levou o caf para cima, para o 
quarto.

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no compreendo o que espera encontrar, a no ser que considere possvel descobrirmos um pacote de 
estricnina no tabuleiro do caf! Poirot recuperou imediatamente a seriedade.

Ento, ento, meu amigo, ne vous fchez ps! (1) pediu, enfiando o brao no meu.  Permita que me 
interesse por chvenas de caf e eu prometo respeitar o seu cacau. Combinado?

Falou de uma maneira to engraada que no pude deixar de rir. E, claro, l fomos juntos  sala, onde as 
chvenas do caf e o tabuleiro continuavam como os deixramos na vspera.

Poirot pediu-me que recapitulasse a cena da noite anterior, enquanto escutava atentamente e confirmava a 
posio das vrias chvenas.

Mrs. Cavendish estava, portanto, junto do tabuleiro e deitava o caf. Muito bem. Depois foi at  janela, 
onde voc estava sentado com Mademoiselle Cynthia. Sim, senhor, aqui esto as trs chvenas. E a que 
est na prateleira da chamin, ainda meia, deve ser a de Mr. Lawrence Cavendish. E a do tabuleiro?

 a do John Cavendish. Vi-o p-la l.

ptimo. Uma, duas, trs, quatro, cinco... mas onde est, ento, a chvena de Mr. Inglethorp?

Ele no bebe caf.

Nesse caso, est certo. um momento, meu amigo.

com infinito cuidado, tirou uma gota ou duas de caf do fundo de cada chvena, e meteu-as em tubinhos 
separados, depois de provar o contedo de cada chvena. A sua fisionomia sofreu uma curiosa 
modificao, assumiu uma expresso que s posso classificar como meio-perplexa, meioaliviada.

Bien! exclamou,   por  fim.    evidente!  Tinha  uma ideia, mas est visto que estava enganado. Sim, estava 
completamente enganado. No entanto,  estranho... Mas deixemos isso!

(1)   No se zangue! (N. da T.)

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E, com um encolher de ombros caracterstico, afastou do esprito o que quer que o preocupava. Eu poderia 
ter-lhe dito desde o princpio que a sua ideia fixa acerca do caf s poderia conduzi-lo a um beco sem 
sada, mas dominei-me. No fim de contas, embora estivesse velho, Poirot fora um grande homem, no seu 
tempo.

O pequenoalmoo est pronto  disse John Cavendish, vindo do vestbulo.  Faz-nos companhia. Monsieur 
Poirot?

O detective aquiesceu. Observei John, que j regressara quase ao seu estado normal. O choque dos 
acontecimentos da noite anterior tinha-o transtornado temporariamente, mas a sua quanimidade habitual 
levara a melhor e a sua atitude regressara praticamente ao habitual. Era um homem possuidor de muito 
pouca imaginao, em vivo contraste com o irmo, que talvez a tivesse em excesso.

Desde manhzinha que John estivera a trabalhar, a enviar telegramas  um dos primeiros fora para Evelym 
Howard, a redigir notcias para os jornais e, de um modo geral, a ocupar-se dos tristes deveres decorrentes 
de um falecimento.

Permite que pergunte como caminham as coisas?  inquiriu. As suas investigaes indicam que  a minha 
me faleceu de morte natural ou... ou devemos preparar-nos para o pior?

Creio, Mr. Cavendish, que no deveriam acalentar falsas esperanas respondeu Poirot, em tom grave.  
Sabe dizer-me quais so as diversas opinies dos outros membros da famlia?

O meu irmo est convencido de que estamos a fazer muito barulho por nada Diz que tudo indica ter-se 
tratado de um simples caso de ataque cardaco.

Diz, hem? Isso  muito interessante, muito interessante... murmurou Poirot, em tom suave.  E Mrs. 
Cavendish?

Uma leve nuvem ensombrou o rosto de John, que respondeu:

No fao a mnima ideia da opinio da minha mulher acerca do assunto.

A resposta provocou um constrangimento momentneo, um

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silncio pesado que John quebrou ao perguntar, com leve esforo:

J lhe disse que Mr. Inglethorp regressou, no disse? Poirot acenou afirmativamente.

 uma situao desagradvel para todos ns. Claro que temos de o tratar como de costume... mas, com 
os diabos, o estmago revolta-se se pensamos que temos de nos sentar  mesa com um possvel 
assassino!

Poirot acenou de novo com a cabea, desta vez compreensivamente.

Compreendo perfeitamente.  uma situao muito difcil para si, Mr. Cavendish- Permita-me uma pergunta: 
O motivo de Mr. Inglethorp no ter regressado ontem  noite foi, suponho, o esquecimento da chave do 
trinco?

Foi, sim.

Tem a certeza, creio, de que a chave do trinco foi de facto esquecida, de que, no fim de contas, ele no a 
levou?

No fao a mnima ideia, no me passou pela cabea verificar. Essa chave est sempre na gaveta do 
vestbulo. vou ver se l est...

Mas Poirot levantou a mo e disse-lhe, a sorrir:

No, no, Mr. Cavendish, agora  demasiado tarde. Tenho a certeza de que l a encontraria. Se Mr. 
Inglethorp a levou, j teve tempo mais do que suficiente para l a pr.

Mas pensa...

No penso nada- Se algum tivesse, por acaso, aberto a gaveta esta manh, antes do regresso dele, e l 
visse a chave, isso constituiria um ponto valioso a seu favor, mais nada.

John  pareceu   perplexo  e  Poirot   tranquilizouo,  em  tom suave:

No se preocupe. Garanto-lhe que no h necessidade disso. E agora, j que quer ser to amvel, vamos 
ento ao pequeno-almoo.

Estavam todos reunidos na sala de jantar. Dadas as circunstncias,  no  formvamos,  naturalmente,  um  
grupo  alegre.

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A reaco a um grande abalo  sempre desagradvel, e eu creio que estvamos todos sob essa influncia. 
Acho que o decoro e a boa educao ordenavam que o nosso comportamento fosse o mais possvel o 
habitual, mas eu no pude deixar de perguntar a mim mesmo se era realmente muito difcil aparentar 
aquele autodomnio. No havia olhos avermelhados nem quaisquer sinais de algum se ter entregado- 
secretamente  dor. Pareceu-me estar certa a minha opinio de que a Dorcas era a pessoa mais afectada 
pelo lado pessoal da tragdia.

Passo por cima de Alfred Inglethorp, claro, o qual desempenhou o papel do vivo enlutado de uma maneira 
que considerei repugnante na sua hipocrisia. Saberia que suspeitvamos dele? No podia, com certeza, 
estar alheio a tal facto, por muito que o ocultssemos. Sentiria algum medo secreto ou estaria confiante, 
certo de que o seu crime ficaria impune? A atmosfera de suspeita devia adverti-lo, sem dvida, de que j era 
um homem marcado...

Mas suspeitariam todos dele? E Mrs. Cavendish? Observei-a, sentada  cabeceira da mesa, graciosa, 
serena, enigmtica. O vestido cinzento de tom suave, com os folhos brancos dos punhos a cair para as 
mos esbeltas, tornava-a muito bonita. Quando ela queria, porm, aquele rosto belo tornava-se esfngico na 
sua imperscrutabilidade. Estava muito calada, quase no descerrava os lbios, mas apesar disso senti que, 
estranhamente, a grande fora da sua personalidade nos dominava a todos.

E a pequena Cynthia? Suspeitaria? Parecia muito fatigada e doente, com uma lentido e uma languidez de 
gestos deveras acentuada. Perguntei-lhe se no se sentia bem e ela respondeu, francamente:

No, tenho a mais estpida das dores de cabea.

Outra chvena de caf, mademoiselle?-ofereceu Poirot, solcito.  Reanim-la-. No h nada que se lhe 
compare, para l mal de tte-  Levantou-se, clere, e pegou-lhe na chvena.

Sem  acar  disse Cynthia, ao v-lo pegar na pina.

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Sem acar? Prescinde dele em tempo de guerra, hem?

No, nunca adoo o caf.

Sacrv  murmurou Poirot, baixinho, enquanto lhe levava a chvena cheia.

S eu o ouvi e, ao olhar curiosamente para o homenzinho, reparei que no seu rosto se estampara uma 
expresso de contida excitao e que os seus olhos estavam verdes como os de um gato. Vira ou ouvira 
qualquer coisa que o afectava profundamente... mas o qu? No costumo considerar-me obtuso, mas 
confesso que nada fora do vulgar atrara a minha ateno.

Passados instantes, a porta abriu-se e Dorcas disse a John:

Mr. Wells deseja v-lo.

O nome, lembrei-me, era o do advogado a quem Mrs. Inglethorp escrevera na vspera.

John levantou-se imediatamente e disse  criada:

Leve-o para o meu gabinete.  Depois virou-se para ns e informou:   o advogado da minha me.  E 
acrescentou, mais baixo:  E  tambm o juiz de instruo... Querem vir comigo?

Aceitmos o convite e samos com ele da sala. John. ia  frente e eu aproveitei a oportunidade para 
perguntar baixinho a Poirot:

Haver, ento, inqurito?

O detective acenou com a cabea, distraidamente. Estava to absorto nos seus pensamentos que me 
despertou curiosidade.

Que se passa? No ouviu o que lhe disse.

Tem razo, meu amigo. Estou muito preocupado.

Porqu?

Porque Mademoiselle Cynthia no adoa o caf.

O qu?! No  capaz de falar a srio? 

Mas eu estou a falar a srio, creia. H qualquer coisa que no compreendo1 O meu instinto no se 
enganara.

Que instinto?

O instinto que me levou a examinar as chvenas do caf. Caluda, no se fala mais disso agora!

63
Entrmos no gabinete atrs de John; que fechou a portaMr. Wells era um homem simptico de meia-idade, 
olhos

vivos e tpica boca de advogado. John apresentou-nos e explicou

a razo da nossa presena.

Como deve compreender, Wells, tudo isto  rigorosamente privado  acrescentou. Continuamos 
esperanados em que se verifique no haver necessidade de investigao de espcie nenhuma.

com certeza,, com certeza  murmurou Mr. Wells, apaziguadoramente.  Gostaria que fosse possvel poupar-
lhes o sofrimento e a publicidade de um inqurito, mas, claro, sem certido de bito  impossvel.

Sim, suponho que sim.

Tipo inteligente, o Bauerstein. Parece-me que  uma grande autoridade em toxicologia.

Sim?murmurou John, com uma certa rigidez de atitude, e depois perguntou, hesitante:  Teremos de 
comparecer como testemunhas... quero dizer, todos ns?

Voc ter, claro, e...  Mr. Inglethorp.

Seguiu-se uma pequena pausa, antes de o advogado acrescentar, de novo no seu tom apaziguador:

Quaisquer outros depoimentos sero meramente confirmatrios, uma simples questo de forma.

Compreendo.

A leve expresso de alvio que perpassou pelo rosto de John deixou-me intrigado, pois no via motivo 
nenhum para que se sentisse aliviado.

Se no tiver nada a opor  prosseguiu Mr. Wells , pensei na sexta-feira. Haver tempo suficiente para o 
mdico apresentar o relatrio da autpsia. Fazem-na esta noite, no ?

.

Est ento de acordo com o dia?

Perfeitamente.

Escusado seria dizer-lhe, meu  caro Cavendish, que lamento este  trgico acontecimento.

64
No nos pode dar uma ajuda na soluo do mistrio, monsieur?  perguntou Poirot, que falava pela primeira 
vez desde que entrramos no aposento.

Eu?

Sim. ConstouHnos que Mis. Inglethorp lhe escreveu, ontem. Deve ter recebido a carta esta manh.

Recebi, mas no contm qualquer informao.  apenas um bilhete a pedir-me para a visitar esta manh, 
pois desejava a minha opinio acerca de um assunto de grande importncia.

No lhe deu a entender do que se tratava?

Infelizmente, no.

 pena  murmurou John.

Uma grande pena  concordou Poirot, gravemente. Passados alguns momentos de silncio, durante os 
quais o meu amigo pareceu absorto nos seus pensamentos, voltou-se de novo para o advogado:

H uma coisa que gostaria de lhe perguntar, Mr. Wells... isto , se no for contra a tica profissional. Por 
morte de Mrs. Inglethorp, quem herdaria o seu dinheiro?

O advogado hesitou um momento, antes de responder:

O assunto ser muito em breve do conhecimento pblico, por isso, se Mr. Cavendish no se ope...

De modo nenhum!  declarou John.

Nesse caso, no vejo motivo nenhum para no responder  sua pergunta. De acordo com o seu ltimo 
testamento, datado de Agosto do ano passado, depois de diversos pequenos legados s criadas, etc., Mrs. 
Inglethorp deixava toda a sua fortuna ao enteado, Mr. John Cavendish.

Isso no era  desculpe a pergunta, Mr. Cavendish , no era muito injusto para o outro enteado, Mr. 
Lawrence Cavendish?

No, no creio.  Nos termos do testamento do pai de ambos, enquanto John herdava a propriedade, 
Lawrence herdava, por morte da madrasta, uma considervel importncia em dinheiro. Mrs. Inglethorp 
legava o seu dinheiro ao enteado

5 - VAMP. G. 1

65
mais velho por saber que ele teria de manter Styles. Era, quanto a mim, uma partilha muito justa e 
equitativa, Poirot acenou com a cabea, pensativamente.

Compreendo. Mas, segundo a vossa lei inglesa, esse testamento ficou automaticamente revogado quando 
Mrs. Inglethorp voltou a casar, no  verdade?

Como eu ia acrescentar, Monsieur Poirot, esse documento  agora nulo e sem valor.

Poirot pareceu reflectir um momento, e depois perguntou:

Mrs. Inglethorp tinha conhecimento desse facto?

No sei, devia ter.

Tinha  afirmou John, inesperadamente.  Ainda ontem falmos da questo de os testamentos serem 
revogados pelo casamento.

Ah! Mais uma pergunta, Mr. Wells. Disse, h pouco, o seu ltimo testamento. Isso significa que Mrs. 
Inglethorp fizera vrios outros, anteriores?

Ela fazia, em mdia, um testamento novo por ano  respondeu Mr. Wells, imperturbvel.  Era propensa a 
mudar de ideias quanto s suas disposies testamentrias e beneficiava ora um, ora outro membro da 
famlia.

Supondo  sugeriu Poirot  que, sem seu conhecimento, Mr. Wells, ela fizera um novo testamento a favor de 
algum que no era, em nenhum sentido do termo, membro da famlia digamos, por exemplo, a favor de 
Miss Howard. Ficaria surpreendido?

Absolutamente nada.

Ah!  exclamou Poirot, e pareceu ter esgotado as perguntas.

Aproximei-me mais dele, enquanto John e o advogado falavam de passar em revista os papis de Mrs. 
Inglethorp.

Pensa que Mrs. Inglethorp fez um testamento deixando o dinheiro todo a Miss Howard?  perguntei em voz 
baixa, com certa curiosidade.

No respondeu-me Poirot, a sorrir.

Ento porque perguntou?

66
Caluda]

John Cavendish virara-se para o detective e perguntava-lhe:

Quer vir connosco, Monsieur Poirot? Vamos dar uma vista de olhos aos papis da minha me. Mr. 
Inglethorp mostrou-se disposto a deixar isso inteiramente ao cuidado de Mr. Wells e de mim prprio.

O que simplifica muito as coisas  murmurou o advogado. Tecnicamente, claro, tinha o direito...  no 
concluiu a frase.

Comearemos  pela escrivaninha  da saleta  explicou John  e depois iremos ao quarto. Ela guardava os 
seus papis mais importantes numa caixa de correspondncia vermelha., que devemos revistar com todo o 
cuidado.

Sim  concordou o advogado , pois  muito possvel que exista um testamento posterior ao que se encontra 
em meu poder.

H um testamento posterior  declarou Poirot.

O qu?!  perguntaram John e o advogado, a fitarem-no cheios de espanto.

Ou melhor  corrigiu o meu  amigo,  imperturbvel, houve.

Que quer dizer? Houve? Onde est?

Queimado!

Queimado?

Sim. Olhe...Tirou da algibeira o fragmento chamuscado que encontrramos na lareira do quarto de Mrs. 
Inglethorp e entregou-o ao advogado, enquanto lhe explicava resumidamente quando e onde o encontrara.

 possvel que se trate de um testamento antigo, no?

No creio. Na realidade, tenho quase a certeza de que foi feito ontem  tarde.

O  qu?  Impossvel!  discordaram  simultaneamente  os dois homens.

Se permitir que chame o seu jardineiro, provar-lho-ei disse Poirot a John.

com certeza que permito... mas no vejo...

67
O detective levantou a mo e interrompeu-o:

Faa o que lhe peo. Depois perguntar tudo quanto quiser.

Muito bem.  aquiesceu John, e tocou a campainha. Dorcas apareceu, passados momentos.

Dorcas, diga ao Manning que venha aqui falar comigo.

Sim, senhor.

A criada retirou-se e ns espermos, num silncio tenso. Poirot, o nico que parecia completamente  
vontade, sacudiu o p de um canto esquecido da estante.

O ranger de botas cardadas, no saibro, anunciou que Manning se aproximava. John olhou 
interrogadoramente para Poirot, que acenou com a cabea.

Entre, Manning  pediu John.  Quero falar consigo. Manning transps hesitantemente a porta-janela e parou 
o

mais perto dela que pde, a torcer o bon nas mos. Tinha as costas muito curvadas, embora no devesse 
ser to velho quanto parecia, e os seus olhos vivos e inteligentes no condiziam com a sua maneira de falar 
lenta e cautelosa.

Manning  disse-lhe John , este senhor vai-te fazer umas perguntas, a que desejo respondas.

Sissenhor  tartamudeou o jardineiro.

Poirot aproximou-se dele, em passo lesto, e os olhos de Manning mediram-no com leve desdm.

Ontem  tarde esteve a plantar um canteiro de begnias do lado sul da casa, no esteve, Manning?

Sissenhor, eu e o Willum.

E Mrs. Inglethorp chegou  janela e chamou-os, no  verdade?

Chamou, sim.

Diga-me, por palavras suas, exactamente o que aconteceu depois.

Bem, foi pouca coisa. Ela disse apenas ao Willum que montasse na bicicleta, e fosse  aldeia comprar um 
impresso de testamento, ou coisa parecida... no sei exactamente o qu. Ela escreveu num papel o que 
era.

68
E ento?

Ento ele foi.

E que aconteceu a seguir?

Continumos com as begnias.

Mrs. Inglethorp no os voltou a chamar?

Sissenhor, a mim e ao Willum.

E depois?

i Mandou-nos entrar e assinar os nossos nomes no fim de um papel comprido, debaixo de onde ela tinha 
assinado.

Viu alguma coisa do que estava escrito por cima da assinatura dela,?  perguntou Poirot, vivamente.

No senhor, estava um bocado de mata-borro por cima dessa parte.

E assinou onde ela lhe disse?

Sissenhor, primeiro eu e depois o Willum.

Que fez ela ao papel?

Bem, meteu-o num sobrescrito comprido e depois numa caixa vermelha, que estava em cima da secretria.

Que horas eram quando o chamou pela primeira vez?

Diria que umas quatro, mais ou menos.

No ter sido antes? Cerca das trs e meia, por exemplo? No, senhor, no me parece.  mais provvel 
que tenha

sido um bocadinho depois das quatro, e no antes.

Obrigado, Manning, no desejo mais nada  agradeceu Poirot, em tom agradvel.

O jardineiro olhou para o patro, que acenou com a cabea e o homem levou o indicador  testa, enquanto 
murmurava qualquer coisa, e saiu s arrecuas, por onde entrara.

Olhmos todos uns para os outros.

Meu Deus!  exclamou John.  Que extraordinria coincidncia!

Coincidncia porqu?

Bem, que coincidncia a minha me ter feito testamento no prprio dia da sua morte!

Mr. Wells pigarreou e observou, secamente:

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Tem assim tanto a certeza de que se tratou de coinci-

-dncia, Cavendish?

Que quer dizer?

Segundo me disse, a sua me teve uma discusso violenta com... com algum, ontem  tarde...

Que quer dizer?  repetiu John, desta vez muito plido e com uma tremura na voz.

Em consequncia dessa discusso, a sua me fez um novo testamento, sbita e apressadamente, um 
testamento cujo contedo nunca conheceremos. Ela no disse a ningum quais eram as clusulas do 
documento. Esta manh ter-me-ia, sem dvida, consultado acerca do assunto... mas no teve possibilidade 
disso. O testamento desapareceu e ela levar o seu segredo consigo, para a sepultura. Receio muito, 
Cavendish, que no se trate de nenhuma coincidncia. Estou certo de que concorda com a minha opinio 
de que os factos so muito sugestivos, no concorda. Monsieur Poirot?

Sugestivos ou  no  interveio  John ,  estamos  muito gratos a Monsieur Poirot por ter revelado esse 
assunto. Se no fosse ele, nunca teramos conhecimento de que tal testamento fora feito. Permite que lhe 
pergunte o que o levou a suspeitar do facto?

Um velho sobrescrito com algumas palavras rabiscadas e um canteiro de begnias recm-plantadas  
respondeu o detective, sorridente.

Creio que John teria insistido nas perguntas, mas nesse momento ouviu-se o rudo de um motor de 
automvel e virmo-nos todos para a janela, enquanto o veculo passava.

Evie!  exclamou  John.  D-me licena, Mr. Wells pediu, e dirigiu-se apressadamente para o vestbulo.

Poirot olhou-me interrogadoramente.

Miss Howard  expliquei.

Ah, agrada-me que tenha vindo!  uma mulher com cabea, e tambm com corao, Hastings... embora o 
bom Deus no lhe tenha dado beleza nenhuma.

Segui   o   exemplo   de   John   e   fui   ao   vestbulo,   onde

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Miss Howard tentava libertar-se da volumosa massa de vus que lhe cobriam a cabea. Quando os seus 
olhos se fitaram em mim, senti uma sbita punhalada de remorso. Aquela mulher avisara-me to 
veementemente e eu no fizera caso das suas advertncias! com que rapidez, e at com que desdm, as 
expulsara do esprito! Agora que fora provado, de modo to trgico, que ela tinha razo, sentiame 
envergonhado. Oh, ela conhecera Alfred Inglethorp muito bem! Perguntei a mim mesmo se a tragdia teria 
ocorrido se ela tivesse permanecido em Styles, ou se o indivduo teria receado os seus olhos vigilantes.

Senti-me aliviado quando me apertou a mo com aquela fora quase dolorosa de que me lembrava to bem. 
Os olhos que fitaram os meus exprimiam tristeza, mas no censura. Percebi, pela vermelhido das suas 
plpebras, que chorara, e muito, mas a sua atitude brusca no se modificara em nada.

Parti assim que recebi o telegrama, tinha acabado de estar de servio nocturno. Aluguei o automvel. Era a 
maneira mais rpida de c chegar.

Comeu alguma coisa esta manh, Evie?  perguntou John.

No.

J calculava. Venha, ainda no levantaram a mesa do pequeno-almoo.  Virou-se para mim e acrescentou:  
Olha por ela, sim, Hastings? Wells est  minha espera. Oh, Monsieur Poirot! Est a ajudar-nos, Evie.

Miss Howard apertou a mo a Poirot, mas olhou desconfiadamente para John, por cima do ombro, e 
perguntou-lhe:

A ajudar-nos? Que quer isso dizer?

Est a ajudar-nos a investigar.

No h nada que investigar. J o prenderam?

J prenderam quem?

Quem? Alfred Inglethorp, quem havia de ser?

-Minha querida Evie, tenha cuidado. O Lawrence pensa que a minha me morreu em consequncia de um 
colapso cardaco.

 um idiota, o Lawrence! Claro que Alfred Inglethorp

71
assassinou a pobre Emily... como eu sempre lhes disse que aconteceria.

No grite tanto, Evie. Seja o que for que pensemos ou suspeitemos,  melhor falar o menos possvel, por 
enquanto. O inqurito s se realiza na sexta-feira.

Ora bolas!  explodiu Miss Howard, e soltou um rugido verdadeiramente magnfico.  Vocs perderam todos o 
juzo! Nessa altura j o indivduo estar fora do pas. Se tiver uma ponta de senso, no ficar aqui  espera, 
docilmente, que o enforquem.

John Cavendish olhou-a, sem saber que dizer.

Eu sei o que se passa!  disse-lhe ela, em tom acusador. Andou a dar ouvidos aos mdicos, e no devia. 
Que sabem eles? Absolutamente nada... ou apenas o suficiente para serem perigosos! Eu sei do que falo... 
o meu pai era mdico. Esse homenzinho, o Wilkins, deve ser o maior idiota que jamais vi! Ataque cardaco! 
Estou mesmo a ver que foi isso que ele disse. Qualquer pessoa com um bocado de juzo compreenderia 
logo que o marido a envenenara. Eu sempre disse que ele a assassinaria na cama, coitadinha. E assim fez! 
E voc no faz mais do que murmurar idiotices acerca de ataque cardaco e inqurito na sexta>feira. 
Devia ter vergonha de si mesmo, John Cavendish!

Que quer que eu faa?  perguntou John, incapaz de conter um leve sorriso.  com os demnios, Evie, no 
posso agarr-lo pelo cangote e lev-lo  esquadra!

Mas devia fazer qualquer coisa. Descobrir como a envenenou. Ele  um malandro muito sabido. Apostava 
que ps papis de matar moscas de molho... Pergunte  cozinheira se deu por falta de alguns.

Pensei, nesse momento, que acolher Miss Howard e Alfred Inglethorp debaixo do mesmo tecto, e manter a 
paz entre eles, devia ser uma tarefa herclea, e no invejei o John. Percebi, pela expresso do seu rosto, 
que ele avaliava perfeitamente a dificuldade que a situao apresentava. De momento,

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porm, optou por refugiar-se na retirada e saiu precipitadamente do aposento.

Dorcas trouxe ch acabado de fazer. Quando ela saiu, Poirot abandonou a janela, onde estivera parado, e 
sentou-se defronte de Miss Howard.

Desejo pedir-lhe uma coisa, mademoiselle  declarou, em tom muito grave.

Pois pea!  replicou Evie, olhando-o com certa antipatia.

Desejo poder contar com a sua ajuda.

Ajud-lo-ei com prazer a enforcar Alfred  respondeu, brusca.  Embora o enforcamento seja bom de mais 
para ele. Deveria ser arrastado e esquartejado, como nos bons tempos!

Nesse caso, estamos de acordo, pois eu tambm desejo que o criminoso seja enforcado declarou Poirot.

Alfred Inglethorp? Ele ou outro.

No h outro nenhum. A pobre Emily s foi assassinada quando ele entrou em cena. No digo que no 
estivesse rodeada de tubares... estava. Mas esses s queriam a sua bolsa; a sua vida estava em 
segurana. Mas apareceu Alfred Inglethorp... e em dois meses, pronto!

Acredite, Miss Howard, se Mr. Inglethorp for o criminoso, no me escapar  afirmou Poirot, com firmeza.  
Juro pela minha honra que o enforcarei to alto como Ama!

Estou a gostar mais de o ouvir  declarou Miss Howard, entusiasticamente.

Mas tenho de lhe pedir que confie em mim. A sua ajuda pode ser-me muito valiosa, e eu explico-lhe porqu: 
porque, em toda esta casa de luto, os seus foram os nicos olhos que choraram.

Se quer dizer que gostava dela... sim, gostava. Sabe, a Emily era uma velha egosta,  sua maneira. Muito 
generosa, sem dvida, mas queria sempre a retribuio. Nunca deixava as pessoas esquecerem o que 
fizera por elas .. e assim perdia o amor. Mas no julgue que se apercebia, disso, pensava nisso ou sentia a 
falta de amor. Pelo menos eu espero que no. Quanto

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a mim, encontrava-me numa situao diferente. Pus as minhas condies, logo do princpio: Valho, para 
si, tantas libras por ano. Muito bem, mas nem um dinheiro para alm disso, nem um par de luvas, nem um 
bilhete para o teatro. Ela no compreendia e s vezes ficava muito ofendida. Dizia que eu era 
estupidamente orgulhosa. No se tratava disso, mas no lho podia explicar. Fosse como fosse, conservava 
o respeito por mim mesma. Assim, do grupo todo, era a nica que me podia dar ao luxo de gostar dela. 
Velava por ela, protegia-a de todos, mas depois apareceu um patife de lngua melada e l se foram todos os 
meus anos de devoo por gua abaixo! Poirot acenou com a cabea, compreensivamente.

Compreendo,   mademoiselle,  compreendo  o  que  sente.  muito natural. Pensa que somos mornos, que 
nos falta fogo e energia... mas, acredite-me, no  assim.

Nesse momento, John meteu a cabea pela fresta da porta e convidou-nos aos dois a ir ao quarto de Mrs. 
Inglethorp, pois ele e Mr. Wells j tinham acabado de passar revista  escrivninha da saleta.

Enquanto subamos a escada, John olhou para trs, para a porta da sala de jantar, e baixou a voz para 
perguntar:

Que vai acontecer quando aqueles dois se encontrarem? Abanei a cabea, sem saber que responder.

Disse  Mary que fizesse os possveis por mant-los afastados.

Acha que o conseguir?

S Deus sabe. H uma coisa que talvez ajude: o Inglethorp no ter muito interesse em se encontrar com 
ela.

Ainda tem as chaves, no tem, Poirot?  perguntei, quando chegmos  porta do quarto fechado  chave.

John aceitou a chave que o detective lhe estendeu, abriu a porta e entrmos. O advogado foi direito  
escrivaninha e John seguiu-o.

Creio que a minha me guardava a maior parte dos seus papis importantes nesta caixa de 
correspondncia.

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Poirot tirou da algibeira o pequeno molho de chaves e disse:

Dem-me licena. Fechei-a  chave, por precauo, esta manh.

Mas agora no est fechada  chave.

Impossvel!

Veja  convidou John, e levantou a tampa da caixa, enquanto falava.

Milles  tonnerres! (1)  praguejou  Poirot,  estupefacto. E eu... e eu com ambas as chaves na algibeira!  
Atirou-se  caixa,, mas de sbito imobilizou-se e exclamou:  En  voil une affaire! (2) Esta fechadura foi 
forada!

O qu?

O detective deps de novo a caixa na escrivaninha.

Mas quem a forou? E para qu? Quando? A porta estava fechada  chave, no estava?  Estas perguntas 
foram feitas por ns todos, desconexamente.

Poirot respondeu-lhes categoricamente, quase maquinalmente:

Quem? Essa  a questo. Para qu? Ah, se eu soubesse! Quando? Desde que estive aqui, h uma hora. 
Quanto  porta estar fechada  chave, trata-se de uma fechadura muito banal, que provavelmente pode ser 
aberta por qualquer das chaves das outras portas do corredor.

Olhmos uns para os outros, estupidamente. Poirot aproximara-se da prateleira da chamin. Apesar de 
calmo, no exterior, reparei que as suas mos, que endireitavam com gesto maquinal, pela fora do hbito, 
os vasinhos de torcidas de papel para acender velas, tremiam violentamente.

Vejamos o que se deve ter passado  disse, por fim. Havia qualquer coisa na caixa, qualquer prova, talvez 
em si mesma insignificante, mas apesar disso capaz de relacionar o assassino com o crime. Era vital para 
ele destru-la antes de ser encontrada e compreendido o seu significado. Portanto, correu

(1)   com mil raios! (N. da T.) 

(2)   Bonito servio! (N. da T.)

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o risco  o grande risco, note-se  de vir aqui. Como encontrasse a caixa fechada, foi obrigado a for-la, 
denunciando assim a sua presena. Para que corresse tal risco, devia tratar-se de algo de grande 
importncia.

Mas o qu?

Ah, isso no sei!  replicou Poirot, sem poder conter um gesto de clera,  Um documento qualquer, sem 
dvida, provavelmente o bocado de papel que a Dorcas viu na mo de Mrs. Inglethorp, ontem  tarde. E eua 
clera extravazou de novo, incontida, o grande animal que sou, eu no desconfiei de nada! Comportei-me 
como um imbecil! Nunca devia ter deixado a caixa aqui, devia t-la levado comigo. Ah, trs vezes burro! E 
agora a prova foi-se! Est destruda... Mas estar mesmo destruda? No haver ainda uma 
possibilidade?... Devemos procurar em toda a parte...

Saiu do quarto como um louco e eu segui-o assim que me consegui refazer um pouco do espanto. Mas 
quando cheguei ao cimo da escada j ele desaparecera.

Mary Cavendish estava parada no ponto onde a escada bifurcava, a olhar para baixo, para o vestbulo, na 
direco em que ele desaparecera.

Que aconteceu ao seu extraordinrio amiguinho, Mr. Hastings? Acaba de passar por mim como um touro 
enlouquecido.

Est muito transtornado com qualquer coisa  respondi, atrapalhado, pois no sabia se Poirot desejava que 
eu revelasse o sucedido.

 comear a esboar-se um leve sorriso na boca expressiva de Mrs. Cavendish e tentei mudar de conversa, 
perguntando:

Eles ainda no se encontraram, pois no?

Eles, quem?

Mr. Inglethorp e Miss Howard.

Fitou-me de modo deveras desconcertante e perguntou, por

sua vez:

Acha que seria uma tragdia assim to grande se se encontrassem?

E a senhora, no acha?inquiri, aparvalhado.

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No  respondeu-me, com o seu sorriso sereno.  Gostava de assistir a uma boa exploso. Limparia o ar. De 
momento, pensamos todos muito e dizemos pouco.

O John no compartilha a sua opinio. Est ansioso por evitar que se encontrem.

Ora, o John!

Houve qualquer coisa no seu tom que me fez explodir,

O velho John  um excelente tipo!

 Observou-me um momento, com curiosidade, e depois disse, para minha grande surpresa
:    leal ao seu amigo. Gosto de si por isso.

No  tambm minha amiga?

Sou uma amiga muito m. 

Porque diz isso? 

Porque  verdade. Sou encantadora para os meus amigos, num dia, e no outro esqueo-os por completo.

No sei que bicho me mordeu, mas senti-me abespinhado e repliquei, estupidamente e com muito mau 
gosto:

No entanto, parece invariavelmente encantadora! com o Dr. Bauerstein!

Arrependi-me logo das minhas palavras. O rosto dela endureceu e eu tive a impresso de que uma cortina 
de ao descia e ocultava a verdadeira mulher. Sem uma palavra, virou-me costas e subiu a escada, muito 
hirta, e eu fiquei parado como um idiota, a segui-la com o olhar, embasbacado.

Arrancou-me  basbaquice uma grande gritaria, no vestbulo. Era Poirot que gritava e barafustava. Senti-me 
vexado ao pensar que a minha diplomacia fora em vo. O homenzinho parecia estar a desabafar com toda a 
gente, procedimento cuja sensatez me parecia duvidosa. Foi-me mais uma vez impossvel no lamentar 
que o meu amigo fosse to propenso a perder a cabea num momento de excitao. Desci rapidamente a 
escada e, ao ver-me, Poirot acalmou-se quase imediatamente. Afastei-me um pouco com ele e perguntei-
lhe:

Acha isto sensato, meu caro? No deseja, com certeza,

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que toda a casa tome conhecimento da ocorrncia? Est, na

verdade, a fazer o jogo do criminoso.

Acha que sim, Hastings? 

-   Tenho a certeza. ,   ,  ,.  .

Bem, meu amigo, deixar-me-ei guiar por si     , -

ptimo. Embora,, infelizmente, j seja um pouco tarde para isso.

Tem razo.

Pareceu-me to abatido e envergonhado que tive pena dele, embora continuasse a considerar a minha 
admoestao justa e sensata.

Bem, vamo-nos embora, mon ami  disse-me, por fim.

J acabou o que tinha a fazer aqui?

De momento, j. Acompanha-me a p at  aldeia? De boa vontade.

Poirot pegou na sua pequena pasta e samos pela porta-janela da sala. Cynthia Murdoch vinha a entrar e 
Poirot afastou-se, para lhe dar passagem.

D-me s um minutinho de ateno, mademoiselle, por favor.

Pois sim.

Alguma vez  preparou  remdios para Mrs.  Inglethorp? Alastrou pela cara da rapariga um leve rubor, 
enquanto ela

respondia, constrangida:

No.

S os papelinhos de p? O rubor acentuou-se:

Ah, sim, preparei-lhe uma vez uns papelinhos de um p para dormir!

Estes?  perguntou Poirot, mostrando-lhe a caixa vazia  que contivera os papelinhos de p.

Cynthia acenou afirmativamente.

Sabe dizer-me o que era? Sulfonal? Veronal? >No. Eram brometos.

Muito obrigado, mademoiselle, e bons dias.

Enquanto nos afastvamos, a passo rpido, da casa olhe-o

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diversas vezes. Reparara frequentemente que, quando alguma coisa o excitava, os seus olhos se tornavam 
verdes como os de um gato. Naquela altura brilhavam como esmeraldas.

Meu amigo  disse, por fim, tenho uma ideiazinha, uma ideia muito estranha e, provavelmente, impossvel. E, 
no entanto, ajusta-se...

Encolhi os ombros. Pessoalmente, pensava que Poirot era demasiado atreito quelas ideias fantsticas. 
Naquele caso, a verdade parecia-me demasiado simples e aparente.

Era ento essa a explicao do rtulo em branco da caixa observei.  Muito   simples,   como  o  senhor  
tinha dito. Admira-me, francamente, que no me tenha ocorrido...

Mas Poirot pareceu no me ouvir e disse, inclinando o polegar na direco de Styles:

Descobriram mais uma coisa, l-bas. Mr. Wells disse-me, enquanto subamos a escada.

Que foi?

Fechado  chave na escrivaninha da saleta, encontraram um testamento de Mrs. Inglethorp, com data 
anterior ao seu casamento, no qual deixava a fortuna a Alfred Inglethorp. Deve ter sido feito na altura em 
que ficaram noivos. Foi uma grande surpresa para Wells... e para John Cavendish tambm. Estava feito 
num daqueles impressos prprios e testemunhado por duas criadas... mas no pela Dorcas.

Mr. Inglethorp sabia?

Ele diz que no.

Devemos aceitar isso com uma certa reserva  declarei, cptico.  Todos esses testamentos me parecem 
muito confusos. Diga-me uma coisa: como o ajudaram aquelas palavras rabiscadas no sobrescrito a 
deduzir que ela fez um testamento, ontem  tarde?

Poirot sorriu.

Mon ami, j alguma vez lhe aconteceu, ao escrever uma carta, ter de parar por no saber a ortografia de 
determinada palavra?

J, muitas vezes. Suponho que acontece a toda a gente.

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Exactamente. E, num caso desses, nunca tentou escrever a palavra uma ou duas vezes na beira do mata-
borro, ou num bocado de papel, para ver se lhe parecia bem? Foi isso o que Mrs. Inglethorp fez. Deve ter 
reparado que a palavra possuidora aparece as duas primeiras vezes apenas com um s e depois com 
dois, ou seja, correctamente. Para se certificar, experimentou-a ainda em uma frase: eu seja possuidora. 
Que me disse isso? Disse-me que Mrs. Inglethorp escrevera a palavra possuidora, nessa tarde, e como 
tinha fresco na memria o fragmento de papel encontrado na, lareira, a possibilidade da redaco de um 
testamento (documento em que  quase certo aparecer essa palavra)  acudiu-me imediatamente ao 
esprito. Tal possibilidade foi confirmada por uma circunstncia verificada posteriormente: devido  confuso 
geral, a saleta no tinha sido varrida, esta manh, e junto da escrivaninha viam-se alguns vestgios de barro 
castanho e terra. O tempo tem estado excelente, h alguns dias, e umas botas normais no deixariam um 
depsito to evidente.

Fui at  janela e vi logo que os canteiros das begnias tinham sido plantados de novo. A terra dos 
canteiros era exactamente igual  deixada: no cho da saleta. Alm disso, soube por si que as begnias 
tinham sido plantadas ontem  tarde. No me restaram dvidas de que um, ou talvez ambos os jardineiros 
pois havia dois jogos de pegadas nos canteiros, tinham entrado na saleta. Se Mrs. Inglethorp tivesse 
desejado apenas falar com eles, o mais natural seria ir ela at  janela e no ser necessrio eles entrarem 
na saleta. Fiquei, assim, convencido de que fizera um testamento novo e chamara os dois jardineiros para 
reconhecerem a sua assinatura. Os acontecimentos provaram que a minha suposio estava certa.

Muito engenhoso  no pude deixar de admitir.  Devo confessar que as concluses que, pessoalmente, tinha 
tirado dessas poucas palavras rabiscadas estavam inteiramente erradas.

D excessiva rdea solta  imaginao  afirmou, a sorrir. A imaginao  uma boa serva e uma m ama. A 
explicaomais simples  sempre a mais provvel.

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Outra coisa: como soube que a chave da caixa da correspondncia se perdera?

No sabia, foi um palpite que bateu certo. Deve ter reparado que a chave tinha um pedao de arame torcido, 
passado pelo buraco, o que me sugeriu imediatamente que podia ter sido arrancada de uma frgil argola de 
chaves. Ora, se tivesse sido perdida e achada, Mrs. Inglethorp t-la-ia logo juntado de novo s outras; mas 
no seu molho de chaves eu encontrei uma chave muito nova e muito brilhante, sem dvida um duplicado, o 
que me sugeriu a hiptese de ter sido outra pessoa qualquer que inserira a chave original na fechadura da 
caixa.

Sim, Alfred Inglethorp, sem dvida. Poirot olhou-me com curiosidade e perguntou:

Est assim to certo da sua culpabilidade?

Naturalmente! Cada nova circunstncia parece estabelecer mais claramente a sua culpa.

Pelo contrrio  discordou  Poirot, muito calmo,  h vrios pontos a favor dele.

Ora, ora!

H, sim.

S vejo um.

Qual?

O facto de no estar em casa a noite passada.

Mau tiro, como vocs, ingleses, dizem! Escolheu o nico ponto que, na minha opinio, aponta contra ele.

Porqu?

Porque Mr. Inglethorp, se soubesse que a mulher seria envenenada a noite passada, teria com certeza 
arranjado as coisas de maneira a estar ausente de casa. O seu pretexto foi improvisado, salta aos olhos 
que foi. Isso deixa-nos duas possibilidades: ou ele sabia o que ia acontecer, ou tinha uma razo pessoal 
para se ausentar.

E essa razo era.. ?  perguntei, cptico.

Poirot encolheu os ombros.   

Como quer que saiba? Desonrosa devia ser, com certeza

6 - VAMP. G. 1

81
Acho que Mr. Inglethorp  um salafrrio, mas isso no faz forosamente dele um assassino. Abanei a 
cabea, nada convencido.

No concordamos, hem?  murmurou Poirot.  Bem, deixemos isso. O tempo mostrar qual de ns tem 
razo. Vejamos agora outros aspectos do caso. Que pensa do facto de todas as portas do quarto terem o 
ferrolho corrido, do lado de dentro?

Bem...Pensei, um momento.  Devemos encarar esse pormenor logicamente.

Sem dvida.

As portas tinham os ferrolhos corridos  os nossos prprios olhos no-lo disseram, mas a presena do pingo 
de estearina, no cho, e a destruio do testamento provam que, durante a noite, algum entrou no quarto. 
Concorda, at aqui?

Perfeitamente. Exposto com admirvel clareza. Prossiga. Bem continuei, encorajado, como a pessoa que 
l entrou no o fez pela janela, nem por meios miraculosos, segue-se que a porta deve ter sido aberta do 
interior pela prpria Mrs. Inglethorp. Isso refora a convico de que a pessoa em causa foi o marido. Ela 
abriria, naturalmente, a> porta ao prprio marido. Poirot abanou a cabea.

Porque havia de abrir? Correra o ferrolho da porta de comunicao com o seu quarto  procedimento muito 
estranho da sua parte  e tivera uma discusso muito violenta com ele nessa mesma tarde. No, o marido 
seria a ltima pessoa a quem ela abriria a porta.

Mas concorda em que a porta deve ter sido aberta pela prpria Mrs. Inglethorp?

H outra possibilidade. Ela pode ter-se esquecido de correr o ferrolho da porta do corredor, quando se 
deitou, e ter-se levantado mais tarde, j quase de manh, para o correr.

Poirot, essa , seriamente, a sua opinio?

No digo que seja, mas podia ter sido assim. Mas vejamos outra coisa: que pensa do fragmento de 
conversa que ouviu entre Mrs. Cavendish e a sogra?

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J me tinha esquecido disso  respondi, pensativo.  Continua a parecer-me enigmtico. Parece-me incrvel 
que uma mulher como Mrs. Cavendish, orgulhosa e reservada ao mximo, se intrometesse to 
violentamente numa coisa que, como  bvio, no lhe dizia respeito.

Nem  mais!  Parece-me um  procedimento surpreendente numa mulher com a sua educao.

 sem dvida  curioso  concordei.  No entanto, no tem importncia e no  necessrio tom-lo em 
considerao.

Que lhe tenho eu dito sempre?  perguntou o meu amigo, com um gemido de exaspero.  Tem de se tomar 
tudo em considerao. Se o facto no se ajusta  teoria, abandone-se a teoria.

Bem, veremosredargui, espicaado.

Pois veremos.

Chegramos a Leastways Cottage e Poirot levou-me para o primeiro andar, para o seu quarto. Ofereceu-
me um dos minsculos cigarros russos que fumava de vez em quando. Deu-me vontade de rir verificar que 
guardava cuidadosamente os fsforos gastos numa jarrinha chinesa. A minha irritao momentnea 
desapareceu.

Poirot colocara as cadeiras de ambos defronte da janela aberta, de onde se via a rua da aldeia, e pela qual 
entrava o ar tpido e agradvel, amos ter um dia quente.

De sbito, prendeu-me a ateno um jovem que descia apressadamente a rua, em grandes passadas. O 
que me pareceu extraordinrio foi a expresso do seu rosto, uma curiosa mistura de terror e agitao.

Olhe, Poirot!

O detective inclinou-se para a frente e exclamou:

Tiens!  Mr. Mace, da farmcia, e dirige-se para c.

O jovem parou diante do Leastways Cottage e, aps hesitar um momento, bateu  porta, com fora.

Um minutinho  disse-lhe Poirot, da janela.  Deso j. Fazendo-me sinal para o seguir, correu pela escada 
abaixo e

abriu a porta. Mr. Mace comeou imediatamente a falar.

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Oh, Mr. Poirot, desculpe incomod-lo, mas ouvi dizer que acaba de chegar da manso...

Acabamos, sim.

O rapaz humedeceu os lbios secos. Percorriam-lhe o rosto espasmos curiosos.

Toda a aldeia- fala da morte to inesperada de Mrs. Inglethorp, diz-se...   baixou cautelosamente a voz e 
perguntou: Foi veneno?

O rosto de Poirot manteve-se sereno e impassvel.

S os mdicos nos podero esclarecer a esse respeito, Mr. Mace.

Sim, com certeza...  O jovem hesitou, mas depois no pde conter a agitao, agarrou Poirot por um brao 
e reduziu a voz a um murmrio:Diga>-me s uma coisa, Mr. Poirot: no foi... no foi estricnina?

Mal ouvi o que o detective lhe respondeu, mas foi sem dvida qualquer coisa cuja natureza no o 
comprometeria. O rapaz foi-se embora e, ao fechar a porta, os olhos de Poirot cruza-

ram-se com os meus.

Sim, ele ter declaraes a prestar no inqurito  disse-me, a acenar gravemente com a cabea.

Subimos a escada, devagar. Abri a boca, mas Poirot deteve-me com um gesto da mo.

Agora no, mon ami, agora no. Preciso de reflectir. Reina uma! certa desordem no meu crebro, o que no 
est bem.

Esteve cerca de dez minutos sentado num silncio total e perfeitamente imvel, tirando alguns movimentos 
expressivos das sobrancelhas, enquanto os seus olhos se tornavam cada vez mais verdes. Por fim, soltou 
um grande suspiro.

Pronto, o mau momento j l vai. Agora est tudo arrumado e classificado. No devemos permitir a 
confuso, nunca. O caso ainda no est claro, evidentemente que no, pois  muitssimo complicado. 
Intriga-me, intriga-me a mim, Hercule Poirot! H dois factos significativos.

Quais so eles?

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O primeiro  o estado do tempo, ontem. Isso  muito importante.

Mas esteve um dia maravilhoso! Est a mangar comigo, Poirot!

De modo nenhum. O termmetro marcou 27 graus centgrados  sombra. No se esquea disso, meu 
amigo, pois  a chave de toda a charada!

E o segundo?

O segundo  o facto importante de Monsieur Inglethorp usar vesturio muito peculiar, ter barba preta e usar 
culos.

Poirot, no posso acreditar que esteja a falar a srio.

Falo absolutamente a srio, meu amigo.

Mas  infantil!

No.  muito importante.

Supondo que o jri do inqurito emite um veredicto de assassnio intencional contra Alfred Inglethorp. Que 
acontecer ento s suas teorias?

No ficariam abaladas pelo facto de doze homens estpidos terem cometido um erro! Mas isso no 
acontecer. Por um lado, um jri de tribunal de provncia no sente inclinao para assumir 
responsabilidades dessas, tanto mais que Mr. Inglethorp se encontra praticamente na posio do senhor 
local. Por outro  acrescentou  placidamente, eu no o permitiria!

Voc no o permitiria?

No.

Olhei para o extraordinrio homenzinho, sentindo-me simultaneamente irritado e divertido. Mostrava-se to 
tremendamente seguro de si mesmo! Acenou devagarinho com a cabea, como se lesse os meus 
pensamentos, e exclamou:

Oh, sim, mon ami, faria precisamente o que disse. Levantou-se, ps a mo no meu ombro, a sua fisionomia 
modificou-se por completo e os olhos encheram-se-lhe de lgrimas. Em tudo isto, penso na pobre Mrs. 
Inglethorp, que est

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morta. No era extraordinariamente amada, pois no... Mas foi muito boa para ns, belgas, e estou em 
dvida para com ela.

Tentei interromp-lo, mas ele prosseguiu:

Deixe-me dizer-lhe uma coisa, Hastings: ela nunca me perdoaria se eu deixasse Alfred Inglethorp, o seu 
marido, ser preso agora, agora que uma palavra minha podia salv-lo!

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Captulo VI

O   INQURITO

Nos dias que precederam o inqurito, Poirot foi infatigvel. Fechou-se duas vezes com Mr. Wells, em 
grande conversa e deu tambm longos passeios pelo campo. Senti-me um pouco magoado por no me 
fazer confidncias, tanto mais que eu no imaginava onde ele queria chegar.

Acudiu-me a ideia de que talvez tivesse andado a investigar na quinta de Raikes. Por isso, como no o 
encontrei em casa quando passei por Leastways Cottage na quarta-feira  tardinha, dirigi-me para a 
quinta pelos campos, na esperana de o encontrar. Mas no vi nem sombra dele e hesitei em ir mesmo at 
 quinta propriamente dita. Quando regressava, encontrei um rstico idoso, que me perguntou, a rir 
manhosamente:

 da manso, no ?

Sou. Procuro um amigo meu, que julguei tivesse vindo para estes lados.

Um tipo baixinho, que mexe muito as mos enquanto fala? Um desses belgas da aldeia?

Sim!  confirmei, ansioso.  Ele esteve, ento, aqui?

Ah, esteve, esteve! E mais do que uma vez.  seu amigo, hem? Ah, os senhores da manso saram-me 
umas boas prendas! E riu-se mais cinicamente ainda.

Porqu? Os senhores da manso vm c muitas vezes? perguntei, esforando-me por aparentar a maior 
naturalidade possvel.

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Piscou-me o olho, sabidamente.

Um vem, mister. No menciono nomes, claro. E  um cavalheiro muito liberal!... Oh, muito obrigado!

Afastei-me depressa. Evelyn Howard tivera, afinal, razo, e eu senti profunda repugnncia ao pensar na 
liberalidade de Alfred Inglethorp com o dinheiro de outra mulher. A cigana picante estivera na base do crime, 
ou tratar-se-ia do motivo ainda mais vil do dinheiro? Provavelmente era <uma judiciosa mistura de ambas as 
coisas.

Em determinada altura, Poirot pareceu-me possesso de curiosa obsesso. Disse-me uma ou duas vezes 
estar convencido de que a Dorcas se enganara ao calcular o tempo da discusso, e observou-lhe 
repetidamente que ela devia ter ouvido as vozes s quatro e meia e no s quatro horas-

Mas a mulher mamtinha-se inabalvel. Decorrera uma boa hora, ou talvez mais, entre a altura em que ouvira 
as vozes e as cinco horas, hora a que levara o ch  patroa.

O inqurito efectuou-se na sexta-feira no Stylites Arms, na aldeia. Poirot e eu sentmo-nos ao lado um 
do outro, pois no tnhamos sido convocados para depor.

Procedeu-se aos preliminares. O jri viu o corpo e John Cavendish identificou-o.

Interrogado a seguir, John contou como acordara, s primeiras horas da manh, e as circunstncias da 
morte da me.

Seguiu-se o depoimento mdico. Fez-se um grande silncio e os olhares fixaram-se todos no famoso 
especialista londrino, que se sabia ser uma das maiores autoridades no campo da toxicologia.

Em breves palavras, referiu o resultado da autpsia: liberto da fraseologia mdica e dos aspectos tcnicos, 
resumia-se ao facto de Mrs. Inglethorp ter morrido em consequncia de envenenamento por estricnina- A 
julgar pela quantidade encontrada, no devia ter ingerido menos de trs quartos de um gro de estricnina e 
era at provvel que tivesse ingerido um gro ou pouco mais.

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Poder ter ingerido o veneno por acidente?  perguntou o juiz de instruo.

Acho a hiptese muito pouco provvel. A estricnina no  utilizada para fins domsticos, ao contrrio de 
alguns venenos, e h restries  sua venda.

No exame que efectuou alguma coisa lhe permitiu determinar como foi o veneno administrado?

No.

Chegou a Styles antes do Dr. Wilkins, creio?

Cheguei, de facto.  Encontrei o automvel  sada do porto da manso e dirigi-me para a residncia o mais 
depressa que pude.

Queira fazer o favor de nos relatar exactamente o que se passou a seguir.

Entrei no quarto de Mrs. Inglethorp, que nesse momento estava com uma convulso tetnica tpica. Virou-
se para mim e disse, arquejante: Alfred... Alfred!...

A estricnina podia ter sido administrada no caf, aps o jantar, caf que lhe foi levado pelo marido?

Talvez, mas a estricnina  uma droga de aco relativamente rpida. Os sintomas aparecem cerca de uma 
a duas horas aps a ingesto. Em certas circunstncias, o efeito  retardado, mas nenhuma dessas 
circunstncias se parece ter verificado no caso presente. Presumo que Mrs. Inglethorp bebeu o caf, depois 
do jantar, cerca das oito horas da noite, ao passo que os sintomas s se manifestaram nas primeiras horas 
da manh, o que sugere ter a droga sido ingerida muito mais tarde.

Mrs. Inglethorp tinha o hbito de tomar uma chvena de cacau no meio da noite. A estricnina poderia ter 
sido administrada no cacau?

No. Colhi pessoalmente uma amostra do cacau que restava no tacho e mandei-o analisar. No continha 
estricnina.

Ouvi Poirot rir baixinho, a meu lado, e perguntei-lhe num sussurro:

Como sabia?

89
Preste ateno-

Devo dizer  prosseguia o especialista  que teria ficado muitssimo surpreendido se o resultado da anlise 
tivesse sido diferente.

Porqu?

Simplesmente porque a estricnna tem um gosto muito amargo. Consegue-se detectar numa soluo de 1 
por 70000 s  possvel disfar-la com uma substncia de gosto muito forte. O cacau no conseguiria 
disfar-la.

Um membro do jri quis saber se a mesma objeco se aplicava ao caf.

No. O caf tambm tem um gosto amargo, que provavelmente disfararia o da esttricnina.

Considera ento mais provvel que a droga tenha siddo administrada no caf, mas que, por qualquer razo 
desconhecida, a sua aco foi retardada?

Sim, mas como a chvena estava completamente desfeita no houve possibilidade nenhuma de analisar o 
seu contedo.

Terminou assim o depoimento do Dr. Bauerstein, que o Dr. Wilkins corroborou em todos os pontos. 
Interrogado quanto  possibilidade de suicdio, repudiou-ai inteiramente. A falecida, declamou, tinha o 
corao fraco, mas tirando isso gozava de perfeita sade e era de disposio alegre e equilibrada. Seria 
uma das ltimas pessoas a acabar com a prpria vida

Lawrence Cavendish foi ouvido a seguir. As suas declaraes no se revestiram da mnima importncia, 
pois foram uma mera repetio das feitas pelo irmo. No entanto, quando se ia a afastar, parou e disse, 
hesitante:

Gostaria de apresentar uma sugesto, se mo permitem. Olhou, suplicante, para o juiz de instruo, que 
respondeu, brusco:

com certeza, Mr. Cavendish. Estamos aqui para descobrir a verdade e agradecemos tudo quanto possa 
conduzir a uma maior elucidao.

Trata-se apenas de uma ideia minha  explicou Lawrence.

90
Claro que posso estar enganado, mas continua a parecer-me que a morte da minha me pode ser 
justificada por meios naturais.

Como chegou a essa concluso, Mr. Cavendish?

Na altura da sua morte e durante algum tempo antes, a minha me tomava un tnico contendo estricnina.

Ah!  exclamou o juiz de instruo.

Os membros do jri levantaram a cabea, interessados.

Suponho  continuou Lawrence  que tem havido casos em que o efeito cumulativo de uma droga, 
administrada durante algum tempo, acabou por causar a morte.  No ser tambm possvel que ela tenha 
tomado uma dose excessiva de medicamento, por acidente?

 a primeira vez que ouvimos dizer que a falecida andava a tomar estricnina, ao tempo da morte. Ficamos-
lhe muito obrigados, Mr. Cavendish.

Chamado de inovo, para se pronunciar sobre o assunto, o Dr. Wilkins ridicularizou a ideia.

O que Mr. Cavendish sugere  absolutamente impossvel. Qualquer mdico lhes diria o nnesmo. A 
estricnina , em certo sentido, um veneno cumulativo, mas seria impossvel que redundasse em morte 
sbita, desta maneira. Teria de haver um longo perodo de sintomas crnicos, que atrairiam imediatamente 
a minha ateno. Toda a ideia  absurda.

E a segunda sugesto? A possibilidade de, inadvertidamente, Mrs. Inglethorp haver tomado uma dose 
excessiva!?

Trs, ou ait mesmo quatro doses, no provocariam a morte. Mrs. Inglethorp mandava sempre preparar uma 
grande quantidade de remdio de cada vez, visto ser cliente do Coots, de Tadmiinster. Precisaria de tomar 
quase o frasco todo para justificar   a   quantidade   de   estricnina   encontrada   na   autpsia.

Acha ento que no devemos considerar o tnico como instrumental, em qualquer sentido, na causa da 
morte?

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Evidentemente que no. A suposio  ridcula.

O mesmo jurado que interrompera antes alvitrou a possibilidade de o farmacutico que preparara o remdio 
Se ter enganado.

Isso  sempre possvel, claro  admitiu o mdico,

Mas Dorcas, que deps a seguir, anulou at mesmo essa possibilidade: o remdio no tinha sido feito 
recentemente. Pelo contrrio, Mrs. Inglethorp tomara a ltima dose no dia da morte.

Portanto, a questo do tnico acabou por ser abandonada e o juiz de instruo prosseguiu com a sua 
tarefa. Depois de Dorcas lhe explicar que fora acordada pelo toque violento da campainha da ama, e que a 
seguir acordara toda a gente, o juiz abordou a discusso da tarde anterior.

O depoimento de Dorcas a esse respeito foi substancialmente o que Poirot e eu j ouvramos da sua boca, 
e por isso no vou repeti-lo aqui.

A testemunha seguinte foi Mary Cavendish. Manteve-se muito direita e falou em voz clara, baixa e 
perfeitamente calma. Em resposta a uma pergunta do juiz, disse-lhe que o despertador a acordara s 
quatro e meia da manh, como de costume, e que se estava a vestir quando a assustara o barulho da 
queda de algo pesado.

Seria a mesa-de-cabeceira?  sugeriu o juiz.

Abri a porta e escutei  prosseguiu Mary.  Poucos minutos depois, tocou uma campainha, violentamente. A 
Dorcas apareceu a correr e acordou o meu marido, e dirigimo-nos todos   para   o   quarto   da   minha   
sogra,   mas   estava   fechado. ..

O juiz de instruo interrompeu-a:

Creio que no vale a pena incomod-la com essa parte. J sabemos tudo quanto  possvel saber dos 
acontecimentos subsequentes. Agradecia-lhe no entanto que nos contasse tudo quanto ouviu da discusso 
da vspera.

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- Eu?
Havia uma tnue nota de insolncia na sua voz- Levantou a mo e endireitou o folho de renda do decote, 
virando um bocadinho a cabea, ao faz-lo. E, de repente, a ideia atravessou-me o esprito: Est a ganhar 
tempo!

Sim. Consta-me que estava sentada a ler no banco que fica do lado de fora da grande janela da saleta  
respondeu o juiz de instruo, em tom firme.   verdade, no ?

Aquilo era novidade para mim e, olhando de soslaio para Poirot, pareceu-me que tambm era novidade para 
ele.

Seguiu-se uma pequenina pausa, uma brevssima! hesitao, antes de ela responder:

, sim,  verdade.

E a janela da saleta estava aberta, no estava?

O seu rosto tornowse, sem dvida, um nadinha mais plido, quando respondeu:

Estava.

Ento -no pode ter deixado de ouvir as vozes que soaram no interior, tanto mais que a clera as tornava 
mais altas do que habitualmente. Deviam ser at muito mais audveis do lugar onde a senhora estava do 
que no vestbulo.

Possivelmente.

Queira repetir o que ouviu da discusso.

Francamente, no me lembro de ter ouvido nada.

Pretende dizer que no ouviu vozes?

Oh, sim, ouvi as vozes! Mas no ouvi o que diziam. Alastrou-lhe pelo pescoo um leve rubor.  No tenho o 
hbito de escutar conversas particulares.

O juiz insistiu:

No se lembra de nada? De nada, Mrs. Cavendish? Nem  de uma palavra ou uma frase solta, que lhe 
tivesse dado a entender que se tratava de uma conversa particular?

Mrs. Cavendish pareceu reflectir, embora exteriormente continuasse a aparentar a mesma calma.

93


Sim, lembro. Mrs. Inglethorp disse qualquer coisa... no me recordo exactamente o qu... acerca de 
provocar escndalo entre marido e mulher.

Ah!  o  juiz  recostou-se  na  cadeira,  satisfeito.  isso corresponde ao que a criada Dorcas ouviu- Desculpe, 
Mrs. Cavendish, apesar de reconhecer que se tratava de uma conversa particular, no se afastou? 
Permaneceu onde estava?

Captei a cintilao momentnea dos seus olhos fulvos, quando levantou a cabea. Tive a certeza de que, 
naquele momento, Mary Cavendish seria capaz de fazer em fanicos o advogadozinho e as suas 
insinuaes, mas foi calmamente que respondeu:

No. Sentia-me muito confortvel onde estava e fixei a ateno no livro.

 tudo quanto nos sabe dizer?

.

O interrogatrio terminou, embora eu duvidasse que o juiz tivesse ficado inteiramente satisfeito. Creio que 
suspeitava de que Mary Cavendish poderia ter dito mais, se quisesse.

Seguidamente foi chamada a caixeira Amy Hill, que declarou ter vendido um impresso de testamento na 
tarde de 17 a William Earl, segundo jardineiro de Styles.

Sucederam-lhe William Earl e Manning, que declararam terem assinado um documento, como 
testemunhas. Manning fixou a hora nas quatro e meia, aproximadamente, e William foi de parecer que tinha 
sido muito mais cedo.

Seguiu-se Cynthia Murdoch, que tinha pouco que dizer. No soubera de nada da tragdia at ser acordada 
por Mrs. Cavendish.

No ouviu a mesa cair?

No. Estava ferrada no sono. O juiz de instruo sorriu.

A conscincia tranquila torna o sono pesado  comentou. Obrigado, Miss Murdoch, no desejo mais nada.

Miss Howard.

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Miss Howard apresentou a carta que Mrs. Inglethorp lhe escrevera na tarde do dia 17. Poirot e eu j a 
vramos, claro. No acrescentava nada ao nosso conhecimento da tragdia Segue-se um facsimile:
Styles Court, 17 de Julho
Minha querida Evelyn:
No podemos enterrar o machado de guerra? Tem-me sido difcil perdoar as coisas que disseste contra o 
meu querido marido, mas estou velha e sou muito tua amiga.
Afectuosamente,
Emily Inglethorp
***
O texto da carta est manuscrito no livro
Nota do digitalizador
***
Foi entregue aos jurados, que a observaram atentamente.

Creio que no nos ajuda muito  comentou o juiz de instruo, suspirando.  No  contm  nenhuma  meno  
de qualquer dos acontecimentos daquela tarde.

Pois para mim  clara como gua  declamou Miss Howard, secamente.  Mostra perfeitamente que a minha 
pobre amiga acabava de descobrir que tinham feito dela idiota.

Na carta no diz nada de semelhante  salientou o juiz.

No diz porque a Emily nunca foi capaz de dar o brao a torcer. Mas eu conhecia-a. Queria que voltasse, 
mas no

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admitiria que eu tivera razo. Preferia os rodeios, como muita gente- Pessoalmente, no acredito que dem 
resultado.

MT. Wells esboou um leve sorriso, no que foi imitado por diversos membros do jri. No me restaram 
dvidas de que a personalidade de Miss Howard era do conhecimento pblico.

De qualquer modo, toda esta patacoada  uma grande perda de tempo  continuou a mulher, percorrendo o 
jri com um olhar desdenhoso.  Conversa... conversa... conversa! Quando afinal sabemos perfeitamente...

O juiz interrompeu-a, muito inquieto:

Obrigado, Miss Howard, no desejo mais nada. Desconfio que Mr. Wells soltou um suspiro de alvio quando

a viu pelas costas.

Chegou ento a altura da sensao do dia: o juiz de instruo chamou Albert Mace, ajudante de 
farmacutico.

Tratava-se do nosso jovem plido e agitado. Em resposta s perguntas que o magistrado lhe fez, respondeu 
que era farmacutico habilitado, mas que trabalhava havia pouco tempo na farmcia em questo em virtude 
de o ajudante anterior ter sido chamado para o servio militar

Concludos os preliminares, o juiz de instruo passou ao que interessava:

Mr.   Mace,   vendeu  recentemente  estricnina   a   alguma pessoa no autorizada?

Vendi, sim, senhor.

Quando foi isso?

Segunda-feira passada,  noite.

Segunda-feira? No ter sido tera-feira? No, senhor. Foi na segumda-feira, 16. Sabe dizernnos a quem a 
vendeu?

O silncio era to grande que se ouviria cair um alfinete.

Sei, sim, senhor. Foi a Mr. Inglethorp.

Todos os olhares se viraram simultaneamente para o lugar onde Alfred Inglethorp estava sentado, 
impassvel e carrancudo. Estremeceu levemente, quando as palavras acusadoras saram

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dos lbios do rapaz, e cheguei a pensar que fosse levantar-se da cadeira; mas permaneceu sentado, 
embora se lhe estampasse no rosto uma expresso de espanto muito convincente.

Tem a certeza do que diz? perguntou o magistrado, severamente.

Absoluta, excelncia.

 seu hbito vender estricnina indiscriminadamente, ao balco?

O pobre rapaz esmoreceu visivelmente, ao ver o franzir de cenho do juiz.

Oh, no, claro que no! Mas tratando-se de Mr. Inglethorp, da manso, pensei que no fazia mal... Ele 
disse que era para envenenar um co.

Compreendi intimamente o jovem. Tentar agradar  manso fazia parte da natureza humana, em especial 
quando isso podia levar o cliente a trocar o Coots pela farmcia local.

No  costume quem compra veneno assinar um livro?

, e Mr. Inglethorp assinou-o. Tem o livro consigo?

Tenho, sim.

O livro foi apresentado e, com algumas palavras de severa censura, o juiz mandou embora o pobre Mr- 
Mace.

Em seguida, no meio de grande silncio, foi chamado Alfred Inglethorp. Perguntei a mim mesmo se ele 
teria conscincia do apertar do lao  roda do pescoo.

O juiz foi direito ao assunto, sem rodeios:

Ao fim da tarde da ltima segunda-feira comprou estricnina com o intuito de envenenar um co?

Inglethorp respondeu, com absoluta calma:

No, no comprei. No existe nenhum co em Styles, a no ser um co pastor, que est de perfeita 
sade.

Nega absolutamente ter comprado estricnina a Albert Mace, na segundahfeira passada?

Nego.

Tambm nega absolutamente isto?

7 - VAMP. G. 1

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O juiz estendeu-lhe o registo no qual estava a sua assinatura.

Claro que nego. A letra  muito diferente da minha, como vou demonstrar.

Tirou um velho sobrescrito da algibeira, escreveu o nome e entregou o sobrescrito aos jurados. A letra era, 
de facto, inteiramente diferente.

Como explica, ento, o depoimento de Mr- Mace?

Mr. Mass deve-se ter enganado.

O juiz hesitou um momento, antes de perguntar:

Mr. Inglethorp, por uma simples questo de forma, importa-se de nos dizer onde esteve no fim da tarde de 
segunda-feira, 16 de julho?

Francamente.., no me lembro.

Isso  absurdo, Mr. Inglethorp!  afirmou o juiz, rspido.

Pense melhor. Inglethorp abanou a cabea.

No lhe sei dizer. Tenho uma vaga ideia de que estive fora de casa, a andar...

Em que direco?

No me lembro, realmente.

Esteve na companhia de algum?  insistiu o juiz, em tom mais grave.

No.

Encontrou algum, no seu passeio?

No.

  pena  comentou  o  magistrado,  secamente.  Devo deduzir, ento, que se recusa a. dizer onde estava 
na altura em que Mr. Mace o reconheceu positivamente, como tendo ido  sua farmcia comprar 
estricnina? ,

Se quer ver as coisas desse modo...

Tenha cuidado, Mr. Inglethorp.

Sacr!        murmurou Poirot, que se mexia nervosamente.

Este imbecil querer ser preso?
Inglethorp estava, de facto, a criar m impresso. Os seus dbeis desmentidos nem uma criana teriam 
convencido. Mas

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o juiz de instruo passou ao ponto seguinte e Poirot soltou um profundo suspiro de alvio.

Discutiu com a sua mulher na tera-feira  tarde?

Perdo, foi mal informado. No tive discusso nenhuma com a minha querida mulher, toda essa histria  
absolutamente falsa. Estive a tarde inteira ausente de casa.-

Pode indicar algum que o testemunhe?

Tem a minha palavra  redarguiu Inglethorp, altivamente. O juiz no se deu ao trabalho de lhe responder.

H duas testemunhas dispostas a jurar que ouviram a sua disputa com Mrs. Inglethorp.

Essas testemunhas esto enganadas.

Senti-me perplexo. O indivduo falava com uma confiana e uma calma to grandes que quase abalava as 
minhas convices. Olhei para Poirot e no compreendi a expresso exultante do seu rosto. Estaria 
finalmente convencido da culpabilidade de Alfred Inglethorp?

Mr.   Inglethorp,   ouviu   repetir   nesta   sala   as   ltimas palavras da sua mulher, antes de morrer. Tem 
alguma explicao para elas?

Por certo que sim.

Sim?

Parece-me muito simples. O quarto estava mal iluminado, o Dr. Bauerstein  mais ou menos da minha 
altura e constituio e, como eu, usa barba. quela luz e sofrendo como sofria, a minha pobre mulher 
confundiu-o comigo.

Ah!  exclamou   Poirot,   baixinho.    uma  ideia,   de facto,  uma ideia!

Acha que  verdade?  Perguntei-lhe, tambm baixinho.

No direi tanto, mas no h dvida de que  uma sugesto muito engenhosa.

Interpretaram ais ltimas palavras da minha mulher como uma acusao  prosseguiu Inglethorp , quando na 
realidade elas eram um apelo.

O juiz pensou, uns momentos, antes de continuar:

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Creio, Mr. inglethorp, que foi o senhor mesmo quem deitou o caf e o levou  sua mulher, nessa noite?

Deitei, de facto, o caf, mas no lho levei. Tencionava levar-lho, mas informaram-me de que estava um 
amigo  porta do vestbulo e, por isso, pus a chvena do caf em cima da mesa do vestbulo. Quando voltei 
passados minutos j l no estava.

A declarao podia ou no ser verdadeira, mas no me pareceu que melhorasse muito as coisas, para 
Inglethorp. De qualquer modo, ele tivera tempo mais do que suficiente para deitar o veneno no caf.

Nessa altura, Poirot deurme uma cotoveladinha e apontou dois homens sentados ao lado um do outro, 
perto da porta. Um era um homenzinho baixo e moreno, com cara de furo, e o outro era alto e louro.

Interroguei o meu amigo, mudamente, e ele aproximou os lbios do meu ouvido e perguntou:

Sabe quem  aquele homenzinho? Abanei a cabea.

 o detective inspector James Japp, da Scotland Yard: Jimmy Japp. O outro tipo tambm  da Scotland 
Yard. As coisas esto a andar muito depressa, meu amigo.

Olhei com ateno para os dois homens, que no tinham nada de polcias. Nunca me teria passado pela 
cabea que fossem personalidades oficiais.

Ainda estava a olhar para eles quando a leitura do veredicto desviou a minha ateno:

Homicdio voluntrio perpetrado por pessoa ou pessoas desconhecidas.

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Captulo VII

POIROT  PAGA  AS  SUAS   DVIDAS

Quando samos do Stylites Arms. Poirot chamou-me  parte, com uma pequena presso do brao. 
Compreendi o que pretendia: esperava os homens da Scotland Yard.

Eles saram momentos depois e o meu amigo avanou imediatamente e abordou o mais baixo:

Receio que no se lembre de mim, inspector Japp.

Oh, Mr. Poirot!  exclamou o inspector, e acrescentou, virandoHse para o outro homem:  J  me ouviu falar 
de Mr. Poirot, no ouviu? Em 1904 trabalhmos juntos, ele e eu: o caso de falsificao Abercrombie, 
lembra-se? Ele foi apanhado em Bruxelas. Ah, aquilo  que eram tempos, musierl E lembra-se do baro 
Aliara? Que grande safado! Conseguiu escapar s garras de metade da Polcia da Europa, mas ns filmo-
lo em Anturpia..   graas aqui a Mr. Poirot.

Aproximei-me mais, enquanto o inspector desfiava aquelas recordaes agradveis, e fui apresentado a 
Japp, que por sua vez nos apresentou aos dois ao seu companheiro, o superintendente Summerhaye.

Quase no preciso de lhes perguntar o que fazem aqui, cavalheiros...observou Poirot.

Japp piscou um olho, manhosamente-

Claro que no!  um caso muito claro, quanto a mim.

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Discordo de si, a esse respeito  declarou Poirot, grave-

memte.

Oh, deixe-se disso!  exclamou Suimmerhaye, descerrando os lbios pela primeira vez.  Todo o caso  claro 
como gua, o homem foi apanhado, por assim dizer, com a boca na botija. Palavra, no Compreendo como 
pde ser to estpido!

Mas Japp olhava atentamente para Poirot e disse, risonho:

Sustenha o fogo, Suimimerhaye! Eu e aqui o musier j nos conhecemos e eu no aceitaria a opinio de 
nenhum homem to depressa como aceito a dele. Ou me engano muito, ou tem qualquer coisa na manga. 
No  verdade, musier?

Poirot sorriu.

Bem... tirei certas concluses.

Summerhaye continuava com um ar muito cptico, mas Japp observava o meu amigo perscrutadoramente.

At agora, s vimos o caso do exterior  disse Japp. Nesse aspecto, a Yard est em desvantagem num 
caso destes, em que o assassnio s  admitido, por assim dizer, depois do inqurito. Tem muita 
importncia estar no local logo s primeiras, e nisso Mr. Poirot levou-nos a dianteira. Ns nem agora c 
estaramos se no fosse a presena aqui de um mdico inteligente, que nos informou por intermdio do juiz 
de instruo. Mas o senhor esteve no local desde o princpio e  possvel que tenha colhido uns 
indiciozinhos. A julgar pelo que ficou demonstrado no inqurito, Mr. Inglethorp assassinou a mulher, to 
certo como eu estar aqui, e se outro, que no o senhor, insinuasse o contrrio, eu rir-me-ia na sua cara. 
Confesso que fiquei surpreendido por os jurados no terem dado logo um veredicto de homicdio voluntrio 
contra ele. Creio, alis, que o teriam dado se no fosse o juiz, que me pareceu det-los.

Talvez, no entanto, voc tenha um mandado de captura contra ele na algibeira.. insinuou Poirot.

Foi como se um postigo de impenetrvel oficialidade se fechasse e velasse o rosto expressivo de Japp, que 
redarguiu secamente:

102
Talvez tenha, e talvez no.

   Poirot fitou-o, pensativo, e confessou:

! Tenho um grande empenho em que ele no seja preso,

(Messieurs.

Assim parece  comentou Summerhaye, sarcstico. Mas Japp olhava Poirot com cmica perplexidade.

No pode ir um bocadinho mais longe, Mr. Poirot? Uma piscadela de olho tem tanto valor como um aceno 
de cabea... da sua parte. O senhor esteve no local e, como sabe, a Yard no deseja cometer erros.

Foi exactamente o que pensei  redarguiu Poirot, a acenar, muito grave, com a cabea.  Bem, digo-lhe o 
seguinte: utilize o seu mandado e prenda Mr. Inglethorp, mas no ganhar nadssima com isso: a acusao 
contra ele ser imediatamente anulada! Comme a!  e estalou os dedos, expressivamente.

O rosto de Japp tornou-se srio, ao passo que Summerhaye soltava uma espcie de grunhido incrdulo.

Quanto a mim, estava literalmente parvo de espanto. S conseguia chegar a uma concluso: Poirot estava 
doido.

Japp tirara um leno e enxugava a testa, devagarinho.

No me atrevo, Mr. Poirot. Eu aceitaria a sua palavra, mas h outros acima de mim que quereriam saber 
por que diabo procedera assim. No me pode dar mais qualquer coisa em que me basear?

Poirot pensou, antes de responder:

Sim, pode ser. Admito que no o desejo,  como forar a mo. Preferia trabalhar no escuro, por enquanto, 
mas o que voc disse  muito justo. A palavra de um polcia belga, cujo tempo j l vai, no  suficiente! E 
Alfred Inglethorp no deve ser preso. Jurei isso mesmo, como aqui o meu amigo Hastings sabe. Vejamos 
portanto, meu bom Japp... Seguem imediatamente para Styles?

Dentro de meia hora, mais ou menos. Primeiro vamos falar com o juiz de instruo e com o mdico-

103
ptimo. ChameHme, de passagem.  a ltima casa da aldeia. Irei consigo. Em Styles Mr. Inglethorp 
dar-lhe- (ou, se ele se recusar, o que  possvel, dar-lhe-ei eu) provas que o convencero de que a 
acusao contra ele no se aguenta de p. Combinado?

Combinado!  aceitou Japp, bem disposto.  E, em nome da Yard, creia que lhe estou muito grato, embora 
confesse que, de momento, no vejo nenhuma possvel falha nos indcios contra ele. No entanto, voc foi 
sempre um prodgio! At j, musier.

Os dois detectives afastaram-se, Summerhaye a sorrir incredulamente.

Ento, meu amigo, que lhe parece?  perguntou -Poirot, exuberante, antes que eu tivesse tempo de abrir a 
boca.  Mon Dieu, passei maus momentos naquela audincia! No me passou pela cabea que o indivduo 
pudesse ser to obstinado ao ponto de se recusar a dizer fosse o que fosse. Decididamente, foi ma 
poltica de imbecil, a sua.

Hum... h outras explicaes alm da de imbecilidade. Se aquilo de que o acusaram  verdade, como se 
poderia defender a no ser pelo silncio?

Ora essa, de mil e uma engenhosas maneiras!  exclamou o meu  amigo.  Suponhamos que fui eu que 
cometi este assassnio: ocorrem-me sete histrias muito plausveis, e muito mais convincentes do que as 
teimosas negaes de Mr. Inglethorp!

No pude deixar de rir.

Meu caro Poirot, tenho a certeza de que  capaz de inventar setenta, em vez de sete! Mas, a srio, e 
apesar do que o ouvi dizer aos detectives, no  possvel que continue a acreditar na possibilidade da 
inocncia de Alfred Inglethorp, pois no?

Porque hei-de acreditar menos agora do que atrs? Nada mudou.

Mas os indcios apresentados so to concludentes...

104
Sim, so demasiado concludentes.

   Transpusemos a cancela do Leastways Cottage e subimos
a escada que j se me tornara familiar.

Sim,  sim,  demasiado  concludentes  continuou   Poirot, como se falasse sozinho.  Os indcios autnticos 
so geralmente vagos e insatisfatrios... so indcios- Tm de ser estudados, escolhidos... Mas aqui  tudo 
claro e ntido. No, meu amigo, estes indcios foram inteligentemente fabricados... to inteligentemente que 
acabaram por se virar contra o objectivo pretendido.

Como chegou a essa concluso?

Cheguei a esta concluso porque, enquanto os indcios contra ele eram vagos e intangveis, tornava-se 
difcil contest-los. Mas, na nsia de desviar de si as suspeitas, o criminoso apertou tanto a rede que um 
golpe bastar para libertar o Inglethorp.

Fiquei calado. Passado um minuto ou dois, Poirot continuou:

Encaremos o assunto do seguinte modo: Temos um homem que, digamos, decide envenenar a mulher.  
um homem que tem vivido de expedientes, ao que consta, e presumivelmente, portanto, tem uma certa 
inteligncia. No  parvo nenhum. Muito bem. Como procede ele, para pr em prtica a deciso tomada? 
Vai  temerariamente ao farmacutico da aldeia e compra estricnina, no seu prprio nome, inventando para 
tal uma histria acerca de um co, uma histria que inevitavelmente se verificar ser absurda. No utiliza o 
veneno nessa noite: espera at ter uma violenta discusso com a mulher, uma histria de que toda a gente 
da casa toma conhecimento e que, naturalmente, ainda mais suspeito o torna. No prepara nenhuma 
defesa, nem a sombra de um alibi, embora saiba que o ajudante do farmacutico ter por fora de revelar os 
factos. Ora adeus, no me pea para acreditar que  possvel algum homem ser to idiota! S um doido 
que quisesse suicidar-se levando a que o enforcassem procederia assim!

No entanto, no vejo...

103
Nem eu. Repito-lhe, mon ami, que me intriga. A mim, Hercule Poirot!

Mas se o julga inocente, como explica que tenha comprado a estricnina?

Muito simplesmente: no a comprou!

Mas o Mace reconheceu-o!

Perdo, o Mace viu um homem de barba preta como Mr. Inglethorp, usando culos como os de Mr. 
Inglethorp e vestindo roupas como as de Mr. Inglethorp, que so muito caractersticas. No podia 
reconhecer um homem que provavelmente ainda s vira de longe, pois, como se deve lembrar, o rapaz 
estava, na aldeia havia uns quinze dias apenas e Mrs. Inglethorp comprava os seus produtos farmacuticos 
principalmente no COOtA, de Tadminster.

Ento pensa...

Mon ami, lembra-se dos dois pontos que sublinhei? Deixe o primeiro, por enquamto. Qual era o segundo?

O facto importante de Alfred Inglethorp usar vesturio peculiar, barba preta e culos  citei.

Exactamente. Agora suponha que algum desejava fazer-se passar por John ou Lawrence Cavendish. Seria 
fcil?

No  respondi, pensativo.  Claro que um actor-...   Mas Poirot interrompeu-me, implacvel:
- E no seria fcil porqu Eu digo-lhe, meu amigo: porque usam ambos a cara rapada. Para conseguir 
passar por um desses dois homens, em pleno dia, era necessrio ser um actor de gnio e ter uma certa 
semelhana facial. Mas no caso de Alfred Inglethorp tudo isso muda: a roupa, a barba e os culos que lhe 
ocultam os olhos so os pontos salientes do seu aspecto pessoal. Qual  o primeiro instinto do criminoso? 
Desviar as suspeitas de si mesmo, no  verdade? E qual a melhor maneira de o conseguir? Fazendo-as 
incidir noutra pessoa qualquer. Neste caso, havia um homem feito de encomenda, como se costuma dizer. 
Estava toda a gente predisposta a acreditar na culpa de Mr. Inglethorp. Sabia, por assim dizer, de antemo

106
que ele seria suspeito, mas para que tal fosse uma certeza seria necessrio ter qualquer prova tangvel... 
como a compra do veneno. Isso, dada a aparncia peculiar de Mr. Inglethorp, no era difcil. Lembre-se de 
que o jovem Mace numca tinha falado com Mr. Inglethorp. Como poderia duvidar de que o homem com a 
sua roupa, a sua barba e os seus culos no era Alfred Inglethorp?

 possvel que tenha sido assim  admiti, fascinado com a eloquncia de Poirot.  Mas, se foi, porque no diz 
ele onde estava na segunda-feira s seis da tarde?

Ah, sim, porqu?!  exclamou Poirot, um pouco mais calmo.  Se fosse preso, provavelmente falaria, mas eu 
no quero que se chegue a isso. Preciso de faz-lo ver a gravidade da sua situao. Claro que h algo de 
desonroso atrs do seu silncio. Mesmo que no tenha matado a mulher,  um salafrrio e tem qualquer 
coisa< a esconder, independentemente do assassnio.

Que poder ser?  perguntei, como se falasse comigo, momentaneamente conquistado pela opinio de 
Poirot, embora ainda agarrado  tnue convico de que a deduo bvia era a correcta.

No adivinha?  indagou Poirot, sorrindo-

No. E voc?

Oh, sim! Tive uma ideiazinha, h uns tempos... e bateu certa.

No me disse nada  queixei-me, em tom de censura. Poirot abriu as mos, como quem pede desculpa:

Perdoe, mon ami, mas voc no se mostrava precisamente sympathique.  Acrescentou,   muito   srio:  
Diga-me,   compreende agora que ele no deve ser preso?

Talvez...  respondi   ambiguamente,   pois  na   verdade era-me indiferente o destino de Alfred Inglethorp e 
achava que um bom susto no lhe faria mal nenhum.

Poirot, que me observara com ateno, soltou um suspiro e mudou de assunto:

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Diga-me c, meu amigo, tirando Mr. Inglethorp, qe lhe pareceram os depoimentos feitos no inqurito?

Correu tudo praticamente como eu esperava.

No aconteceu nada que lhe parecesse peculiar?

Os meus pensamentos voaram para Mary Cavendish e por isso, limitei-me a responder:

Em que sentido?

Bem, o depoimento de Mr. Lawrence Cavendish, por exemplo.

Senti-me aliviado.

Ah, o Lawrence! No, no creio. Foi sempre um tipo nervoso.

No achou estranha a sua sugesto de que a me podia ter sido envenenada acidentalmente, por meio do 
(tnico que andava a tomar... hem?

No, no posso dizer que tenha achado estranho. Os mdicos ridicularizaram a ideia, claro, mas pareceu-
me uma sugesto natural, da parte de um leigo.

Mas Monsieur Lawrence no  um leigo! Voc mesmo me disse que ele estudou medicina e se formou.

Sim,  verdade, no tinha pensado nisso!  exclamei, francamente surpreendido.  , de facto, estranho.

Desde o princpio que o comportamento dele tem sido peculiar  declarou Poirot, a acenar com a cabea.  
De toda a casa, s ele estava apto a reconhecer os sintomas do envenenamento pela estricnina, e no 
entanto verificamos que  ele o nico a defender empenhadamente a teoria da morte resultante de causas 
naturais. Se fosse Monsieur John, ainda compreenderia, pois no tem conhecimentos tcnicos e  por 
natureza falho de imaginao. Mas Monsieur Lawrence...  no! E agora, hoje, apresenta uma sugesto que 
ele prprio devia saber que era ridcula. H a alimento para meditao, mon ami!

 tudo muito confuso  admiti.

H tambm Mrs. Cavendish  continuou Poirot.   outra que no disse tudo quanto sabe! Que lhe pareceu a 
sua atitude?

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No sei como interpret-la. Parece inconcebvel que proteja Alfred Inglethorp, mas no entanto  isso que 
parece estar a fazer.

Poirot acenou com a cabea, pensativamente.

Sim,  estranho. Uma coisa  certa: ela ouviu muito mais da tal conversa privada do que pretende 
admitir.

E, contudo,  a ltima pessoa que algum acusaria de espreitar ou escutar!

Exactamente. Mas o seu depoimento demonstrouHme uma coisa: cometi um erro e a Dorcas tinha razo. 
A discusso verificou-se mais cedo, cerca das quatro horas da tarde, como ela sempre disse.

Olhei-o, curiosamente. Numca compreendera a sua insistncia naquele ponto.

Sim, hoje sucederam muitas coisas peculiares...  continuou Poirot.  Por exemplo, que andava o Dr. 
Bauerstein; a fazer, levantado e vestido, quela hora da manh? Acho surpreendente que ningum tenha 
feito comentrios a esse facto.

Creio que ele sofre de insnias  informei, sem muita convico.

O que  uma explicao muito boa ou muito m. Serve para tudo e no explica nada. No perderei de vista 
o nosso inteligente Dr. Bauerstein.

Encontrou mais alguns defeitos nos depoimentos?  perguntei, sarcstico.

Mon ami, quando verificar que as pessoas mentem, fique atento!  Respondeu-me o detective, muito srio  
Ou estou muito enganado, ou hoje, no inqurito, s uma pessoa, no mximo duas, disseram a verdade 
sem reservas nem subterfgios.

No exagere, Poirot! No cito o Lawrence nem Mrs. Cavendish, mais o John... e Miss Howard, esses com 
certeza disseram a verdade, no acha?

Ambos, meu amigo? Um, admito, mas os dois...

As suas palavras causaram-me um choque desagradvel

109
O depoimento de Miss Howard, apesar de no se revestir de importncia, fora feito to clara e firmemente 
que nunca me passara pela cabea duvidar da sua sinceridade. No entanto, tinha um grande respeito pela 
sagacidade de Poirot  excepto nas ocasies em que ele se mostrava, como eu costumava dizer, 
estupidamente cabeudo.

Pensa realmente assim? Miss Howard pareceu-me sempre to essencialmentte sincera... quase 
desagradavelmente sincera, at...

Poirot lanou-me um olhar curioso, que no consegui compreender. Deu a impresso de que ia falar, mas 
desistiu.

E Miss Murdoch tambm  continuei.  No h nada de mentiroso nela.

Pois no. No entamto,  estranho que no tenha ouvido barulho nenhum, apesar de dormir no aposento 
contguo, ao passo que Mrs. Cavendish, na outra ala do edifcio, ouviu perfeitamente a mesa cair.

Bem, ela  nova e tem o sono pesado...

Ah, sem dvida! Deve ser uma dorminhoca famosa!

No gostei do tom da sua voz, mas naquele momento bateram  porta, com fora, e ns fomos ver  janela 
e verificmos que os dois detectives estavam  nossa espera.

Poirot pegou no chapu, deu uma torcidela feroz ao bigode e, sacudindo meticulosamente um imaginrio 
gro de poeira da manga, fez-<me sinal para descer  sua frente. Reunimo-nos aos detectives e partimos 
para Styles.

Creio que o aparecimento dos dois homens da Scotland Yard constituiu um grande abalo  especialmente 
para o John, embora, naturalmente, depois de ouvir o veredicto soubesse que tall seria apenas uma questo 
de tempo. No entanto, a presena dos detectives f-lo tomar mais conscincia da verdade do que tudo 
quanto at ento acontecera.

Poirot conversara em voz baixa com Japp, no caminho, e foi o inspector que pediu que reunissem na sala a 
gente da

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casa, menos a criadagem. Compreendi o que isso significava: chegara o momento de Poirot provar o que 
dissera.

Pessoalmente, no me sentia optimista. Poirot podia ter excelentes razes para acreditar na inocncia de 
Inglethorp, mas um homem como Summerhaye exigiria provas tamgveis, e eu duvidava que o meu amigo 
as pudesse apresentar.

Pouco depois encontrvamo-nos todos reunidos na sala, cuja porta Japp fechou. Solcito e corts, Poirot 
disps cadeiras para todos. Os homens da Scotland Yard eram o alvo de todos os olhares. Creio que 
compreendamos pela primeira vez que o sucedido no fora um sonho mau, um pesadelo, e sim uma 
reaiidade tangvel. Lramos notcias de coisas semelhantes, mas agora ramos ns prprios actores do 
drama. No dia seguinte, os jornais de toda a Inglaterra espalhariam a notcia, com grandes cabealhos:

MISTERIOSA  TRAGDIA   NO   ESSEX SENHORA  RICA  ENVENENADA

Haveria fotografias de Styles e instantneos da famlia a sair do inqurito  o fotgrafo da aldeia no 
estivera de braos cruzados! Enfim, coisas acerca das quais lramos centos de vezes  mas coisas que 
costumavam acontecer aos outros e no a ns. E agora, naquela casa, tinha sido cometido um assassnio. 
Diante de ns estavam os detectives encarregados da investigao). A conhecida fraseologia da gria 
policial passou-me rapidamente pelo esprito, enquanto Poirot no iniciou os trabalhos.

Creio que ficaram todos um pouco surpreendidos por ser ele e no um dos detectives policiais a tomar a 
iniciativa.

Mesdames e messieurs  disse Poirot, fazendo uma vnia, como se fosse uma celebridade prestes a proferir 
um discurso , pedi-lhes que se reunissem todos aqui com um certo objectivo, um objectivo que diz respeito 
a Mr. Alfred Inglethorp.

Inglethorp  encontrava-se  um  pouco   isolado  creio  que,

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inconscientemente, tinham todos afastado um pouco as cadeiras da sua e estremeceu levemente quando 
Poirot pronunciou o seu nome.

Mr. Inglethorp disse o detective, dirigindo-se-lhe directamente , abateuHse sobre esta casa uma sombra 
muito negra, a sombra do assassnio.

Inglethorp abanou tristemente a cabea.

Minha pobre mulher! Pobre Emily!  terrvel.

No creio, monsieur, que tenha a noo exacta de quanto poder ser terrvel... para si.  E, como o outro 
parecesse no compreender, acrescentou:  Mr. Inglethorp, corre um perigo muito grande.

Os dois detectives mexiam-se, agitados. Vi pairar nos lbios de Summierhaye a advertncia oficial: Tudo 
quanto disser poder ser utilizado como prova contra si- Mas Poirot prosseguiu:

Compreende agora, monsieur! No. Que quer dizer?

Quero dizer que  suspeito de ter envenenado a sua mulher  respondeu o detective, pronunciando bem as 
palavras.

Os outros soltaram uma pequena exclamao abafada>, ao ouvirem a acusao clara.

Meu Deus!  exclamou Inglethorp, soerguendo-se na cadeira  Que ideia monstruosa! Eu... envenenar a 
minha querida Emily!

No creio  continuou Poirot, a observ-lo atentamente que tenha plena conscincia da natureza 
desfavorvel, para si, do seu depoimento no inqurito. Mr. Ingletthorp, sabendo agora o que acabo de lhe 
dizer, continua a recusar-se a dizer onde estava s seis horas da tarde de segunda-feira?

Alfred Inglethorp deixou-se cair na cadeira, com um gemido, e ocultou o rosto nas mos. Poirot aproximou-
se e parou diante dele.

Fale!  ordenou, ameaador.

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Inglethorp levantou a cabea com dificuldade, e abanou-a lenta e deliberadamente.
No falar?

No. No acredito que possa haver algum to monstruoso ao ponto de me acusar do que diz.

Poirot acenou  com a cabea, pensativamente, como un homem cuja deciso est tomada.

Soit!  disse.  Nesse caso, tenho de falar por si.
 Alfred Inglethorp levantou-se, de um pulo.

O senhor? Como pode falar? No sabe ..  calou-se, bruscamente.

Poirot voltou-se para ns:

Mesdames et messieurs, vou falar! Escutem! Eu, Hercule Poirot, afirmo que o homem que entrou na 
farmcia e comprou a estricnina, s seis horas da tarde de segunda-feira, no era Mr. Imglethorp, pois s 
seis horas desse dia Mr. Inglethorp acompanhava Mrs. Raikes a casa dela, vindos de uma quinta vizinha. 
Posso apresentar nada menos de cinco testemunhas que juram t-los visto juntos, quer s seis horas quer 
pouco depois, e, como devem saber, a Abbey Farm, onde Mrs. Raikes vive, fica pelo menos a trs 
quilmetros de distncia da aldeia. No podem restar dvidas absolutamente nenhumas quanto  validade 
do alibi!

8 - VAMP. G. 1

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Captulo VIII

NOVAS   SUSPEITAS

Seguiu-se um momento de espanto e silncio. Japp, que era o menos surpreendido de todos ns, foi o 
primeiro a falar:

Palavra, Mr. Poirot, voc  nico! Essas testemunhas a que aludiu so fixes, suponho?

Voil! Preparei uma lista delas, com nomes e moradas. Deve procur-las, evidentemente, mas verificar que 
est tudo em ordem.

Tenho a certeza disso.  Japp baixou a voz e acrescentou:

Estou-lhe muito grato. Se o prendssemos tinhamos arranjado um grande sarilho.  Virowse para Inglethorp 
e perguntou:

Se me permite, porque no disse o senhor mesmo tudo isto no inqurito?

Eu explico-lhe porqu  interveio Poirot.  Correu um certo boato...

Um boato muito perverso e absolutamente falso!  interrompeu Alfred Inglethorp, em voz agitada.

Mr. Inglethorp no desejava reanimar nenhum escndalo no momento presente. No  verdade?

Inteiramente verdade. com a minha pobre Emily ainda por sepultar, no admira, creio, que eu no 
desejasse que surgissem mais boatos falsos.

Aqui entre ns, meu caro senhor, eu preferiria dar origem a toda a espcie de boatos a ser preso por 
homicdio  observou

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]Japp,  E ouso pensar que a sua pobre senhora teria sido da mesma opinio. Se no fosse Mr. Poirot, teria 
sido mesmo preso, to certo como dois e dois serem quatro!

Fui estpido, sem dvida murmurou Inglethorp, mas no imagina como tenho sido perseguido e caluniado  
e lanou um olhar irritado a Evelyn Howard.

Japp voltou-se, bruscamente, para John e disse-lhe:

Agora gostaria de ver o quarto da vtima, por favor, e depois conversarei um pouco com as criadas. No se 
incomode, Mr- Poirot indicar-me- o caminho.

Quando iam a sair da sala, Poirot virou-se e fez-me sinal para os acompanhar. Depois de subirmos a 
escada, agarromme num brao e afastou-se um pouco comigo.

V depressa para a outra ala, Hastings. Espere ali, deste lado daquela porta com o reposteiro grosso. No 
saia de l at eu voltar  recomendou-me e depois girou rapidamente nos calcanhares e juntou-se aos 
detectives.

Obedecendo s suas instrues, postei-me junto da porta do reposteiro, perguntando a mim mesmo que 
demnio ocultaria semelhante (recomendao. Porque me deixara ali de guarda? Olhei pensativamente ao 
longo do corredor,  minha frente. De sbito, tive uma ideia: com excepo do quarto de Cynthia Murdoch, 
todos os quartos ficavam naquela ala esquerda. Teria isso alguma coisa a ver com o caso? Deveria 
comunicar a Poirot quem chegara ou partira? Deixei-me ficar fielmente no meu posto. Os minutos 
passaram e no apareceu ningum nem aconteceu nada.

Deviam ter decorrido uns bons vinte minutos quamdo Poirot voltou.

No sau da?

No, tenho estado aqui especado como um penedo. No aconteceu nada.

Ah!  Estava satisfeito ou decepcionado?  No viu absolutamente nada?

No
Mas  provavelmente  ouviu alguma coisa?  Um grande

estrondo, hem, mon ami?

No.

Ser possvel? Ah, envergonho-me de mim prprio! Geralmente no sou> desastrado, mas... Fiz apenas um 
leve gesto (eu conhecia os gestos de Poirot)  com a mo esquerda e, pimba, a mesa-de-cabeceira virou-se!

Pareceu to infamtilmente envergonhado e desanimado que me apressei a consol-lo:

Que importncia tem isso, meu velho? O triunfo que obteve l em baixo excitou-o... Palavra, foi uma 
surpresa para todos ns! Essa histria do Inglethorp com Mrs. Raikes deve ter mais que se lhe diga do que 
pensvamos, para o levar a calar a boca to persistentemente. Que vai fazer agora? Onde esto os tipos da 
Scotland Yard?

Foram l abaixo ouvir as criadas. Mostrei-lhes todos os indcios que recolhemos. Estou decepcionado com 
o Japp: no tem mtodo nenhum!

Olhe!  exclamei, olhando pela janela.  Vem a o Dr. Bauerstein. Creio que tem razo acerca do indivduo, 
Poirot. No gosto dele.

O doutor  inteligente  observou Poirot, pensativo.

Oh, inteligentssimo! Confesso que me senti muito contente ao ver o estado em que se apresentou na 
tera-feira. No imagina o espectculo!  E contei a aventura do doutor.  Parecia um autntico espantalho, 
coberto de lama da cabea aos ps!

VUHO, ento?

Pois vi. Claro que ele no queria entrar (foi logo depois do jantar), mas Mr. Inglethorp insistiu.

O qu?  perguntou Poirot, e agarrou-me violentamente pelos ombros.  O Dr. Bauerstein esteve aqui na 
tera-feira  noite? Aqui? E voc no me tinha dito nada! Porque no me disse nada? Porqu?

Parecia absolutamente frentico.

116
Meu caro Poirot, no me passou pela cabea que lhe pudesse interessar! Ignorava que tivesse alguma 
importncia-

Importncia? Tem a mxima importncia! O Dr. Bauerstein esteve ento aqui na noite de tera-feira... na 
noite do crime! No est a ver, Hastings? Isso modifica tudo!

Nunca o vira to perturbado. Largou-me, endireitou maquinalmente um par de castiais e continuou a 
murmurar, como se falasse sozinho:

Sim, modifica tudo... tudo!

De sbito, pareceu tomar uma deciso:

Allons! Temos de agir imediatamente. Onde est Mr. Cavendish?

John estava na sala de fumo e Poirot foi imediatamente ter com ele:

Mr. Cavendish, tenho um assunto importante a tratar em Tadminster. Uma nova pista. Posso servir-me do 
seu carro?

com certeza. J? Se puder ser.

John tocou uma campainha e pediu que trouxessem o carro. Dez minutos depois atravessmos o parque, 
direitos  estrada para Tadminster.

Agora talvez se digne dizer-me a que vem tudo isto, Poirot  observei, resignadamente.

Bem, mon ami, uma grande parte poder deduzir sozinho. Compreende por certo que, uma vez Mr. 
Inglethorp afastado da suspeita que sobre ele caa, toda a situao se modifica muito,  Emcontramo-nos 
perante um  problema  inteiramente novo. Agora sabemos que uma pessoa no comprou o veneno, 
libertmo-nos das pistas forjadas e temos de prestar ateno s verdadeiras. Certfiquei-me de que toda a 
gente l de casa, com excepo de Mrs. Cavendish, que estava a jogar tnis consigo,   podia  ter-se  feito  
passar  por  Mr.   Inglethorp,  na segunda-feira  noite. Temos tambm a declarao deste de que ps a 
chvena do caf em cima da mesa do vestbuloNingum ligou muita importncia a isso, no inqurito, mas

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agora revesten-se de um significado muito diferente. Temos de descobrir quem acabou por levar esse caf a 
Mrs. Inglethorp, ou quem passou pelo vestbulo enquanto ele l estava. Segundo o que voc me contou, s 
podemos ter a certeza de que duas pessoas no se aproximaram do caf: Mrs. Cavendish e Mademoiselle 
Cynthia.

Sim,    verdade confirmei,  com  uma  extraordinria leveza de corao: no era possvel suspeitar de -
Mary Cavendish.

Ao ilibar Alfred  Inglethorp  continuou  Poirot  fui obrigado a mostrar o meu jogo mais cedo do que pretendia. 
Enquanto fosse possvel pensar que eu o trazia sob vigilncia, o criminoso estaria  vontade, 
desprevenido... Agora ser cuidadoso... sim, agora ser duplamente cuidadoso. Voltou-se bruscamente 
para mim e perguntomne:  Diga-me uma coisa, Hastings, pessoalmente, no suspeita de ningum?

Hesitei. Para ser franco, passara-me duas ou trs vezes pela cabea naquela manh, uma ideia que me 
parecia louca e extravagante. Repudiara-a, por absurda, mas ela persistia-

No se pode dizer que seja uma suspeita  mummurei.  uma coisa to estpida!

Fale, ande  encorajou-me Poirot.  Diga o que tem a dizer sem receio. Devemos sempre prestar ateno aos 
nossos instintos.

Bem,  absurdo, claro, mas suspeito que Miss Howard no disse tudo quanto sabe!

Miss Howard?

Sim... vai-se rir...

De modo nenhum. Porque haveria de me rir?

No posso deixar de pensar  continuei,  atabalhoadamente  que de certo modo a exclumos dos suspeitos 
apenas porque ela se encontrava ausente. No entanto estava apenas a vinte e cinco quilmetros de 
distncia, um carro percorreria esse trajecto em meia hora. Podemos dizer positivamente que ela se 
encontrava ausente de Styles na noite do assassnio?

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Podemos, mew amigo, podemos  declarou Poirot, inesperadamente.  Uma das primeiras coisas que fiz foi 
telefonar para o hospital onde ela trabalhava.

E ento?

E ento soube que Miss Howard esteve de servio na tarde de tera-feira e que, em virtude da chegada 
inesperada de uma leva de feridos e doentes, ela se ofereceu para ficar tambm de servio nocturno, o que 
foi aceite com gratido Essa dvida est esclarecida.

Ah!  exclamei, e tentei parecer imperturbvel.  Na verdade, foi a sua extraordinria veemncia contra 
Inglethorp que me levou a suspeitar dela. No posso deixar de ter a impresso de que Miss Howard seria 
capaz de tudo para o prejudicar... e acudiu-me a ideia de que talvez ela soubesse alguma coisa acerca da 
destruio do testamento. Poder ter queimado o anterior, feito a favor dele. Tem uma m vontade to 
grande contra o indivduo!

Acha ento que no  natural a veemncia dela contra ele?

Acho.  to violenta! At me tenho perguntado se estar no seu juzo perfeito, a esse respeito.

Poirot abanou a cabea, energicamente.

No, no, est a seguir o caminho errado! No h em Miss Howard nenhuma debilidade mental nem 
nenhuma degenerao. Ela  um excelente espcime de um bem equilibrado conjunto ingls de carne e 
msculo.  a sanidade em pessoa.

No entanto, o seu dio por Inglethorp parece quase uma mania. A minha ideia (uma ideia muito ridcula, 
sem dvida) era que ela tencionava envenen-lo e que, no se sabe como, quem acabara por ingerir o 
veneno fora Mrs. Inglethorp, por engano. Mas confesso que no vejo como isso poderia ter sido feito.  tudo 
extremamente absurdo e ridculo, como j disse.

Contudo, tem razo numa coisa:  sempre sensato suspeitarmos de toda a gente at podermos provar 
logicamente, e para  nossa satisfao,  a inocncia  dos suspeitos.  Agora

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vejamos que razes se opem a que Miss Howard tenha envenenado deliberadamente Mrs. Inglethorp?

Bem, era-lhe muito dedicada!

Ora, ora!  protestou Poirot, irritado.  Argumenta como uma criana. Se Miss Howard fosse capaz de 
envenenar a velhota, seria igualmente capaz de simular dedicao. Temos de procurar outra coisa. Tem 
toda a razo quando diz que a veemncia dela contra Alfred Inglethorp  demasiado violenta para ser natural 
mas engana-se na deduo que extrai desse facto. J extra as minhas prprias dedues, que julgo serem 
correctas, mas no falo delas, por ora.  Fez <uma pausa e depois acrescentou:  Segundo a minha maneira 
de pensar, h uma objeco insupervel  possibilidade de Miss Howard ser a assassina.

Qual?

A morte de Mrs. Inglethorp no poderia beneficiar de modo algum Miss Howard. Como sabe, no h 
assassnio sem motivo.

Pensei um bocado.

Mrs. Inglethorp no podia ter feito um testamento a favor dela?

Poirot abanou a cabea.

Mas o senhor mesmo sugeriu essa possibilidade a Mr. Wells!

Tive uma razo para isso  redarguiu Poirot, a sorrir. No queria mencionar o nome da pessoa que tinha, 
realmente, no pensamento.  Como Miss Howard ocupava  uma posio muito semelhante, preferi usar o 
nome dela.

No entanto, Mrs.  Inglethorp podia, t-lo feito.  Aquele testamento, redigido na tarde anterior  noite da sua 
morte...

Mas Poirot voltou a abanar a cabea to energicamente que me calei.

No, meu amigo. Tenho certas ideiazinhas prprias quanto a esse testamento. H uma coisa que lhe 
posso garantir: no foi feito a favor de Miss Howard.

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Aceitei a sua palavra, embora no compreendesse como ele podia ser to positivo quele respeito.

Bem, nesse caso, ilibemos Miss Howard resignei-me, a suspirar Alis, se cheguei a suspeitar dela foi por 
sua culpa. O que disse acerca do seu depoimento no inqurito  que me deu corda...

Que disse eu acerca do depoimento dela?  perguntou o meu amigo, intrigado.

No se lembra? Quamdo eu disse que ela e John Cavendish estavam acima de suspeitas?

Ah, sim!  Pareceu um pouco confuso, mas refez-se depressa.  A propsito, Hastings, queria que me 
fizesse uma coisa.

s ordens. De que se trata?

Quamdo estiver a ss com Lawrence Cavendish, diga-lhe o seguinte, da minha parte: Tenho <um recado 
para si do Poirot: encontre a outra chvena de caf e poder ficar em paz! Nada mais, nada menos.

Encontre a outra chvena de caf e poder ficar em paz  repeti, deveras mistificado.   assim?

Excelente.

Mas que significa?

Ah, deixo ao seu cuidado descobri-lo! Tem acesso aos factos. D-lhe o meu recado e veja o que ele diz.

Muito bem... mas  tudo muitssimo misterioso. Acabvamos de entrar em Tadminster e Poirot conduziu o

carro para o Laboratrio de Anlises Qumicas. Apeou-se, lesto, e entrou. Voltou decorridos poucos 
minultos,

Pronto, j fiz tudo o que precisava.

Que foi ali fazer?  perguntei, cheio de curiosidade.

Deixar uma coisa para anlise.

Pois sim, mas o qu?

A amostra de cacau que tirei do tachinho, no quarto.

Mas  j   tinha  sido  analisado!exclamei,  estupefacto.

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O Dr. Bauerstein mandou-o analisar e o senhor riu-se da possibilidade de o cacau conter estricnina.

Sei que o Dr. Bauerstein o mandou analisar  redarguiu Poirot, calmamente.

E ento?

E ento apetece-me analis-lo outra vez, mais nada.

No lhe consegui arramcar nem mais uma palavra acerca do assunto.

Tal procedimento de Poirot, a respeito do cacau, intrigou-me deveras. PaireciaHme no ter ps nem 
cabea. No entanto, a minha confiana nele, que a certa altura se desvanecera refizera-se por completo 
desde que a sua convico na inocncia de Alfred Inglethorp fora to triunfantemente demonstrada.

O funeral de Mrs. Inglethorp realizou-se no dia seguinte, e na segunda-feira, quando desci para um 
pequeno-almoo tardio, John chamourme de parte e informou-me de que Mr. Inglethorp partia naquela 
manh e se ia instalar no Stylites Arms, at completar os seus planos.

 um grande alvio pensar que ele se vai embora, Hastings

acrescentou o meu amigo, com toda a franqueza.  Anteriormente, quando pensvamos que tinha sido ele, 
era desagradvel, mas diabos me levem se no  ainda pior agora, com todos ns a semtirmo-nos 
culpados de termos sido to injustos com o tipo! A verdade  que o traamos abominavelmente, embora, 
claro, as coisas parecessem feias, contra ele. Ningum nos pode censurar por termos tirado as concluses 
que tirmos... No entanto, a verdade  que estvamos enganados e agora temos a sensao desagradvel 
de que devamos pedir desculpa... o que  difcil, visto no gostarmos mais dele do que gostvamos antes. 
 tudo muito aborrecido! Estou-lhe grato por ter tido o tacto de resolver ir-se embora. Ainda bem que a 
minha me no lhe poderia deixar Styles, mesmo que quisesse! No poderia tolerar que o indivduo 
ficasse aqui a pr e a dispor. Pode ficar com o dinheiro dela, que lhe sirva de proveito.

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Conseguirs manter a propriedade?

Oh, conseguirei! H os direitos sucessrios a pagar, claro, mas herdo a propriedade com metade do 
dinheiro do meu pai e, alm disso, o Lawrence ficar connosco, por enquanto, e assim haver tambm a 
sua parte. Ao princpio teremos dificuldades, sem dvida, porque, como te disse, estou em apuros, 
financeiramente.   No  entanto,   os  credores  agora  esperaro.

Devido ao alvio geral causado pela iminente partida de Inglethorp, aquele pequeno-almoo foi o mais 
agradvel, desde a tragdia. Cynthia, cuja juvenil disposio era naturalmente alegre, voltara a ser a 
rapariga bonita e bem disposta que eu conhecera, e todos ns  com excepo de Lawrence, que parecia 
inalteravelmente tristonho e nervoso  sentamos uma alegria serena, perante a perspectiva de um futuro 
novo e esperanoso.

Claro que os jornais pareciam no falar noutra coisa seno na tragdia. Cabealhos sensacionalistas, 
biografias de todos os membros da famlia, insinuaes subtis e a habitual treta da pista que a Polcia 
estava a seguir. Nada nos era poupado. A guerra parecera estagnar, momentaneamente, e os jornais 
aproveitavam-se avidamente daquele crime cometido num meio social elevado. O Misterioso Caso de 
Styles era o assunto do momento.

Naturalmente, tornava-se muito aborrecido para os Cavendish. A casa estava constantemente cercada de 
reprteres, aos quais era recusada a entrada, mas que continuavam na aldeia e nas imediaes, de 
mquina fotogrfica preparada, na esperana de apanharem desprevenido algum membro da famlia. 
Vivamos todos sob a luz forte da publicidade. Os homens da Scotland Yard iam e vinhaim e examinavam e 
interrogavam, com olhos de lince e lngua muda. No fazamos a mnima ideia das concluses a que tinham 
chegado, se  que tinham chegado a algumas. Seguiam alguma pista, ou o caso permaneceria no rol dos 
crimes no deslindados?

Depois do pequeno-almoo, a Dorcas veio ter comigo, miste-

123
riosamente, e perguntou-me se me podia dizer umas palavrinhas.

com certeza. De que se trata?

Apenas do seguinte: v hoje o cavalheiro belga?  Acenei afirmativamente.  Lembra-se de ele me ter 
perguntado, com tanto interesse, se a senhora ou qualquer outra pessoa tinha um vestido verde?

Sim, sim, lembro-me. Descobriu algum?  despertara-me a curiosidade.

No, no descobri. Mas depois disso lembrei-me daquilo a que os jovens senhores  para Dorcas, John e 
Lawrence ainda eram os jovens senhores  chamam a arca das mscaras. Est no sto da frente,  
uma grande arca cheia de roupas velhas, vestidos de fantasia e sei l que mais. Lembrei-me de que talvez 
houvesse um vestido verde entre as outras coisas. Por isso, se fizer o favor de dizer ao cavalheiro belga...

Dir-lhe-ei, Dorcas  prometi.

Muito obrigada. Ele  um senhor muito simptico, absolutamente diferente dos dois detectives de Londres, 
que andam para a a meter o nariz e a fazer perguntas. Geralmente no gosto de estrangeiros, mas pelo 
que os jornais dizem j percebi que estes corajosos belgas no so como os estrangeiros comuns, no h 
dvida que ele  um senhor de muito bonitas falas!

Querida Dorcas! Ao v-la ali parada, com o rosto franco voltado para mim, pensei que era um belo exemplo 
da criada  moda antiga, que estava a desaparecer to depressa.

Achei que o melhor seria ir  aldeia sem perda de tempo e procurar Poirot. Encontrei-o a meio do caminho, 
pois dirigia-se para a manso, e transmiti-lhe o recado da Dorcas.

Ah, excelente Dorcas! Examinaremos a arca, embora... no interessa, examin-la-emos imediatamente.

Entrmos em casa por uma das portas-janelas. No estava ningum no vestbulo e seguimos directamente 
para o sto.

L estava a arca, uma bela arca antiga toda cravejada de pregos de lato e a abarrotar de toda a espcie de 
vesturio  imaginvel.

124
Poirot atirou tudo para o cho, com pouca ou nenhuma cerimnia Havia um ou dois tecidos verdes de 
tonalidades diferentes, mas ele abanou a cabea e recusou-os. Parecia um pouco aptico, como se no 
esperasse grandes resultados da busca. De sbito, soltou uma exclamao.

Olhe!

O que ?

A arca estava quase vazia e, no fundo, encontrava-se uma magnfica barba preta.

Oh!  exclamou Poirot, virando e revirando-a nas mos, a examin-la com ateno.  Oh!  nova. Sim, 
inteiramente nova.

Aps ligeira hesitao, rep-la na arca, ps-lhe todas as outras

coisas em cima, como antes, e desceu rapidamente a escada.

Fomos direitos  copa, onde encontrmos Dorcas a dar brilho

s pratas.

Poirot deu-lhe os bons-dias com toda a cortesia e disse:

Estivemos a dar uma volta  arca, Dorcas. Estou-lhe muito

grato por ter falado dela. H l uma bela coleco de trajos?

Usam-nos muitas vezes?

Bem, hoje em dia, nem por isso, embora de tempos a tempos tenhamos aquilo a que os jovens senhores 
chamam uma noite festiva. E s vezes  bem divertido! Mr. Lawrence  maravilhoso. Muito cmico! 
Nunca me esquecerei da noite em que apareceu c em baixo vestido de Ch da Prsia, creio que foi 
assim que ele disse .. uma espcie de rei do Oriente. Trazia na mo uma grande faca de cortar papel e 
disse-me Olha, Dorcas, muito respeitinho! Esta  a minha cimitarra especialmente afiada e se me 
desagradares ficas sem cabea num instantinho! Miss Cynthia vestiu-se daquilo que chamam Apache, ou 
coisa assim  um degolador afrancesado, segundo me pareceu. Que espectculo! Ningum acreditaria que 
uma menina to bonita pudesse ficar com aquele aspecto de rufio Ningum a conheceria.

Esses seres devem ter sido muito divertidos  admitiu

125
Poirot, bem disposto.  Suponho que Mr. Lawrence usou aquela excelente barba preta que est na arca, 
quando fez de X da Prsia?

Usava realmente uma barbaconfirmou Dorcas sorrindo. E eu que o diga, pois pediu-me dois novelos da 
minha l preta para a fazer! De longe, parecia perfeitamente natural! No sabia que havia uma barba l em 
cima. Devem-na ter arranjado ultimamente, com certeza. Sei que havia uma peruca ruiva, isso sei, mas 
nada mais no captulo de cabelo. Costumavam  usar principalmente rolhas queimadas, embora seja muito 
difcil de tirar, depois. Miss Cynthia mascarou-se de preto, uma vez, e teve um trabalho!

A Dorcas no sabe nada acerca da barba preta  observou Poirot, pensativo, quando voltmos ao vestbulo.

Acha que  a tal?  perguntei, ansioso.

Acho. Reparou que tinha sido aparada?

No.

Pois foi. Apararam-na exactamente no formato da barba de Mr. Inglethorp. Encontrei at um ou dois plos 
cortados. Este caso  muito complicado, Hastings.

Quem a ter posto na arca?

Algum com uma boa dose de inteligncia  observou o meu amigo, secamente.  J reparou que escolheu, 
para a esconder, o nico lugar da casa onde no seria notada?  inteligente, sem dvida. Mas ns temos 
de ser mais inteligentes, temos de ser to inteligentes que nem suspeite de que somos inteligentes!

Aquiesci.

Nesse aspecto, mon ami, poder ser-me muito til. Fiquei satisfeito com o cumprimento. Havia ocasies 
em que

me parecia que Poirot no me apreciava pelo meu devido valor.

Sim  acrescentou,   a  fitar-me  pensativamente,   ser inestimvel.

Era lisonjeador, sem dvida, mas as suas palavras seguintes j no me agradaram tanto.

126
Preciso de ter um aliado dentro de casa, 
Tem-me a mim! protestei.

Pois tenho, mas no chega.

Senti-me magoado, e demonstrei-o. Poirot apressou-se a explicar o sentido das suas palavras:

No compreendeu o que quis dizer! Todos sabem que trabalha comigo, e eu preciso de algum que no 
esteja relacionado connosco em sentido nenhum.

Ah, compreendo! Que diz do John?

No, no me parece que sirva...

 um excelente tipo, mas talvez no seja muito brilhante, de intelecto...  murmurei, pensativo.

Vem a Miss Howard  disse Poirot, de sbito.   ela a pessoa indicada! Mas eu estou no seu livro negro, 
desde que ilibei Mr. Inglethorp... No entanto, no perdemos nada por tentar.

Miss Howard acedeu ao pedido de uns momentos de conversa, que Poirot lhe fez, com um seco e breve 
aceno de cabea.

Entrmos numa pequena sala e o detective fechou a porta.

De que se trata, Monsieur Poirot?  perguntou Evie, impaciente.  Desembuche, que tenho que fazer.

Lembra-se, mademoiselle, de uma vez lhe ter pedido que me ajudasse?

Lembro,  sim.  E  eu  respondi-lhe  que  o  ajudaria  com prazer... a enforcar Alfred Inglethorp.

Ah!  exclamou Poirot, e fitou-a muito srio.  Vou-lhe fazer uma pergunta, Miss Howard, e peo-lhe que me 
responda com toda a verdade.

Nunca minto.

Trata-se do seguinte: ainda acredita que Mrs. Inglethorp foi assassinada pelo marido?

Que quer dizer? No julgue que as suas bonitas explicaes me influenciaram, por muito pouco que fosse! 
Admito que no foi ele que comprou a estricnina na farmcia. E depois?  muito capaz de ter usado papel 
mata-moscas molhado, como eu lhe disse logo no princpio!

127 -        
Isso contm arsnico, e no estricnina  lembrou Poirot, suavemente.

Que importncia tem? O arsnico teria liquidado a pobre Emily to bem como a estricnina. Se estou 
convencida de que foi ele, no quero saber para nada como fez o que fez.

Exactamente: se est convencida de que foi ele  murmurou o detective, com toda a calma.  vou fazer a 
pergunta de outro modo: alguma vez acreditou, l bem no fundo do seu corao, que Mrs. Inglethorp foi 
envenenada pelo marido?

Meu Deus!  exclamou Miss Howard.  No disse sempre que aquele homem era um patife? No disse 
sempre que ele a assassinaria na cama? No o odiei sempre como veneno?

Exactamente.  Isso coaduna-se com a minha ideiazinha.

Que ideiazinha?

- Miss Howard, lembra-se de uma conversa havida no dia da chegada do meu amigo? Ele repetiu-ma e 
houve uma frase sua que me impressionou muito. Lembra-se de dizer que se houvesse um crime e uma 
pessoa a quem amasse fosse assassinada, tinha a certeza de que saberia instintivamente quem fora o 
criminoso, mesmo que fosse absolutamente incapaz de o provar?

Sim, lembro-me de dizer isso. E continuo a acreditar que assim seria. Julga que  uma tolice, no?

De modo nenhum.

No entanto, no liga a> mnima importncia ao meu instinto contra Alfred Inglethorp.

Pois no  declarou Poirot, secamente.  E no ligo porque o seu instinto no  contra Mr. Inglethorp.

O qu?!

A senhora deseja acreditar que ele cometeu o crime. Julga-o capaz de o cometer. Mas o seu instinto diz-
lhe que ele no o cometeu. E diz-lhe ainda mais... Deseja que prossiga?

Ela olhava-o, fascinada, e fez um pequeno gesto afirmativo com a mo. 

Quer que lhe diga porque se tem mostrado to veementemente contra Mr. Inglethorp? Porque se tem 
esforado por

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acreditar naquilo que deseja acreditar.  por tentar afogar e asfixiar o seu instinto, que lhe diz outro nome...

No, no, no!  gritou Miss Howard, desesperadamente, levantando e agitando as mos.  No o diga! Oh, 
no o diga No  verdade! No pode ser verdade. No sei o que me meteu na cabea uma ideia to louca, 
to horrvel!

Tenho razo, no tenho?  perguntou Poirot.

Tem. Deve ser bruxo, para ter adivinhado... Mas no pode ser,  demasiado monstruoso,  impossvel... Foi 
com certeza Alfred Inglethorp!

Poirot abanou a cabea, gravemente.

No me pergunte nada, pois no lhe responderei continuou Miss Howard.  No admito que tenha sido 
assim, nem sequer comigo mesma. Devo estar louca, para pensar em semelhante coisa.

Poirot acenou com a cabea, satisfeito.

No lhe perguntarei nada. Basta-me saber que  como pensava. E eu... eu tambm tenho um instinto. 
Vamos trabalhar juntos para um fim comum.

No me pea que o ajude, porque no o ajudarei. No levantaria um dedo para... para...

Ajudar-me-, mal-grado seu. No lhe peo nada... mas a senhora ser minha aliada. No poder evit-lo. 
Far a nica coisa que quero que faa.

Que coisa?     

Vigiar!

Evelyn Howard inclinou a cabea.

Sim, no posso deixar de fazer isso. Estou sempre atenta, vigilante...  sempre na esperana de verificar 
que estou enganada.

Se estivermos enganados,  muito bem.  Ningum  ficar mais contente do que eu. E se estivermos certos? 
De que lado se colocar se estivermos certos, Miss Howard?

No sei, no sei...

Ora, vamos!

Poder-se-ia abafar...

9 - VAMP. G. 1

129
No se deve abafar nada.

Mas a prpria Emily...

Miss Howard, isso  indigno de si!  interrompeu-a Poirot, gravemente.

De sbito, ela levantou a cabea e disse, muito calma:

Tem razo, no foi Evelyn Howard que falou.  Ergueu ainda mais a cabea, altivamente.  A Evelyn Howard  
esta. E est do lado da justia! Custe o que custar!  E, ditas tais palavras, saiu com passo firme da sala.

Ali vai uma aliada muito valiosa  comentou Poirot, seguindo-a com o olhar.  Aquela mulher, Hastings, alm 
de corao tem miolos.

No respondi.

O instinto  uma coisa maravilhosa  murmurou, como se falasse consigo.  No pode ser explicado nem 
ignorado.

Voc e Miss Howard parecem saber do que falam  observei, friamente.  Talvez no se aperceba de que eu 
continuo s escuras.

Srio? Isso  verdade, mon ami?

. Esclarea-mi, sim?  .    Poirot observou-me atentamente, um momento ou dois. Em

seguida, para minha grande surpresa, abanou decididamente a cabea. ,

No, meu amigo.

Oh, mas porqu?!

Dois chegam para um segredo.

Bem, considero muito injusto ocultar-me factos.

No estou  a ocultar-lhe  factos.  Todos os factos  que conheo so tambm do seu conhecimento. Pode 
extrair deles as suas prprias concluses. Desta vez  uma questo de ideias.

Mesmo assim, seria interessante saber...

< Poirot olhou-me, muito srio, e voltou a abanar a cabea.

Compreende, voc no tem instintos.

H pouco, disse que precisava de inteligncia

As duas coisas andam muitas vezes juntas  comentou, enigmaticamente.

130
A observao pareceu-me de uma irrelevncia to absoluta que nem me dei ao trabalho de responder. Mas 
decidi que, se fizesse algumas descobertas interessantes e importantes  e f-las-ia, com certeza, as 
guardaria para mim e o surpreenderia com o resultado final.

H ocasies em que temos o dever de nos impor.
131
Captulo IX

DR.   BAUERSTEIN

Ainda no tivera oportunidade de transmitir o recado de Poirot a Lawrence. Mas, ao sair para o relvado, a 
moer ressentimentos contra a arrogncia do meu amigo, vi Lawrence na quadra de croquete, a bater 
desconsoladamente duas bolas muito antigas, com um basto ainda mais antigo.

Pareceu-me que a oportunidade era boa para me desincumbir da misso que me fora confiada. Caso 
contrrio, o prprio Poirot seria capaz de me libertar dela.  verdade que no percebia bem o seu 
significado, mas estava convencido de que, pela resposta de Lawrence, e talvez com um interrogatoriozinho 
inteligente da minha parte, no tardaria a compreender. Fui, pois, ter com ele.

Tenho andado  tua procura  menti.

Sim?

Sim. Tenho um recado para ti, do Poirot.
Sim?

Disse-me que aguardasse uma ocasio em que estivesse a ss contigo  expliquei, baixando 
significativamente a voz e observando-o atentamente pelo canto do olho; sempre fui muito bom naquilo a 
que suponho, chamam, criar ambiente.

Ento?

No houvera qualquer mudana de expresso no rosto moreno e melanclico. Ele faria alguma ideia do que 
estava prestes a dizer-lhe?

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  Eis o recado...  Baixei ainda mais a voz e repeti a frase de Poirot:  Encontre a outra chvena de caf e 
poder ficar em paz.

Que diabo quer ele dizer com isso?  perguntou Lawrence, fitamdo-me com um espanto absolutamente 
sincero.

No sabes?

No faso a mnima ideia. E tu? Fui obrigado a abanar a cabea. Que outra chvena de caf?

No sei.

Se est interessado em chvenas de caf seria melhor perguntar  Dorcas ou a uma das criadas.  
trabalho delas e no meu. No sei nada acerca de chvenas de caf, a no ser que temos algumas que 
nunca usamos e que so um autntico sonho. Worcester antigo. No s conhecedor, pois no, Hastings?

Abanei outra vez a cabea.

No sabes o que perdes. Uma pea verdadeiramente perfeita de antiga porcelana  puro deleite para os 
dedos, e at para os olhos.

Bem, que digo ao Poirot?

Diz-lhe que no sei a que se refere.  chins para mim. >Est bem.

Dirigia-me de novo para casa quando ele me chamou, de sbito.

Como era o fim da frase? Repete-a, sim?

Encontre a outra chvena de caf e poder ficar em paz. Tens a certeza de que no sabes o que 
significa?  perguntei, ansioso.

No  respondeu,  pensativo.  No  sei...   e  quem  me dera saber.

O gongo soou, dentro de casa, e entrmos juntos. John convidara Poirot para almoar e o detective j 
estava sentado  mesa.

Por consentimento tcito, ningum se referiu  tragdia. Falmos da guerra e de outros assuntos. No 
entanto, depois de

133
servido o queijo e biscoitos e de Dorcas sair da sala, Poirot inclinou-se, de sbito, para Mrs. Cavendish e 
disse-lhe:

Perdoe, minha senhora, recordar coisas desagradveis, mas tenho uma ideiazinha  as ideiazinhas de 
Poirot estavam a tornar-se proverbiais  e gostaria de lhe fazer uma ou duas perguntas.

A mim? com certeza.

 muito amvel, minha senhora. O que desejo perguntar  o seguinte: a  porta  de comunicao entre o 
quarto de Mrs. Inglethorp e o de Mademoiselle Cynthia estava aferrolhada?

Decerto que estava aferrolhada  respondeu Mary  Cavendish, muito surpreendida.  Eu disse-o no inqurito.

Estava aferrolhada?  repetiu Poirot. 
Estava  afirmou, perplexa.

O que quero saber  se tem a certeza de que estava aferrolhada e no apenas fechada  chave, 
compreende?

Ah, compreendo! No, no sei. Disse que estava aferrolhada para significar que estava fechada e eu no 
pude abri-la. Creio, no entanto, que se verificou estarem todas as portas aferrolhadas por dentro.

No entanto, pela parte que lhe respeita, a porta tambm podia estar apenas fechada  chave?

Sim, sem dvida.

Pessoalmente, no reparou, quando entrou no quarto de Mrs. Inglethorp, se essa porta estava aferrolhada 
ou no?

Creio .. creio que estava.

Mas no viu?

No... nem olhei.

Mas eu vi  interrompeu Lawrence, de sbito.  Reparei, por acaso, que estava aferrolhada.

Isso arruma a  questo  disse Poirot, e pareceu  desanimado.

No pude deixar de sentir contentamento por, daquela vez, uma das suas ideiazinhas ter dado em nada.

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Depois do almoo, Poirot pediu-me que o acompanhasse a casa, ao que acedi friamente.

Est aborrecido, no  verdade?  perguntou, inquieto, ao atravessarmos o parque.

De modo nenhum  respondi secamente.

Ainda  bem.  Isso tira-me um grande peso do esprito. No fora essa a minha inteno. Esperara que ele 
reparasse

na frieza da minha atitude. No entanto, o fervor das suas palavras apaziguou o meu justo desagrado. Senti-
me degelar.

Dei o seu recado ao Lawrence.

E que disse ele? Picou muito intrigado?

Ficou. Tenho a certeza absoluta de que no fez ideia nenhuma do que voc queria dizer.

Esperara que se mostrasse decepcionado, mas, para minha surpresa, declarou que esperara isso mesmo 
e que estava muito contente. O orgulho impediu-me de fazer perguntas.

Poirot mudou de assunto:

Mademoiselle Cynthia  no esteve presente ao almoo. Porqu?

Voltou ao hospital. Recomeou a trabalhar.

Ah,  uma raparguinha trabalhadeira! E bonita, tambm. Lembra-me quadros que vi em Itlia. Gostaria 
muito de ver a sua farmcia. Acha que ela ma mostraria?

Tenho a certeza de que ficaria encantada.  um lugarzinho interessante.

Ela trabalha l todos os dias?

Tem as quartas-feiras livres e ao sbado regressa  hora do almoo. So essas as suas folgas.

No me esquecerei. As mulheres esto a fazer um grande trabalho, hoje em dia, e Mademoiselle Cynthia  
inteligente  . oh. sim, essa pequenina tem cabea!

Creio que ficou aprovada num exame muito rigoroso.

Sem dvida. No fim de contas, trata-se de um trabalho de muita responsabilidade. Suponho que tm l 
venenos muito fortes?

Tm, sim. Ela mostrou-no-los. Esto num armariozinho

135
fechado  chave. Precisam de ter muito cuidado. Tiram sempre a chave, antes de sarem da sala.

com certeza. Esse armrio fica perto da janela?

No, fica precisamente do outro lado. Porqu? Poirot encolheu os ombros.

Curiosidade, mais nada. Quer entrar?  perguntou, pois chegramos ao chal.

No. Acho que volto para trs, desta vez pelos bosques, pelo caminho mais longo.

Os bosques  volta de Styles eram muito belos. Depois de um passeio atravs do parque, era agradvel 
caminhar vagarosamente por entre o arvoredo fresco. Soprava uma brisa que quase no se sentia e a 
prpria chilreada dos pssaros era suave e abafada. Andei um bocado e, por fim, deixei-me cair aos ps de 
uma grande btula. Os meus pensamentos em relao  espcie humana eram bondosos e amveis. At 
perdoei ao Poirot a sua absurda mania de guardar segredo de tudo. Estava, em suma, em paz com o 
mundo. Bocejei.

Pensei no crime e pareceu-me uma coisa muito irreal e muito distante.

Bocejei de novo.

Provavelmente, pensei, no teria havido crime nenhum. Claro, era tudo um pesadelo. O que acontecera, na 
realidade, fora que Lawrence assassinara Alfred Inglethorp com um basto de croquete. Mas era absurdo 
da parte do John fazer tanto escarcu por causa disso e andar por ali a gritar: J te disse que no 
consinto!

Acordei, sobressaltado.

Compreendi imediatamente que me encontrava numa situao muito delicada, pois a cerca de quatro 
metros de distncia John e Mary Cavendish estavam parados um defronte do outro e discutiam. Era 
evidente que se encontravam absolutamente alheios  minha presena prxima, pois antes que me 
pudesse mexer ou falar John repetiu as palavras que me tinham arrancado ao sonho:

136


J te disse, Mary, que no o consinto! A voz de Mary redarguiu, fria e lquida:

Tens algum direito de criticar as minhas aces?

Ser a conversa da aldeia! A minha me ainda s foi enterrada no sbado e j tu andas por a a divertir-te 
com o indivduo.

Ah!  exclamou ela, encolhendo os ombros.  Se so s os mexericos da aldeia que te importam...

Mas no so! Estou farto de ver o tipo por a... Alm disso,  um judeu polaco.

Uns laivos de sangue judaico no so uma coisa m. Fermentam  fitou-o e acrescentou, com a maior 
clareza a estica estupidez do ingls normal.

Fogo nos olhos e gelo na voz. No me surpreendeu que o sangue subisse  cara de John numa onda 
escarlate.

Mary!

Que ?  O tom de voz no mudou.

Deverei deduzir das tuas palavras que continuars a encontrar-te com o Bauerstein contra os meus desejos 
expressos? O tom suplicante desaparecera da voz de John.

Se me apetecer.

Desafias-me?

No, mas nego-te o direito de criticares as minhas aces. No ters tu amigos que devam merecer a 
minha desaprovao?

John recuou um passo. A cor sumiu-se-lhe lentamente da cara.

Que  queres dizer?  perguntou,  em  voz  pouco  firme.

Ests a ver? Ests a ver, no ests, que no tens direito nenhum de me dar ordens quanto  escolha dos 
meus amigos?

John olhou-a, suplicante, com uma expresso magoada no rosto.

No tenho direito nenhum? No tenho direito nenhum. Mary?  Estendeu as mos para ela.  Mary...

Pareceu-me, por momentos, que ela ia ceder. O seu rosto assumiu uma expresso mais suave .. Mas. de 
sbito, virou-lhe as costas, quase violentamente, e afirmou:

137
Nenhum!

Afastava-se j, mas John alcanou-a num salto e agarrou-lhe num brao.

Mary  a sua voz tornara-se muito calma, ests apaixonada por esse tipo, pelo Bauerstein?

Ela hesitou de novo, mas, logo a seguir, estampou-se-lhe no rosto uma estranha expresso, velha como os 
montes, mas com um no-sei-qu de eternamente jovem. Uma esfinge egpcia poderia ter sorrido assim.

Libertou-se calmamente da mo dele e falou por cima do ombro:

Talvez  e  afastou-se depressa, deixando John parado,  como se tivesse sido transformado em pedra.

Aproximei-me ostensivamente, pisando, de propsito, alguns ramos secos, para anunciar a minha 
presena. John virou-se e, felizmente, pensou que eu acabava de chegar.

Ol, Hastings! Conduziste o homenzinho em segurana ao seu chal?  um indivduo muito singular! Mas 
ter realmente algum valor?

Foi  considerado   um   dos  melhores  detectives  do  seu tempo.

Bem, nesse caso suponho que deve prestar para alguma coisa. No entanto, que mundo podre, este!

Achas?

Meu  Deus, acho!  Para  comear, esta terrvel  histria. Homens da Scotland Yard a entrarem e a sarem l 
de casa como bonecos de uma caixa de surpresas! Nunca sei onde vo aparecer a seguir. Cabealhos 
sensacionalistas em todos os jornais do pas! Diabos levem os jornalistas! Imagina que esta manh estava 
uma enorme multido embasbacada ao porto!  como  se tratasse de uma espcie de cmara de horrores 
da Madame Tussaud, que se pode ver de graa! Enfurece, no achas?

Anima-te, John! No pode durar sempre.

Achas que no? Mas pode durar tempo suficiente para nunca mais sermos capazes de andar de cabea 
levantada.

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De modo nenhum, de modo nenhum! Ests a tornar-te mrbido a respeito desse assunto.

Ser seguido por estpidos jornalistas e olhado, embasbacadamente, por idiotas de cara de lua,  suficiente 
para tornar um homem mrbido! Mas h pior do que isso.

O qu?

J alguma vez pensaste, Hastings  para mim  um pesadelo , quem foi? s vezes no posso deixar de 
pensar que se tratou de um acidente porque... porque... quem poderia ter feito uma coisa daquelas? Agora 
que o Inglethorp foi ilibado, no h mais ningum; isto , no h mais ningum... tirando um de ns.

Sim, aquilo devia ser realmente um pesadelo para qualquer homem! Um de ns? com certeza, a no ser...

Passou-me uma ideia nova pela cabea. Estudei-a, rapidamente, e a luz pareceu aumentar. O 
procedimento misterioso de Poirot, as suas insinuaes... tudo se ajustava. Como era estpido no ter 
pensado naquela possibilidade h mais tempo E que alvio para todos ns!

No, John, no foi um de ns. Como poderia ser?

Bem sei, mas, mesmo assim, quem mais h?

No s capaz de fazer uma ideia?

No.

Olhei cautelosamente  minha volta e baixei a voz:

O Dr. Baiuerstein!  segredei.

Impossvel!

De modo nenhum.

Mas que interesse poderia ele ter na morte da minha me?

Isso no sei  confessei.  Mas digo-te uma coisa: o Poirot pensa nele.

O Poirot? Pensa? Como sabes?

Contei-lhe a intensa excitao do detective quando soubera que o Dr. Bauerstein estivera em Styles na 
noite fatal, e acrescentei:

Ele disse duas vezes: Isso modifica tudo. Depois disso, tenho andado a pensar... Sabes que o Inglethorp 
disse que ps

139
a chvena do caf na mesa do vestbulo, no sabes? Bem, foi precisamente nessa altura que o Bauerstein 
chegou. No teria sido possvel que, quando Inglethorp atravessou com ele o vestbulo, o doutor deitasse 
qualquer coisa no caf, de passagem?

Hum... Teria sido muito arriscado. Sim, mas possvel.

Alm disso, como poderia ele saber que era o caf dela? No, meu velho, no creio que pegue.

Mas eu lembrara-me de outra coisa:

Tens razo, no foi assim que o fez. Escuta...  E falei-lhe, ento, da amostra de cacau que Poirot mandara 
analisar.

John interrompeu-me, exactamente como eu interrompera Poirot:

Ouve l, mas o Bauerstein no o tinha j mandado analisar?

A  que est, a  que est! Eu tambm no tinha percebido, at agora. Bauerstein mandou-o analisar,  
precisamente isso! Se foi ele o assassino, nada mais simples do que substituir o cacau por outro 
absolutamente inofensivo e mandar este para anlise. E, claro, no encontrariam estricnina nenhuma! Mas 
ningum se lembraria de suspeitar do Bauerstein, ou pensaria em recolher outra amostra  ningum a no 
ser Poirot, claro! acrescentei, com tardio reconhecimento.

Pois sim, e o tal gosto amargo que o cacau no disfara?

Bem, a esse respeito temos apenas a palavra dele. E h outras possibilidades. Todos o consideram  um 
dos maiores toxiclogos do mundo...

Um dos maiores qu? Diz l isso outra vez.

Praticamente, ningum sabe mais acerca de venenos do que ele  expliquei.-A minha ideia  a seguinte: 
talvez o tipo tenha descoberto algum processo de tornar a estricnina inspida. E tambm  possvel que no 
tenha sequer sido estricnina, mas sim qualquer droga obscura de que ningum ouviu falar e que produz os 
mesmos sintomas.

Sim, talvez isso fosse possvel... Mas, escuta, como poderia ele deit-la no cacau? Isso no foi no andar de 
baixo?

140
No, no foi  admiti, relutante.

E, de sbito, pensei numa possibilidade horrvel. Desejei de todo o corao que o John no pensasse no 
mesmo. Olhei-o de soslaio. Estava de testa franzida, intrigado, e eu soltei um grande suspiro de alvio, pois 
a terrvel ideia que me ocorrera fora a seguinte: o Dr. Bauerstein podia ter tido um cmplice.

Mas no podia ser, com certeza! Uma mulher to bonita como Mary Cavendish no podia ser assassina! 
No entanto, algumas mulheres bonitas tinham ficado famosas como envenenadoras...

E, de repente, lembrei-me daquela primeira conversa durante o ch, no dia da minha chegada, e do brilho 
dos olhos dela quando dissera que o veneno era uma arma feminina. E como se mostrara agitada ao 
anoitecer daquela fatal tera-feira! Teria Mrs. Inglethorp descoberto que existia qualquer coisa entre ela e 
Bauerstein e ameaado dizer ao John? Teria sido para impedir essa denncia que o crime fora cometido?

Depois lembrei-me da enigmtica conversa entre Poirot e Evelyn Howard. Seria a isso que se quereriam 
referir? Seria essa a monstruosa possibilidade em que Evelyn tentara no acreditar?

Sim, tudo se ajustava.

No admirava que Miss Howard tivesse sugerido que se abafasse o caso. Agora compreendia a frase que 
ela deixara por completar: A prpria Emily... E no meu corao concordei com ela. Mrs. Inglethorp no 
teria preferido ficar por vingar a que to terrvel desonra manchasse o nome dos Cavendish?

H ainda outra coisa  disse John, de repente, e o som inesperado da sua voz fez-me estremecer, com um 
sentimento de culpa.  H uma coisa que me faz duvidar da possibilidade de ser verdade o que dizes.

O qu?  perguntei, grato por ele se ter desviado do assunto relacionado com o modo como o veneno 
poderia ter sido deitado no cacau.

O facto de o Bauerstein ter exigido uma autpsia. No

141
precisava de o ter feito; o Wilkins de bom grado deixaria o caso passar como doena cardaca.

Sim, mas no sabemos...redargui, duvidoso.  Talvez ele pensasse que, no fim de contas, assim seria mais 
seguro. Algum poderia comear a falar, depois do funeral, e o Ministrio do Interior era capaz de ordenar a 
exumao...  Descobrir-se-ia tudo e ele encontrar-se-ia numa situao perigosa, pois ningum acreditaria 
que um homem com a sua reputao se tivesse deixado enganar ao ponto de considerar a morte resultante 
de doena cardaca.

Sim,  possvel  admitiu John.  No entanto, raios me partam se imagino que motivos poderia ele ter!

Tremi.

Escuta, eu posso estar redondamente enganado. E lembra-te de que te estou a dizer tudo isto 
confidencialmente.

Oh, claro, escusado seria diz-lo!

Tnhamos ido andando, enquanto conversvamos, e chegramos  cancelinha que dava para o jardim. 
Ouvimos vozes prximas, pois o ch estava servido debaixo do sicmoro, como no dia da minha chegada.

Cynthia voltara do hospital e eu coloquei a minha cadeira ao lado dela e disse-lhe que Poirot gostaria de 
visitar a farmcia..

Oh, terei muito prazer em v-lo l! Pode ir tomar ch comigo, um dia. Combinarei com ele, quando o vir.  
um homenzinho to querido! Mas estranho... Outro dia fez-me tirar o broche do lao e p-lo de novo, porque 
estava torto.

Isso  uma mania dele  expliquei, a rir.

Tambm acho.

Permanecemos calados um minuto ou dois e em seguida, depois de olhar na direco de Mary Cavendish, 
Cynthia baixou a voz e disse:

Mr. Hastings, gostava de falar consigo depois do ch. O olhar que lanou a Mary deu-me que pensar. 
Pareceu-me

que existia muito pouca simpatia entre as duas. Pela primeira vez perguntei a mim mesmo qual seria agora 
o futuro da rapariga. Mrs. Inglethorp no deixara nada estipulado em

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relao a ela, mas eu supunha que John e Mary insistiriam provavelmente em que continuasse a viver com 
eles  pelo menos at ao fim da guerra. Sabia que o John gostava muito dela e teria pena de a ver partir.

John, que entrara em casa, reapareceu. O seu rosto afvel apresentava uma expresso de clera rara nele.

Malditos  detectives!   No  consigo  compreender o  que procuram! Estiveram em todas as divises da 
casa, virando tudo de pernas para o ar.  de mais! Suponho que se aproveitaram do facto de estarmos 
todos ausentes. Hei-de dizer umas coisas ao tal japp, quando o vir!

Raa de bisbilhoteiros!  resmungou Miss Howard. Lawrence opinou que os tipos tinham de fingir que 
faziam

alguma, coisa.

Mary Cavendish no disse nada).

Depois do ch, convidei Cynthia para um passeio e fomos juntos para os bosques.

Ento?  perguntei, assim que a folhagem nos protegeu de olhos curiosos.

Cynthia suspirou, sentou-se no cho e tirou o chapu. A luz solar que se coava pelos ramos transformou-
lhe o cabelo ruivo em ouro tremeluzente,

Mr. Hastings, o senhor  sempre muito amvel e sabe muitas coisas.

Nesse momento tive conscincia de que Cynthia era realmente uma rapariga muito encantadora. Muito 
mais encantadora do que Mary, que nunca dizia coisas daquele gnero! Ento?  repeti, benignamente, ao 
v-la hesitar.

Quero pedir-lhe conselho: que hei-de fazer?

Que h-de fazer?

Sim. A tia Emily disse-me sempre que pensaria em mim, no seu testamento. Creio que se esqueceu ou 
que no imaginou que morreria .   enfim, de qualquer maneira, no me deixou nada! E eu no sei que fazer. 
Acha que me devia ir embora imediatamente?

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Cus, no! Tenho a certeza de que eles no se querem separar de si.

Cynthia hesitou um momento, a arrancar ervinhas com as mos pequenas.

Mrs. Cavendish quer  afirmou, por fim.  Odeia-<me.

Odeia-a?  perguntei, espantado.

Sim. No sei porqu, mas no me pode suportar. E ele tambm, no.

Quanto  a isso,  sei que est  enganada  afirmei,  convencido.  Pelo contrrio, o John  muito seu amigo.

Oh, sim, o John! Mas eu referia-me ao Lawrence. Claro que no me importo que o Lawrence me odeie ou 
no... No entanto,  horrvel quando ningum gosta de ns, no ?

Mas eles gostam, minha querida Cynthia!  exclamei, sincero.  Tenho a certeza de que est enganada. 
Olhe, h o John, e Miss Howard...

Sim, creio que o John gosta de mim e, claro, apesar dos seus modos bruscos, a Evie no faria mal a uma 
mosca. Mas o Lawrence nunca me fala, se o pode evitar, e a Mary s com dificuldade consegue ser 
delicada comigo. Quer que a Evie fique, anda a pedir-lho, mas a mim no me quer e... e eu no sei que 
fazer.

Ignoro o que me deu. Talvez fosse por causa da sua. beleza, ao v-la ali sentada com o sol a cintilar-lhe na 
cabea,; talvez fosse a sensao de alvio por encontrar algum que, obviamente, no podia ter nada a ver 
com a tragdia, ou talvez fosse apenas sincera compaixo pela sua juventude e solido. Fosse pelo que 
fosse, inclinei-me para ela, peguei-lhe na mo pequenina e disse-lhi, desajeitadamente:

Case comigo, Cynthia.

Sem o saber, descobrira um excelente remdio para as suas lgrimas. Cynthia endireitou-se bruscamente, 
retirou a mo da minha e ordenou, com certa aspereza:

No seja pateta!

Fiquei <um bocadinho aborrecido.

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No estou a ser pateta, estou a pedir-lhe que me d a honra de ser minha mulher.

Para minha grande surpresa, Cynthia desatou a rir e chamou-me um querido engraado.

 muitssimo amvel da sua parte  declarou , mas sabe bem que no o deseja.

Desejo, sim. Tenho...

Deixe l o que tem. No quer realmente casar comigo... e eu tambm no quero casar consigo.

Bem, isso resolve a questo, claro  declarei, friamente. Mas no vejo motivo nenhum para se rir. No h 
nada de cmico num pedido de casamento.

No, de facto, no h. Talvez algum o aceite, para a prxima. Adeus, animou-me muito!

E, com uma ltima e incontrolvel gargalhada, desapareceu entre o arvoredo.

Ao recordar o que se passara durante o breve encontro, pareceurme muito pouco satisfatrio.

De sbito, lembrei-me de ir  aldeia e procurar Bauerstein. Algum devia manter o indivduo debaixo de 
olho. Ao mesmo tempo, seria sensato dissipar quaisquer suspeitas que ele porventura tivesse quanto  
possibilidade de ser suspeito. Lembrei-me de que Poirot confiara na minha diplomacia. Dirigi-me, por isso, 
para a casinha em cuja janela havia um carto com a palavra Apartamentos, e onde sabia que ele 
morava, e bati  porta.

Atendeu-me uma velha.

Boas tardes  cumprimentei, sorridente.  O Dr- Bauerstein est?

Fitou-me, admirada, e perguntou:

No sabe?

No sei o qu?

O que lhe aconteceu.

Que foi que lhe aconteceu?

Levaram-no.

10 - VAMP. G. 1

145


Levaram-no? Morreu?

No. A Polcia levou-o.

-A Polcia!exclamei, aparvalhado. >Quer dizer que o prenderam?        

Isso mesmo, e .
No quis ouvir mais nada, desatei a correr, para ir procurar Poirot.

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Captulo X

A   PRISO

Para minha grande contrariedade, Poirot no estava em casa e o belga idoso que me atendeu disse-me 
parecer-lhe que ele fora a Londres.

Fiquei estupefacto. Que demnio teria ido fazer a Londres? Teria sido uma deciso sbita da sua parte, ou 
j teria resolvido que ia l quando se despedira de mim, algumas horas antes?

Regressei, aborrecido, a Styles. com Poirot ausente, no sabia bem como proceder- Teria ele previsto 
aquela priso? Teria mesmo, seguindo todas as probabilidades, sido o causador dela? No encontrei 
respostas para tais perguntas. Mas, entretanto, que deveria fazer? Deveria anunciar a priso abertamente, 
em ((Styles, ou no? Embora nem comigo mesmo o admitisse, Mary Cavendish pesava na minha deciso. 
Seria um abalo terrvel para ela? De momento, afastei em absoluto toda a suspeita relacionada com ela. 
No podia estar implicada, pois se estivesse com certeza teria ouvido algumas insinuaes a esse 
respeito.

Claro que no seria possvel ocultar-lhe permanentemente a priso do Dr. Bauerstein, que viria anunciada 
em todos os jornais do dia seguinte. No entanto, custava-me ser eu a d-la. Se pudesse contactar com 
Poirot, ter-lhe-ia pedido conselho. Que demnio lhe dera para ir a Londres to inesperadamente?

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Mal-grado meu, porm, a minha opinio acerca da sua sagacidade reforara-se incomensuravelmente. 
Jamais me teria lembrado de suspeitar do doutor se Poirot no me tivesse metido a ideia na cabea. Sim, 
decididamente o homenzinho era muito esperto!

Depois de reflectir um bocado, resolvi contar o sucedido a John e deixar ao seu critrio tornar a novidade 
pblica ou no, conforme achasse conveniente-

Soltou um assobio prodigioso, quando lhe dei a notcia.

com a breca, tinhas razo, afinal! E eu que no pude acreditar, na ocasio!

 surpreendente, de facto, at nos habituarmos  ideia e vermos como tudo se ajusta bem. Que vamos 
fazer, agora? Claro que amanh ser do conhecimento geral...

John pensou um bocado, antes de responder:

Mesmo assim, no digamos nada, por enquanto. No h necessidade disso, pois em breve se saber, 
como disseste.

Mas, para minha grande surpresa, quando na manh seguinte desci do quarto, cedo, e abri ansiosamemte 
o jornal, no encontrei uma nica palavra acerca da priso! Havia uma coluna s de conversa para entreter, 
acerca do Envenenamento de Styles, nada mais. Era inexplicvel, mas eu supus que, por qualquer 
razo, Japp desejava ocultar o facto aos jornais. Isso preocupouHme um pouco, pois sugeria a 
possibilidade de mais prises.

Depois do pequeno-almoo, resolvi ir  aldeia ver se Poirot j regressara. Antes de ter tempo de partir, 
porm, um rosto bem conhecido bloqueou uma das janelas e uma voz tambm bem conhecida 
cumprimentou:

Bon jour, mon ami!

Poirot!  exclamei, aliviado, e, agarrando-lhe ambas as mos, puxei-o para dentro de casa.  Nunca fiquei to 
contente por ver uma pessoa! Escute, no disse nada a ningum, a no ser ao John. Fiz bem?

Meu amigo, no sei de que est a falar-

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Da priso do Dr. Bauerstein, claro!  respondi, impaciente.

Quer dizer que o Dr. Bauerstein, foi preso?
 No sabia?

No fazia a mnima ideia.  E, aps uma pausa: No entanto, no me surpreende. No fim de contas, estamos 
apenas a uns sete quilmetros da costa.

Da costa?  repeti, intrigado.  Que tem isso a ver com o caso?

 bvio, com certeza!  replicou o detective, encolhendo os ombros.

Para mim, no . Serei muito obtuso, mas no vejo que relao pode a proximidade da costa ter com o 
assassnio de Mrs. Imglethorp.

No tem absolutamente nada, sem dvida  concordou Poirot, sorrindo.  Mas ns estvamos a falar da 
priso de Mr. Bauerstein.

Bem, ele foi preso por causa do assassnio de Mrs. Inglethorp,..

O qu?!  perguntou Poirot, aparentemente com sincero espanto.  O Dr. Bauerstein foi preso por causa do 
assassnio de Mrs. Inglethorp?

Sim.

Impossvel! Isso seria uma grandssima farsa! Quem lho disse, meu amigo?

Bem, ningum mo disse, exactamente... Mas ele foi presoSim,  muito provvel que tenha sido preso. Mas 
porespionagem, mon ami.

Espionagem?  pergumtei, engasgado.

Precisamente.

No foi por envenenar Mrs. Inglethorp?

S se o nosso amigo Japp perdeu por completo o juzo respondeu Poirot, placidamente.

Mas... mas eu julgava que voc pensava o mesmo...    

149
Poirot envolveu-me num olhar que exprimia surpreendida comiserao e a sua noo do total absurdo de tal 
ideia.

Quer dizer  perguntei, adaptando-me lentamente  nova ideia  que o Dr. Bauerstein  espio? ,,, 

Poirot acenou afirmativamente. ,   (

Nunca tinha suspeitado, meu amigo?

Nunca sequer me passou tal coisa pela cabea.

No achou estranho que um famoso mdico londrino se viesse enterrar numa pequena aldeia como esta e 
tivesse o hbito de passear por ai a todas as horas da noite, completamente vestido?

No confesseiNunca pensei em tal coisa.

Ele , naturalmente, alemo pelo nascimento  informou Poirot, pensativo ; embora exera clnica neste 
pas h tanto tempo que todos o consideram ingls. Naturalizou-se h cerca de quinze amos.  um homem 
muito inteligente... judeu, claro.

O canalha!  exclamei, indignado.

De modo nenhum. , pelo contrrio, um patriota. Pense no que se arrisca a perder. Pessoalmente, admiro-
o.

Mas eu no podia ver o assunto do modo filosfico adoptado por Poirot e acrescentei, cada vez mais 
indignado:

E tem sido com esse indivduo que Mrs. Cavendish tem passeado por a fora, por toda a parte!

Sim, calculo que ele a considerou muito til. Enquanto a mexeriquice se entretinha a unir-lhes os nomes, 
quaisquer outros entretenimentos do doutor passavam despercebidos.

Acha ento que ele nunca se interessou realmente por ela?  perguntei ansiosamente, porventura demasiado 
ansiosamente, dadas as circunstncias.

Qlaro que no o posso afirmar, mas... Quer saber a minha opinio pessoal, Hastings?

Quero.

Bem,  a seguinte: Mrs. Cavendish no se interessa nem um bocadinho, nem nunca se interessou, pelo Dr. 
Bauerstein!

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- Pensa, realmente isso?  indaguei, sem conseguir disfarar

-Tenho a certeza de que  assim. E vou-lhe dizer porqu.

Diga!

Porque ela se interessa por outra pessoa, mon ami.

Ah!

Que quereria ele dizer? Mal-grado meu, alastrou-me pelo corpo um calor agradvel. No sou vaidoso, no 
que toca. a mulheres, mas lembrei-me de certos indcios, em que mal pensara na altura, talvez, mas que 
sem dvida pareciam indicar...

A entrada sbita de Miss Howard interrompeu os meus agradveis pensamentos. Olhou rapidamente  sua 
volta, para se certificar de que no estava mais ningum na sala, e entregou muito depressa a Poirot uma 
velha folha de papel pardo, enquanto murmurava as seguintes e enigmticas palavras:

Em cima do guarda-fato.

E saiu da sala, com a pressa com que entrara-

Poirot desdobrou o papel, cheio de interesse, e soltou uma exclamao de prazer. Estendeuo em cima da 
mesa e chamou-me:

Venha c, Hastings, e diga-me uma coisa: que inicial  esta, J. ou L?

Era uma folha de papel de tamanho mdio e um bocado suja de p, como se tivesse estado abandonada 
em qualquer lado durante algum tempo. Mas o que atraaa a ateno de Poirot era o rtulo que, ao cimo, 
tinha o cabealho impresso de Messrs. Parksoms, os famosos costureiros teatrais, e estava endereado a 
 (a inicial em questo) Cavendish, Esq., Styles Court, Styles St. Mary, Essex.

-Pode ser T. ou pode ser L.  opinei, depois de a estudar um momento.  No , com certeza, J..

ptimo  disse Poirot, e voltou a dobrar o papel.  Sou da sua opinio. Pode ter a certeza de que  um L.!

De que se trata?  indaguei, curioso.   importamte?

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Moderadamente. Confirma uma suposio minha. Depois de deduzir a possibilidade da sua existncia, 
encarreguei Miss Howard de a procurar e, como v, os seus esforos foram coroados de xito.

Que quis ela dizer com em cima do guarda-fato?

Quis dizer que encontrou o papel em cima de um guarda-fato.

Estranho lugar para guardar uma folha de papel pardo!

De modo nenhum. A parte de cima dos gwarda-fatos  um excelente lugar para pr folhas de papel de 
embrulho e caixas de carto. Eu prprio o tenho feito- Desde que fique tudo bem arrumadinho, no ofende 
a vista.

Poirot, j formou uma opinio acerca deste crime?  perguntei, preocupado.

J... isto , creio saber como foi cometido.

Ah!

Infelizmente, no tenho nenhuma prova alm da minha deduo, a no ser...  com sbita energia, agarrou-
me num brao  e  arrastou-me  pelo  corredor  abaixo,  chamando em francs, to grande era a sua 
excitao:  Mademoiselle Dorcas, Mademoiselle Dorcas, un moment, sil vous plait!

Dorcas, assustada com o rebulio, saiu apressadamente da copa.

Minha boa Dorcas, acabo de ter uma ideia, uma ideia zinha! Se estiver certa, que magnfica oportunidade! 
Na segunda-feira (no me refiro  tera-feira, Dorcas, mas sim  segunda-feira, ao dia anterior  tragdia), 
na segunda-feira, aconteceu alguma coisa  campainha de Mrs. Inglethorp?

Dorcas fitou-o, muito surpreendida.

E  que aconteceu mesmo! Agora que fala nisso, lembrome de que aconteceu. S no percebo como o 
senhor soube. Um rato, ou coisa parecida, deve ter rodo o fio. O homem veio e consertou tudo na tera-
feira de manh.

Poirot regressou  sala  minha frente, depois de soltar um longo suspiro de extasiado contentamento.

152
Sabe, no devamos exigir provas externas, a razo deveria bastar. Mas a carne  fraca e  um consolo 
descobrir que seguimos a pista certa. Ah, meu amigo, sinto-me como um gigante repousado! Corro, salto!

E, juntamdo o gesto  palavra, correu e saltou, numa cabriolice louca, na extenso de relvado existente do 
lado de fora da comprida janela.

Que est o seu extraordinrio amiguinho a fazer?  perguntou uma voz atrs de mim e, ao virar-me, encontrei 
Mary Cavendish a meu lado. Sorrimos ambos.  Que se passa?

Francamente, no lhe sei dizer. Ele perguntou  Dorcas qualquer coisa acerca de uma campainha e ficou 
to contente com a resposta que desatou a retouar como v!

Mary riu-se.

Que ridculo! Vai transpor o porto... J no volta c hoje?

Ignoro. Desisti de tentar adivinhar o que far-

Acha que ele  completamente louco, Mr. Hastings?

Confesso que no sei. s vezes tenho a certeza de que  doido varrido, mas depois, precisamente quando 
parece mais louco, descubro que existe mtodo na sua loucura.

Compreendo.

Apesar do riso, Mary tinha um ar pensativo, naquela manh. Parecia grave, quase triste.

Pareceu-me que seria boa oportunidade para a sondar acerca de Cynthia, Comecei com muito tacto  
julguei, mas ela no tardou a interromper-me, autoritria:

> um excelente advogado, no me restam dvidas, mas neste caso desperdia por completo os seus 
talentos, Mr. Hastings- A Cynthia no corre o mnimo risco de encontrar qualquer hostilidade da minha 
parte.

Tartamudeei estupidamente esperar que no pensasse que eu . Mas ela interrompeu-me de novo e as suas 
palavras foram to inesperadas que expulsaram por completo Cynthia e as suas preocupaes do meu 
pensamento:

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Mr. Hastings, acha que eu e o meu marido somos felizes juntos?

Fiquei perturbadssimo e murmurei qualquer coisa no sentido de que no me cabia pensar semelhante 
coisa.

Bem, quer Lhe caiba, quer no, declaro-lhe que no somos felizes.

No disse nada, pois compreendi que ela ainda no acabara.

Comeou a andar de um lado para o outro, devagar, com a cabea um pouco inclinada e o corpo esbelto e 
flexvel a oscilar suavemente, enquanto caminhava. De sbito, parou e fitou-me.

No sabe nada a meu respeito, pois no? De onde vim, quem era antes de casar com o John, nada, na 
realidade? Pois vou-lhe dizer, vou transform-lo em padre confessor. Creio que  bondoso... melhor, tenho a 
certeza de que  bondoso.

No sei porqu, no senti a satisfao que seria natural aquelas palavras causarem-me. Lembrei-me de que 
Cynthia comeara as suas confidncias de um modo muito semelhante. Alm disso, a ideia que se tem de 
um padre confessor  de um homem idoso; no  papel para um jovem.

O meu pai era ingls, mas a minha me era russa.

Ah! Agora compreendo...

Agora compreende o qu?

A sugesto de algo estrangeiro, diferente, que sempre me pareceu envolv-la.

Creio que a minha me era muito bela. Digo creio porque no a conheci. Morreu quando eu era muito 
pequena. Suponho que a sua morte resultou de uma tragdia qualquer, que tomou uma dose excessiva de 
um remdio para dormir, por engano. Fosse como fosse, o meu pai ficou com o corao despedaado. 
Pouco depois entrou para. o Servio Consular e eu passei a acompanh-lo sempre, para onde quer que 
fosse. Aos vinte e trs anos estivera em quase todo o mundo. Era uma vida esplndida, que eu adorava.

134
Sorriu e inclinou a cabea para trs. Parecia reviver mentalmente aqueles tempos felizes.

Depois o meu pai morreu e deixou-me muito mal, financeiramente. Tive de ir viver com umas tias velhas, no 
Yorkshire. Tentou em vo conter um estremecimento.  Compreender-me-, creio, se lhe disser que era uma 
vida terrvel para uma rapariga criada como eu fora. A mesquinhez, a monotonia de semelhante viver quase 
me enlouquecera.  Calou-se, por momentos, e por fim acrescentou, em tom diferente:  E depois conheci 
John Cavendish.

Sim?

Como deve calcular, do ponto de vista das minhas tias era um excelente casamento para mim. Posso no 
entanto afirmar, sinceramente, que no foi esse facto que me influenciou. No. Para mim, ele foi 
simplesmente uma maneira de escapar  insuportvel monotonia da minha vida.

No disse nada e ela prosseguiu, aps nova pausa.:

No me interprete mal: fui inteiramente franca com ele. Disse-lhe, e era verdade, que gostava muito dele e 
que esperava vir a gostar ainda mais, mas que no estava, de modo nenhum, apaixonada por ele, como 
se costuma dizer. John declarou que isso lhe bastava... e casmos.

Ficou silenciosa durante muito tempo, com uma rugazinha na testa. Parecia estar a rever, atentamente, 
esse tempo passado.

Creio... tenho a certeza de que, ao princpio, ele gostou de mim. Suponho, porm, que no ramos feitos 
um para o outro. Afastnmonos quase imediatamente.  No  lisonjeador para o meu orgulho, mas  
verdade) cansouHse de mim muito depressa.  Devo ter emitido um murmrio de discordncia, pois ela 
acrescentou, em tom muito firme:  Oh, sim, camsou-se! No que isso importe agora... agora que chegou o 
momento de os nossos caminhos se separarem.

Que quer dizer?

Quero dizer que no ficarei em Styles  respondeu calmamente.

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A senhora e o John no continuaro a viver aqui?

O John poder continuar, mas eu no.

Vai deix-lo?

Vou.

Mas porqu?  Nova pausa prolongada.

Talvez porque... porque quero ser livre!

E, ao ouvi-la falar, tive uma sbita viso de espaos largos, florestas virgens, terras desabitadas... e 
compreendi o que a liberdade devia significar para uma natureza como a de Mary Cavendish. Por momentos 
pareceu-me v-la como realmente era, uma criatura selvagem e orgulhosa que a civilizao no conseguira 
domar, uma espcie de tmido pssaro dos montes-

No imagina, no pode imaginar, como este odioso lugar tem sido uma priso para mim!

Compreendo, mas... no faa nada precipitado, temerrio.

Oh, temerrio!o tom da sua voz troava da minha prudncia.

E, de sbito, dei comigo a dizer uma coisa que me deu ganas de arrancar a prpria lngua:

Sabe que o Dr. Bauerstein foi preso?

Acto contnuo, cobriu-lhe o rosto uma frieza que lhe apagou toda a expresso, como uma mscara.

O John teve a amabilidade de me dar a notcia esta manh. Que pensa do caso?

Que penso de qu?

Da priso.

Que quer que pense? Aparentemente,  un espio alemo. Pelo menos foi o que o jardineiro disse ao John.

O seu rosto e a sua voz tinham-se tornado absolutamente frios e inexpressivos. Interessava-se por ele ou 
no se interessava?

Afastou-se uns passos e tocou numa das jarras de flores-

Esto murchas. Tenho de as substituir. Importa-se de se afastar?... Obrigada, Mr. Hastings.

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Saiu calmamente pela janela, passando-me pela frente, e inclinou ao de leve a cabea, a despedir-se.

No, no se interessava com certeza por Bauerstein. Nenhuma mulher poderia desempenhar o seu papel 
com uma indiferena to gelada,

Poirot no apareceu na manh seguinte e os homens da Scotland Yard tambm no deram sinais de vida.

Mas  hora do almoo chegou uma nova prova  ou melhor, falta de prova. Tentramos em vo localizar o 
destinatrio da quarta carta, que Mrs. Inglethorp escrevera na tarde que precedera a sua morte. Perante a 
inutilidade dos nossos esforos tnhamos abandonado a questo, na esperana de que o enigma se 
deslindasse por si prprio-, um dia. E foi precisamente o que aconteceu, sob a forma de uma carta 
chegada, no segundo correio, de uma firma de editores franceses, acusando a recepo do cheque de Mrs. 
Inglethorp e lamentando terem sido incapazes de encontrar determinada srie de canes folclricas 
russas. Perdeu-se, portanto, a ltima esperana de desvendar o mistrio por intermdio da correspondncia 
da prpria Mrs. Inglethorp, na tarde fatal.

Pouco antes do ch, resolvi ir transmitir a Poirot a nova decepo, mas descobri, contrariado, que ele 
sara mais uma vez.

Voltou a Londres?

-Oh, no, monsieur! Meteu-se apenas no comboio para Tadminster, para ver a farmcia de uma jovem, 
segundodisse.

Grande idiota!  exclamei, sem me conter.  Eu disse-lhe que a quarta-feira era o nico dia em que ela. L 
no estava! Pea-lhe que nos visite amanh de manh, sim?

com certeza, monsieur. Mas, no dia seguinte, de Poirot nem sinais. Comecei a irritar-me. No havia dvida 
de que nos estava a tratar com muita arrogncia.

157
Depois do almoo, Lawrence chamou-me de parte e perguntou-me se ia visit-lo.

No, creio que no. Ele que venha c, se nos quiser ver.

Ah!  exclamou  Lawrence, que  me pareceu  hesitante; havia na sua atitude algo de nervoso e excitado, que 
despertou A minha curiosidade.

Que se passa? No me importo de ir visit-lo se aconteceu alguma coisa especial.

No  nada de importncia, mas... enfim, se fores diz-lhe...baixou a voz, que ficou quase reduzida a um 
murmrio .. .dize-lhe que creio ter encontrado a outma chvena de caf!

J quase me esquecera daquele enigmtico recado de Poirot, mas as palavras de Lawrence reavivaram-me 
a curiosidade.

Ele, porm, no me quis dizer mais nada e eu achei que o melhor seria deixar-me de orgulhos e ir 
novamente procurar Poirot a Leastways Cottage.

Desta vez fui recebido com um sorriso: Monsieur Poirot estava em casa. Queria subir? Subi.

Poirot estava sentado  mesa, com a cabea apoiada nas mos. Levantou-se bruscamente, ao ouvir-me 
entrar.

Que  se  passa?  indaguei,   solcito.  Espero  que  no esteja doente?

No, no estou doente. Mas tento decidir uma questo de grande importncia.

Se deve apanhar o criminoso ou no?  indaguei, jocosamente.

Mas, para grande surpresa minha, acenou com a cabea, muito grave.

Falar ou no falar, como o vosso grande Shakespeare diz, eis a questo.

No me dei ao trabalho de corrigir a citao.

No fala a srio, pois no?

Falo o mais a srio possvel, pois est em jogo a mais sria de todas as coisas.

158
O qu?

A felicidade de uma mulher, mon ami  respondeu, com

a mesma gravidade. No soube que dizer.

Chegou o momento  prosseguiu, pensativo , e no sei que fazer. No sei que fazer porque a jogada  muito 
elevada. Ningum a no ser eu, Hercule Poirot, se arriscaria a faz-la! E bateu orgulhosamente no peito.

Depois de aguardar alguns momentos respeitosamente, para no estragar o efeito das suas palavras, 
transmiti-lhe o recado de Lawrence.

Aih, ento ele encontrou a outra chvena! Ainda bem.  mais inteligente do que parece, esse seu 
carrancudo Monsieur Lawrence!

Por mim, no tinha em grande conta a inteligncia de Lawrence, mas nem pensei em contradiz-lo- Preferi 
cham-lo  pedra por se ter esquecido do que lhe dissera quanto aos dias de folga de Cymthia.

 verdade, tenho uma cabea de peneira. No entanto, a outra jovem foi muito amvel. Teve pena da minha 
decepo e mostrou-me tudo, com a maior das gentilezas.

Ainda bem, ir tomar ch com a Cynthia noutro dia. Falei da carta recebida.

 pena  declarou.  Sempre tive esperanas nessa carta. Mas estava escrito que no seria assim... Este 
caso tem de ser todo deslindado  do  interior.  Bateu na  testa-  Por  estas celulazinhas cinzentas.  com 
elas, como vocs dizem por c.  E, inesperadamente, perguntou-me:  Percebe alguma coisa de 
impresses digitais, meu amigo?

 No  respondi, surpreendido.  Sei que no h duas impresses digitais iguais, mas a minha cincia chega 
a e pra.

Exactamente.

Abriu uma gavetinha e tirou algumas fotografias que ps em cima da mesa.

Numerei-as 1, 2 e 3. Quer fazer o favor de mas descrever?

159
Estudei as fotografias com ateno.

Verifico que esto todas muito ampliadas- Creio que a fotografia n. 1 representa as impresses digitais do 
polegar e do indicador de um (homem; a n 2, de uma senhora: ao muito mais pequenas e diferentes em 
todos os aspectos; a n.  3...  fiquei  uns momentos  calado...parece-me uma confuso  de  impresses 
digitais,  mas  aqui esto  repetidas, muito nitidamente, as da n. 1.

Sobrepostas s outras.

Sim.

Reconhece-as sem hesitao?

Oh, sim! So idnticas.

Poirot acenou com a cabea, pegou nas fotografias e voltou a fech-las na gaveta.

Suponho que, como de costume, no me vai explicar nada?

Pelo contrrio! As impresses digitais da fotografia n. 1 so as de Monsieur Lawrence; as da n. 2, de 
Mademoiselle Cynthia. No so importantes, obtive-as apenas para fins de comparao. A fotografia n. 3  
um pouco mais complicada.

Sim?

Est, como verificou, muitssimo ampliada, Deve ter reparado numa espcie de obscuridade, atravs de 
toda a foto. No lhe vou descrever o aparelho especial, o p, etc., que utilizei.  um processo conhecido da 
Polcia e, graas a ele, pode-se obter uma fotografia de impresses digitais em qualquer objecto, num 
espao de tempo muito breve. Meu amigo, agora que viu as impresses digitais, resta dizer-lhe em que 
objecto especial foram deixadas.

Continue. Estou cheio de curiosidade.

Eh bien, a fotografia n. 3 representa a superfcie muito ampliada de um pequeno frasco existente no 
armrio dos venenos  da   farmcia   do  Hospital  da   Cruz   Vermelha   de Tadminster.

Meu  Deus!  Mas que  fazem  as impresses digitais do

160
Lawrence Cavendish nesse armrio? No se aproximou dele no dia em que l estivemos!

Oh, aproximou-se, sim!

Impossvel! Estivemos sempre todos juntos.

No, meu amigo, houve um momento em que no estiveram todos juntos, houve um momento em que no 
podem ter estado todos juntos, pois de contrrio no teria sido necessrio chamar Monsieur Lawrence, 
para se lhes juntar na varanda.

Esquecera-me disso  admiti.  Mas foi apenas um momento...

Que chegou.

Que chegou para qu?

O sorriso de Poirot tornou-se assaz enigmtico.

Chegou para um  cavalheiro que em tempos estudara medicina satisfazer ,uma< curiosidade e um 
interesse-muito naturais-

Os nossos olhos encontraram-se. A expresso dos de Poirot era agradavelmente vaga. Levantou-se, a 
cantarolar, e eu observei-o, desconfiado.

Poirot, que continha o dito frasquinho?

O detective olhou pela janela, ainda a cantarolar, e respondeu, por cima do ombro:

Hidrocloreto de estricnina.

Cus!  exclamei,   mas  sem  surpresa;  esperara  aquela resposta.

Utilizam o hidrocloreto de estricnina puro muito pouco, s ocasionalmente, em comprimidos. O mais 
utilizado na maioria  dos medicamentos  a soluo oficial:  Hidrocloreto de estricnina lquido. Por isso as 
impresses digitais se mantiveram intactas desde ento at agora.

Como conseguiu tirar a fotografia?

Deixei cair o chapu da varanda  explicou, com toda a simplicidade.  No eram autorizados visitantes l em 
baixo,
11- VAMP. G. 1
 161quela hora, e por isso, a despeito das minhas muitas desculpas, a colega de Miss Cynthia teve de mo 
ir buscar-

Sabia ento o que ia encontrar?

De modo algum, de modo algum! Deduzira apenas, pela histria que voc me contara, que teria sido 
possvel a Monsieur Lawrence mexer no armrio dos venenos. A possibilidade tinha de ser confirmada ou 
eliminada.

Poirot, o seu ar ligeiro no me engana. Trata-se de uma descoberta muito importante.

No sei, confesso. Mas h uma coisa que me surpreende, como por certo o surpreende a si.

O que ?

Enfim, h demasiada estricnina neste caso.  a terceira vez que se nos depara. Havia estricnina no tnico 
de Mrs. Inglethorp  e  Mace  vendeu  estricnina  ao  balco,  em  Styles St. Mary. E agora temos mais 
estricnina, manipulada por uma pessoa da casa.  perturbador, causa confuso, e como voc sabe eu no 
gosto de confuses.

Antes que tivesse tempo de responder, um dos outros belgas abriu a porta, enfiou a cabea pela fresta e 
informou:

Est l em baixo uma senhora a perguntar por si, Mr. Hastings.

Uma senhora?

Desci apressadamente a escada estreita e Poirot seguiurme. Mary Cavendish esperava>,  entrada.

Fui visitar uma mulher idosa, da aldeia  explicou , e como o Lawrence me disse que tinha vindo ver 
Monsieur Poirot, lembrei-me de passar por c.

Ah, madame, cheguei a pensar que me vinha dar a honra de uma visita!  Lamentou-se Poirot.

Virei c um dia se me convidar  prometeu-lhe Mary, sorrindo.

Muito bem. Se precisar de um padre confessor, madame Mary estremeceu ligeiramente , lembre-se que o 
Tio Poirot est sempre s suas ordens.

162
Ela fitou-o, por momentos, como se procurasse descobrir nas suas palavras algum significado mais 
profundo. Depois virou bruscamente as costas.

No quer acompanhar-nos tambm, Monsieur Poirot?

Encantado, minha senhora.

Mary falou rpida e febrilmente, durante todo o caminho para Styles. Tive a impresso de que tentava 
esquivar-se ao olhar do detective.

O tempo mudara e o vento cortante era quase outonal na sua agressividade. Mary itremeu um pouco e 
abotoou o casaco preto desportivo- Ao passar atravs das rvores, a ventania produzia um som triste, que 
lembrava um gigante a suspirar.

Quamdo chegmos  porta principal de Styles tivemos logo o pressentimento de que acontecera alguma 
coisa.

Dorcas, a chorar e a torcer as mos, correu ao nosso encontro. Reparei que as outras criadas estavam 
reunidas, ao fundo, todas olhos e ouvidos.

Oh, minha senhora! Oh, minha senhora! No sei como dizer-lhe...

Que aconteceu, Dorcas?perguntei, impaciente.  Diga- -nos imediatamente!

Foram aqueles malvados detectives. Prenderam-no... prenderam Mr. Cavendish!

Prenderam Lawrence?  perguntei, estupefacto.

Vi uma estranha expresso nos olhos de Dorcas, que me respondeu: 

No, senhor, no foi Mr. Lawrence... Foi Mr. John. Mary, que estava atrs de mim, soltou um grito rouco e

caiu-me em cima. Quando me voltei, para a amparar, encontrei o olhar serenamente triunfante de Poiirot.

163


Captulo XI   ,

O   LIBELO   DA   ACUSAO
O julgamento de John Cavendish, acusado de assassinar a madrasta, efectuou-se dois meses depois.  
Pouco direi das semanas que decorreram entre a sua priso e o julgamento, mas toda a minha admirao 
e toda a minha simpatia foram, francamente, para Mary Cavendish. Colocou-se apaixonadamente ao lado 
do marido, desdenhando da simples ideia da sua culpabilidade, e lutou por ele com unhas e dentes.

Manifestei a minha admirao por ela a Poirot, que acenou com a cabea, pensativo.

Sim,  uma daquelas mulheres que mostram o melhor de si mesmas na adversidade, que pem a 
descoberto tudo quanto h nelas de mais terno e verdadeiro. O seu orgulho e o seu cime...

O seu cime?

Sim. No reparou que  uma mulher extraordinariamente ciumenta? Como ia dizendo, o seu orgulho e o 
seu cime foram postos de parte- Agora s pensa no marido e no terrvel destino que paira sobre ele.

Poirot falava com muito sentimento e eu olhei-o com ateno, lembrado daquela ltima tarde em que ele 
dissera tentar decidir se deveria falar ou no. Dada a sua ternura pela felicidade de uma mulher, senti-me 
grato por lhe ter sido poupada a deciso.

164
Ainda hoje me custa a crer  confessei.  Pensei at ao ltimo momento que tinha sido o Lawrence.

Eu sei que pensou  redarguiu, sorrindo.

Mas o John, o meu velho amigo John...

Todo o assassino  provavelmente um velho amigo de algum  observou, filosoficamente. No se deve 
misturar sentimento com razo.

Acho que me devia ter dado a entender...

Mon ami, italvez no o tenha feito precisamente por ele ser o seu velho amigo.

Sentiime desconcertado com a resposta e lembrei-me da pressa que tivera em comunicar ao John o que 
supunha ser a opinio de Poirot acerca de Bauerstein A propsito, este tinha sido ilibado da acusao feita 
contra ele. No entanto, apesar de, dessa vez, ter sido mais esperto do que os acusadores e de no ser 
possvel provar que cometera actos de espionagem, as suas asas tinham ficado muito aparadas.

Perguntei a Poirot se lhe parecia que John seria condenado. Para minha surpresa respondeu que, pelo 
contrrio, era muitssimo provvel que fosse absolvido.

Mas, Poirot...

Oh, meu amigo, no lhe tenho dito desde o princpio que no disponho de provas nenhumas?! Uma coisa  
saber que um homem  culpado e outra muito diferente  provar que o . E, neste caso, at os indcios so 
pouqussimos.  esse o mal. Eu, Hercule Poirot, sei, mas falta>-me o ltimo elo da cadeia. E se no o 
encontrar...  Abanou preocupadamente a cabea.

Quando comeou a suspeitar de John Cavendish?  perguntei-lhe, passados momentos. ,.

Voc no suspeitou dele? 

No.

Nem depois daquele fragmento de conversa que ouviu entre Mrs. Cavendish e a sogra e da subsequente 
falta de franqueza da primeira no inqurito?

165
No.

No somou dois e dois e no chegou  concluso de que, se no tinha sido Alfred Inglethorp que discutira 
com a mulher (e ele negou-o veementemente no inqurito, como se deve lembrar), fora com certeza 
Lawrence ou John Cavendish? Se tivesse sido Lawrence, a conduta de Mary Cavendish continuaria a ser 
inexplicvel, mas se, pelo contrrio, tivesse sido John, estava tudo explicado, naturalmente.

Foi ento o John que discutiu com a me, naquela tarde?

Exactamente.

E o senhor soube-o, desde o princpio?

com certeza. S podia ser essa a explicao do comportamento de Mrs. Cavendish.

E mesmo assim acha que ele ser absolvido?

Claro que sim  respondeu, encolhendo os ombros. Na pronncia ouviremos o libelo da acusao, mas 
segundo todas as probabilidades os advogados de John aconselh-lo-o a reservar a defesa. Essa ouvi-la-
emos no julgamento. E... a propsito, quero recomendar-lhe uma coisa, meu amigo. No devo aparecer no 
processo.

O qu?

Oficialmente, no tenho nada a ver com o assunto. Devo permanecer nos bastidores at encontrar o tal 
ltimo elo da minha cadeia. Mrs. Cavendish deve pensar que estou a trabalhar para o marido e no contra 
ele.

Mas isso  fazer jogo um bocado baixo!  protestei.

De modo nenhum. Estamos a lidar com um indivduo muito inteligente e sem escrpulos e devemos utilizar 
todos os meios ao nosso alcance...  caso contrrio, escapa-se-nos por entre os dedos. Foi por isso que 
tive o cuidado de permanecer na sombra. Todas as descobertas foram feitas pelo Japp e ser ele que 
receber todo o crdito. Se for chamado a depor sorriu, encantado, ser provavelmente como testemunha 
de defesa.

Quase no podia acreditar nos meus ouvidos!

166


 Estar inteiramente en rgle  garantiu-me Poirot.  Por estranho que parea, posso fazer um depoimento 
que demolir uma das alegaes da acusao.

Qual?

A que se refere  destruio do testamento. John Cavendish no destruiu esse testamento.

Poirot acertou em cheio, como profeta. No entrarei em pormenores no tocante  pronncia, pois isso 
implicaria muitas repeties enfadonhas. Limitar-me-ei a dizer que John Cavendish reservou a sua defesa e 
foi pronunciado para julgamento.

Em Setembro estvamos todos em Londres. Mary alugou uma casa em Kensington e Poirot foi includo na 
famlia.

Quanto a mim, tinham-me colocado no Ministrio da Guerra e, por isso, podia v-los com frequncia.

 medida que as semanas passavam, o estado dos nervos de Poirot piorava. O tal ltimo elo de que 
falara continuava a no aparecer. Intimamente, eu desejava que tal situao se mantivesse, pois que 
felicidade poderia restar a Mary se John no fosse absolvido?

Em 15 de Setembro, John Cavendish compareceu perante o tribunal, no Old Bailey, acusado de 
Assassnio voluntrio de Emily Agnes Inglethorp, e declarou-se Inocente.

Sir Ernest Heavywether, o famoso advogado, fora encarregado de o defender.

Mr. Philips, o acusador, iniciou as alegaes.

O assassnio, declarou, fora premeditado e executado a sangue-frio. Tratara-se, nem mais nem menos, do 
envenenamento deliberado de uma mulher afectuosa e confiante pelo seu enteado, para o qual ela fora mais 
do que uma me. Mantivera-o desde a infncia. Ele e a mulher viviam em Styles Court rodeados de todo 
o conforto e dos seus cuidados e atenes. Ela fora a sua boa e generosa benfeitora.

Tencionava chamar testemunhas, as quais provariam que o acusado, libertino e esbanjador, se encontrava 
em grandes apuros financeiros, alm de ter um romance com uma certa

167
Mrs. Raikes, mulher de um lavrador vizinho. Isso chegara ao conhecimento da madrasta, que o chamara  
pedra na tarde anterior  sua morte, e seguira-se uma discusso, parte da qual fora ouvida. No dia anterior, 
o acusado adquirira estricnina na farmcia da aldeia, usando um disfarce pelo meio do qual esperava lanar 
a suspeita do crime sobre outro homem: o marido de Mrs. Inglethorp, de quem tinha grande inveja. 
Felizmente, Mr. Inglethorp pudera apresentar um libi irrebatvel.

Na tarde de 17 de Julho, continuou o acusador, logo aps a discusso com o filho, Mrs. Inglethorp fizera 
um novo testamento. Este testamento fora encontrado destrudo na lareira do seu quarto, na manh 
seguinte, mas haviam-se encontrado indcios que mostravam ter sido redigido a favor do marido. A falecida 
j fizera um testamento a seu favor antes do casamento, mas  e aqui Mr. Philips agitou expressivamente o 
indicador  o acusado no tinha conhecimento disso. O que levara a falecida a fazer novo testamento, com o 
anterior ainda vlido, no sabia. Tratava-se de uma senhora idosa e talvez se tivesse esquecido do anterior; 
ou  e isso parecia-lhe mais provvel talvez pensasse que esse testamento teria sido revogado pelo 
casamento, visto ter-se falado desse assunto. As senhoras nem sempre eram muito versadas em 
conhecimentos jurdicos. Mrs. inglethorp fizera, havia cerca de um ano, testamento a favor do acusado. Mr. 
Philips chamaria testemunhas que demonstrariam ter sido o acusado quem acabara por dar o caf  
madrasta, na noite fatal. Mais tarde, procurara introduzir-se no quarto dela e fora sem dvida nessa ocasio 
que encontrara oportunidade para destruir o testamento que, tanto quanto julgava saber, tornaria vlido o 
feito a seu favor.

O acusado fora preso em consequncia da descoberta no seu quarto, pelo detective inspector Japp  um 
investigador muito brilhante, de um frasco de estricnina idntico ao que fora vendido na farmcia da aldeia 
ao suposto Mr. Inglethorp, na vspera do assassnio. Competiria ao jri decidir se tais factos

168
incriminadores constituam ou no prova inequvoca da culpa do acusado.

E, insinuando subtilmente ser inimaginvel que o jri no decidisse assim, Mr. Philips sentou-se e enxugou 
a (testa,

As primeiras testemunhas da acusao foram praticamente as que tinham deposto no inqurito, 
comeando-se mais uma vez pelo depoimento mdico.

Sir Ernest Heavywther, famoso em toda a Inglaterra pelo modo pouco escrupuloso como intimidava as 
testemunhas, fez apenas duas perguntas:

Presumo, Dr. Bauerstein, que a estricnina, como droga, actua rapidamente?

 verdade.

E que o doutor no sabe explicar a demora verificada neste caso?

 verdade.

Obrigado.

Mr. Mace identificou o frasco que o advogado lhe estendeu como sendo o vendido por ele a Mr. 
Inglethorp. Pressionado pelo advogado, admitiu que s conhecia Mr. Inglethorp de vista; nunca falara com 
ele. A testemunha no foi interrogada pela defesa.

Alfred Inglethorp tambm foi chamado e negou ter adquirido o veneno. Negou igualmente ter discutido com 
a mulher. Vrias testemunhas comprovaram a verdade de tais afirmaes.

Os jardineiros testemunharam quanto a terem assinado o testamento e depois foi a vez da Dorcas.

Fiel ao seu jovem senhor, negou insistentemente que pudesse ter sido a voz de John que ouvira e afirmou 
resolutamente, apesar de todas as provas em contrrio, que fora Mr. Inglethorp que estivera na saleta com 
a sua ama. Um sorriso muito triste perpassou pelo rosto do acusado, que sabia muito bem quanto a sua 
corajosa defesa era intil, pois o seu advogado no tencionava negar aquele pormenor. Claro que no foi 
possvel chamar Mrs. Cavendish para depor contra o marido.

169
Depois de vrias perguntas acerca de outros assuntos, Mr. Philips inquiriu:

Lembra-se de, no ms de Junho passado, ter chegado um embrulho do Parksons para Mr. Lawrence 
Cavendish?

Dorcas abanou a cabea.

No me lembro. Pode ter chegado, mas Mr. Lawrence esteve ausente de casa durante parte do ms de 
Julho.

Que fariam no caso de chegar uma encomenda para ele durante a> sua ausncia?

Ou seria posta no seu quarto ou reenviada, para onde ele se encontrava.

Por si?

No, senhor. Eu deix-la-ia na mesa do vestbulo. Miss Howard  que se encarregaria disso.

Chamada Evelyn Howard, e depois de interrogada acerca de outros assuntos, o advogado fez-lhe a 
pergunta acerca da encomenda.

No me lembro. Chegavam muitas encomendas. No me posso lembrar de uma em especial.

No sabe se foi reenviada para o Pas de Gales, onde se encontrava Mr. Cavendish, ou se foi posta no 
quarto dele?

No creio que lhe tenha sido enviada. Se tivesse, deveria lembrar-me.

Supondo  que   chegara   uma encomenda endereada   a Mr. Lawrence Cavendish e que depois essa 
encomenda desaparecia. Notaria a sua ausncia?

Creio que no. Pensaria que algum tomara conta dela.

Creio, Miss Howard, que foi a senhora que encontrou esta folha de papel pardo?  Mostrou o mesmo papel 
sujo de p que Poirot e eu examinramos na salinha de Styles.

Fui, sim.

Porque a procurou?

O detective belga que investigava o caso pediu-me que a procurasse.

Onde acabou por encontr-la?

Em cima de... de um guarda-fato.

170
   Em cima do guarda-fato do acusado?

Creio... creio que sim.

No foi a senhora que a encontrou?

Fui.

> Ento deve saber onde a encontrou.

Foi em cima do guarda-fato do acusado.

Assim est melhor.

Um empregado do Tarksons, Costureiros Teatrais, declarou que, em 29 de Junho, tinham fornecido uma 
barba preta a Mr. L. Cavendish, como lhes fora pedido. A encomenda tinha sido feita por carta, a qual 
inclua um vale de correio. No, no tinha guardado a carta. Todas as transaces eram registadas nos 
seus livros. Tinham enviado a barba, como lhes fora indicado, a L. Cavendish, Esq., Styles Court.

Sir Ernest Heavywether levantou-se, imponente:

De onde foi a carta escrita?

De Styles Court.

Da mesma morada para onde enviaram a. encomenda?

Sim.

E a carta seguiu daqui?   , <

Sim.

Heavywether caiu<-lhe em cima como uma ave de rapina:

Como sabe?

No... no compreendo.

Como sabe que a carta era proveniente de Styles? Viu o carimbo do correio?

No... mas...

Ah, no viu o carimbo do correio! E no entanto afirma confiantemente que proveio de Styles. Na realidade, o 
carimbo do correio podia ser de outro lado qualquer?

Po.. .podia.

Na realidade, a carta, embora escrita em papel timbrado, podia ter sido enviada de qualquer lado? Do Pas 
de Gales, por exemplo?

A testemunha admitiu que poderia ter sido, de facto, assim, e Sir Ernest declarou-se satisfeito.

171
Elizabeth Wells, segunda criada em Styles, declarou que, depois de se ter deitado, se lembrara de que 
correra o ferrolho da porta principal, em vez de a ter deixado no trinco como Mr. Inglethorp lhe pedira. 
Descera, por isso, ao andar de baixo, a fim de emendar o erro. Ao ouvir um ligeiro rudo na ala ocidental, 
espreitara pelo corredor e vira Mr. John Cavendish a bater  porta de Mrs. Inglethorp.

Sir Ernest Heavyweather no teve dificuldades com ela: sob o fogo impiedoso das suas perguntas, a mulher 
contradisse-se irremediavelmente e Sir Ernest voltou a sentar-se, com um sorriso de satisfao estampado 
no rosto.

Depois do testemunho de Annie quanto ao pingo de estearina no cho e a ter visto o acusado levar o caf 
para a saleta, o julgamento foi adiado para o dia seguinte.

Quando amos para casa, Mary Cavendish queixou-se amargamente do advogado de acusao.

Aquele homem odioso! Que rede estendeu  volta do meu pobre John! Como torceu cada pequenino facto 
at o fazer

Qparecer o que no !

Bem, amanh as coisas passar-se-o ao contrrio  disse-!he, tentando consol-la.

Sim  admitiu, pensativa, mas depois baixou a  voz e acrescentou:  Mr. Hastings, no pensa .. certamente 
no podia ter sido o Lawrence... Oh, no, no podia ser!

Mas eu prprio estava intrigado e assim que me encontrei a ss com Poirot perguntei-lhe se percebia 
aonde Sir Ernest queria chegar.

Ah, Sir Ernest  um homem muito inteligente!  exclamou, apreciadoramente.

Acha que ele considera o Lawrence culpado?

No penso que ele considere seja o que for ou se preocupe seja com o que for! O que ele pretende  criar 
tal confuso no esprito dos jurados que as suas opinies se dividam quanto a qual dos irmos cometeu o 
crime. Pretende demonstrar que existem tantos indcios contra Lawrence como contra John... e desconfio 
muito que o conseguir.

172
Quando o julgamento recomeou, a primeira testemunha a ser chamada foi o detective-inspector Japp, que 
deps sucinta e brevemente. Depois de relatar os primeiros acontecimentos, prosseguiu:

Baseando-nos em informaes recebidas, o superintendente Summerhaye e eu revistmos o quarto do 
acusado, durante uma sua  ausncia   temporria  de  casa.   Na  cmoda,  escondidos debaixo de 
algumas peas de roupa interior, encontrmos: primeiro,umas lunetas de aros de ouro semelhantes s 
usadas por Mr. Inglethorp  as lunetas foram apresentadas; segundo, este frasco.

O frasco j fora identificado pelo ajudante de farmacutico: era um frasquinho de vidro azul contendo ainda 
alguns gros de um p branco cristalino e dizendo, no rtulo: Hidrocloreto de estricnina. VENENO.

Uma nova prova descoberta pelos detectives, depois da pronncia, fora um bocado de mata-borro 
comprido e quase novo. Tinha sido encontrado no livro de cheques de Mrs. Inglethorp e, com o auxlio de 
um espelho, fora possvel ler claramente as palavras: ... tudo de que eu seja possuidora ao morrer deixo-o 
ao meu querido marido, Alfred Ing.... Isto demonstrava, sem sombra de dvida, que o testamento destrudo 
fora feito a favor do marido da falecida, Japp apresentou ento o fragmento de papel chamuscado 
encontrado na lareira, e isso, juntamente com a barba encontrada no sto, completou as provas que tinha 
a apresentar.

Mas faltava o contra-interrogatrio de Sir Ernest.

Em que dia, revistou o quarto do acusado?

Na tera-feira, 24 de Julho. 

Exactamente uma semana depois da tragdia?   >

Sim. 

Disse que encontrou esses dois objectos na cmoda. A gaveta no estava fechada  chave? 

No.

No achou estranho que um homem que cometera um

173
crime deixasse as provas do seu acto numa gaveta aberta, para que qualquer as pudesse encontrar?

Talvez l as tivesse metido apressadamente.

Mas o senhor acaba de dizer que tinha decorrido uma semana inteira desde o crime. Ele teria tido tempo 
mais do que suficiente para tirar esses objectos da gaveta e destru-los.

Talvez.

No h talvez nem meio talvez. Teria ou no teria tempo suficiente para tirar os objectos da gaveta e 
destru-los?

Teria,

A pilha de roupa interior sob a qual os objectos estavam escondidos era pesada ou leve?

Pesadota.

Por  outras  palavras,   tratavam  de  roupa  interior  de Inverno. Obviamente, no seria provvel que o 
acusado mexesse nessa gaveta?

Talvez no.

Faa favor de responder  minha pergunta: Seria provvel que, na semana mais quente de um Vero 
quente, o acusado fosse  mexer numa gaveta que continha roupa  interior de inverno? Sim ou no?

No.

Nesse caso, no  possvel que os objectos em questo l tenham sido postos por uma terceira pessoa e 
que o acusado estivesse inteiramente alheio  sua presena?

No me parece provvel.

Mas  possvel? 
.

No desejo mais nada.

Seguiram-se mais declaraes. Declaraes quanto s dificuldades financeiras em que o acusado se 
encontrava em fins de Julho. Declaraes quanto  sua intriga com Mrs. Raikes pobre Mary, deve ter sido 
duro de ouvir, a uma mulher com o seu orgulho! Evelyn Howard tivera razo nas suas acusaes, embora a 
sua animosidade contra Alfred Inglethorp a tivesse

174
 levado a tirar a concluso errada de que era ele a pessoa em causa.

Depois Lawrence Cavendish foi chamado a depor. Em voz baixa, e em resposta s perguntas de Mr. Philip, 
negou ter encomendado fosse o que fosse ao Parksons, em junho. Na realidade, em 29 de Junho estava 
ausente, no Pas de Gales.

O queixo de Sir Ernest esticou-se, acto contnuo, agressivamente:

Nega ter encomendado uma barba preta ao Parksons, em 29 de Junho?

Nego.

Ah! No caso de acontecer alguma coisa ao seu irmo, quem herdar Styles Court?

A brutalidade da pergunta fez corar o rosto plido de Lawrence. O juiz emitiu um leve murmrio de 
desaprovao e o acusado inclinou-se para a frente, irritado.

Mas Heavywether no se importou nada com a clera do seu constituinte e exigiu:

Responda  minha pergunta, por favor.

Creio que serei eu  respondeu Lawrence, em voz baixa.

Que quer dizer com o creio? O seu, irmo no tem filhos. Seria o senhor que herdaria, no seria?

Seria.

Ah, assim est melhor!  exclamou o advogado de defesa, com feroz satisfao.  E tambm herdaria uma 
boa maquia em dinheiro, no herdaria?

Francamente, Sir Ernest, essas perguntas no so relevantes  protestou o juiz.

Sir Ernest inclinou-se e, como j disparara a seta venenosa, prosseguiu:

Creio que na tera-feira, 17 de Julho, foi com um convidado da casa visitar a farmcia do Hospital da Cruz 
Vermelha de Tadminster?

Fui.

Enquanto esteve sozinho, durante alguns segundos, abriu o armrio dos venenos e examinou alguns dos 
frascos?

175
...  possvel que o tenha feito.

Digo-lhe que o fez.

Fiz.

A pergunta seguinte foi quase atirada com violncia ,-


Examinou algum frasco em particular?
 Creio que no. 
Tenha cuidado, Mr. Cavendish. Estou a referir-Me a um frasquinho de hidrocloreto de estricnina.

Lawrence tornara-se esverdeado.

No,.. no... tenho a certeza de que no examinei,

Ento como explica que tenha deixado nele, inequivocamente, as suas impresses digitais?

A atitude agressiva do advogado revelava-se muito eficaz contra uma pessoa nervosa.

Suponho... suponho que devo ter pegado no frasco.

Eu tambm suponho que pegou! Retirou algum do contedo do mesmo?

No!

Ento porque lhe pegou?

Estudei   para   mdico,   em   tempos.   Essas   coisas  interessam-me, naturalmente.

Ah!  Ento os  venenos  interessam-lhe,  naturalmente,, no interessam? No entanto, esperou pela 
oportunidade de ficar sozinho para satisfazer esse seu interesse.

Foi puro acaso. Se os outros estivessem presentes, podia ter procedido exactamente do mesmo modo.

Mas os outros no estavam presentes, pois no?
 No, mas...

Na realidade, durante toda a tarde, s esteve sozinho uns dois  minutos, e  logo sucedeu  repito,  logo 
sucedeu  ser durante esses dois minutos que evidenciou o seu interesse natural pelo hidrocloreto de 
estricnina?

Lawrence tartamudeou, lamentavelmente:

Eu... eu...

com rosto satisfeito e expressivo, Sir Ernest declarou:

No tenho mais nada a perguntar-lhe, Mr. Cavendish.

176
O seu interrogatrio causara grande excitao no tribunal. As cabeas de muitas mulheres bem vestidas, 
presentes na sala, reuniram-se a cochichar, e os seus murmrios tornaram-se to audveis que o juiz 
ameaou, irritado, mandar evacuar a sala se no houvesse imediatamente silncio.

Pouco mais faltava. Os peritos calgrafos foram convidados a dar a sua opinio acerca da assinatura de 
((Alfred Inglethorp no registo de venenos da farmcia. Foram unnimes em, afirmar que no se tratava da 
letra dele e disseram parecer-lhes que poderia ser a letra disfarada do acusado. Contra-interrogados, 
admitiram que poderia tratar-se da letra do acusado habilmente forjada.

O discurso de Sir Ernest Heavywether, ao iniciar as alegaes da defesa, no foi longo, mas teve a apoi-lo 
toda a fora da sua altitude enftica. Nunca, em toda a sua longa experincia, se lhe deparara, afirmou, 
uma acusao de assassnio baseada em to fracas provas. Provas que, alm de inteiramente 
circunstanciais tinham na sua maioria sido refutadas. Que pegassem nos testemunhos ouvidos e os 
joeirassem imparcialmente. O frasco da estricnina fora encontrado numa gaveta do quarto do acusado. 
Essa gaveta -no estava fechada, como salientara, e portanto afirmava no haver nada que provasse ter 
sido o acusado quem l escondera o veneno. Tratava-se, na verdade, de uma perversa e criminosa tentativa 
da parte de qualquer terceira pessoa para atribuir o assassnio ao seu constituinte. A acusao fora 
incapaz de apresentar uma sombra de prova que confirmasse a sua alegao de que fora o acusado quem 
encomendara a barba preta ao Tarksors. A discusso travada entre Cavendish e a madrasta era 
francamente admitida pela defesa, mas tanto essa discusso como as dificuldades financeiras do acusado 
tinham sido grosseiramente exageradas.

O seu ilustre amigo  Sir Ernest inclinou descuidadamente a cabea na direco de Mr. Philips  declarara 
que se o acusado estivesse inocente, teria explicado no inqurito que tinha sido ele, e no Mr. Inglethorp, o 
participante da referida discusso. Sir Ernest achava que os factos no tinham sido correctamente

12 - VAMP. G. 1

177
apresentados. O que acontecera, na realidade, fora o seguinte ao regressar a casa na tera-feira  tarde, o 
acusado fora informado de que houvera uma violenta discusso entre Mr. e Mrs. Inglethorp. No lhe passara 
pela cabea que algum pudesse ter confundido a sua voz com a de Mr. Inglethorp e deduzira, 
naturalmente, que a madrasta travara duas discusses, nesse dia.

A acusao alegava que na segunda-feira, 16 de Julho, o acusado entrara na farmcia da aldeia, disfarado 
de Mr. Inglethorp. Em vez disso, a essa hora, Cavendish encontrava-se num local solitrio chamado 
Mansions Spineey, aonde fora convocado por um bilhete annimo, redigido em termos chantagsticos e 
ameaando revelar certos assuntos  sua mulher se ele no satisfizesse as exigncias que lhe eram feitas. 
O acusado dirigira-se para o local indicado e, depois de esperar em vo durante meia hora, regressara a 
casa Infelizmente, no encontrara ningum nem  ida nem  volta e, assim, no havia nenhuma testemunha 
que pudesse confirmar a verdade das suas afirmaes. Mas felizmente conservara o bilhete, que seria 
apresentado como prova.

Quanto s afirmaes relacionadas com a destruio do testamento, o acusado praticara advocacia, em 
tempos, e estava perfeitamente ao corrente de que o testamento feito em seu favor um ano atrs fora 
automaticamente revogado pelo novo casamento da sua madrasta. Apresentaria provas demonstrativas de 
quem destrura, de facto, o testamento, e era possvel que isso abrisse uma perspectiva inteiramente nova.

Finalmente, chamava a ateno do jri para o facto de existirem indcios contra outras pessoas alm de 
John Cavendish; chamava a sua ateno para o facto de os indcios contra Mr. Lawrence Cavendish serem 
to fortes, se no mais fortes, do que os existentes contra o irmo.

Agora chamava o acusado.

John desembaraou-se bem no lugar das testemunhas. Sob a direco hbil de Sir Ernest, contou a sua 
histria com credibilidade. O bilhete annimo que recebera foi apresentado e

178
entregue ao jri, para exame. A prontido com que admitiu as suas dificuldades financeiras e a discusso 
com a madrasta, reforaram a credibilidade das suas negaes. Ao terminar o inteirogatrio, disse:

Gostaria de esclarecer uma coisa. Repudio e desaprovo absolutamente as insinuaes de Sir Ernest 
Heavywether contra o meu irmo. Fstou convencido de que ele no teve mais a ver com o crime do que eu.

Sir Ernest limitou-se a sorrir e notou, com um olhar penetrante, que o protesto de John produzira uma 
impresso muito favorvel no jri.

Seguiu-se o interrogatrio da acusao:

Disse que nunca lhe passou pela cabea que as testemunhas ouvidas no inqurito tivessem confundido a 
sua voz com a de Mr. Inglethorp. No acha isso muito surpreendente?

No, no acho. Disseram-me que houvera uma discusso entre a minha me e Mr. Inglethorp, e no me 
oconreu que no se tratasse disso-

Nem quando a criada, Dorcas, repetiu certos fragmentos da conversa, fragmentos que deve ter identificado?

No os identifiquei.

Deve ter uma memria muito m!

No, mas estvamos ambos irritados e creio termos dito mais do que tencionvamos. Prestei muito pouca 
ateno s palavras que a minhha me disse.

O grunhido incrdulo de Mr. Philips foi um triunfo de percia forense. Passou ao assunto do bilhete:

Apresentou este bilhete muito oportunamente. No acha nada de familiar na< caligrafia?

Que eu saiba, no.

No lhe parece que tem uma acentuada (Semelhana com a sua prpria letra... descuidadamente 
disfarada?

No, no me parece.

Digo-lhe que  a sua prpria letra.

No - 

179
Digo-lhe que, desejoso de arranjar um libi, engendrou a ideia de um encontro fictcio e assaz incrvel e 
escreveu este bilhete, a fim de confirmar as suas prprias declaraes!

No escrevi.

No  um facto que,  hora em que alega ter estado  espera num stio isolado e pouco frequentado, estava 
na realidade na farmcia de Styles St. Mary, onde comprou estricnina em nome de Alfred Inglethorp?

No, isso  mentira.

Digo-lhe que,  vestindo  um  fato de  Mr.   Inglethorp e usando uma barba aparada para se assemelhar  
dele, esteve na farmcia e assinou o registo em nome de Mr. Inglethorp!

Isso  absolutamente falso.

Nesse caso, deixo  considerao do jri a extraordinria similaridade da letra do bilhete e do registo com a 
sua  declarou Mr. Philips e sentou-se com o ar de um homem que cumprira o seu dever, mas se sentia 
horrorizado com to deliberado perjrio.

Em seguida, como j era tarde, o julgamento foi adiado para segunda-feira.

Reparei que Poirot parecia profundamente desencorajado. Tinha entre os olhos uma rugazinha que eu 
conhecia muito bem.

Que se passa, Poirot?

Ah, mon ami, as coisas esto a correr mal, mal! Mal-grado meu, o corao deu-me um pulo de alvio. Era

provvel, evidentemente, que John Cavendish fosse absolvido. Quando chegmos a casa, o meu amigo 
recusou a oferta de ch feita por Mary.

No, minha senihora, obrigado. vou para o meu quarto. Acompanhei-o. Sempre de testa franzida, foi  
secretria e

tirou um baralho de cartas de pacincias. Depois puxou uma cadeira para a mesa e, com grande espanto 
meu, comeou a construir casas de cartas!

180
O queixo pendeu-mi, involuntariamente, e ele declarou, logo:

No, mon ami, no estou na segunda infncia! Tento apenas acalmar os nervos. Este passatempo exige 
firmeza de dedos, e a firmeza de dedos exige firmeza cerebral... coisa de que nunca precisei mais do que 
neste momento-

Mas qual , afinal, o problema?

Poirot demoliu o edifcio cuidadosamente construdo com um grande murro na mesa.

O problema, mon ami,  que sou capaz de construir casas de cartas com sete andares, mas no sou 
capaz  - murro - de encontrar - murro - aquele ltimo elo de que lhe falei!

Como no soube bem que responder, fiquei calado e ele recomeou a construir nova casa, enquanto ia 
falando aos arrancos.

Faz-se...  assim! Colocando...  uma carta... em cima da outra... com preciso matemtica!

Vi a casa subir sob as suas mos, andar por andar. Poirot nunca hesitava. Parecia, na realidade, um truque 
de prestidigitao.

Tem a mo muito firme  observei.  Creio que s lha vi tremer uma vez.

Numa ocasio em que estava furioso, sem dvida declarou, placidamente.

Foi mesmo, estava furiosssimo. Lembra-se? Foi quando descobriu que a fechadura da caixa da 
correspondncia de Mrs. Inglethorp tinha sido forada. Parou junto da chamin, a endireitar, como  seu 
costume, as coisas que estavam em cima da prateleira, e a sua mo tremia como varas verdes) Devo 
dizer...

Calei-me, de sbito, pois Poirot soltara um grito rouco e inarticulado e arrasara mais uma vez a casa de 
cartas. Depois, cobrindo os olhos com as mos, balanou-se para a frente e para trs, aparentemente 
tomado da mais viva amgstia.

181
Cus,  Poirot,  que  aconteceu?  perguntei,  preocupado. Est doente?

No, no!  respondeu, ofegante.  Mas... mas...  tive uma ideia!

Ah!  exclamei,  aliviadssimo.  Uma  das suas  ideiazinhas?

Ah, ma foi, no! Desta vez  uma ideia gigantesca Estupenda! E foi voc, voc, meu amigo, que ma deu!

De repente, abraou-me, beijou-me ruidosamente em ambas as faces e, sem me dar tempo a refazernme 
da surpresa, saiu desarvorado do quarto.

Mary Cavendish entrou nesse momento.

Que aconteceu a Monsieur Poirot? Passou por mim como um furaco, a gritar: Uma garagem! Pelo amor 
de Deus mdique-mne uma garagem, madame! E, sem esperar que eu respondesse, sau para a rua.

Corri para a janela- Era verdade, l ia ele a correr pela rua abaixo, sem chapu e a gesticular. Virei-me para 
Mary e disse-lhe, com um gesto de desespero:

No tardar a ser detido por um polcia. Olhe, vai virar a esquina!

Os nossos olhos encontraram-se e fitmo-nos, impotentes.

Mas que lhe ter acontecido?

No sei  respondi, a abanar a cabea.  Estava a construir casas de cartas e, de repente, disse que tinha 
uma ideia e abalou como a senhora viu.

Bem, espero que volte antes do jantar.

Mas a noite caiu sem que Poirot tivesse regressado.

182
Captulo XII

,O    ULTIMO   ELO

A brusca partida de Poirot intrigara-nos muito, a todos, A manh de domingo passou, e ele sem voltar. 
Cerca das trs da Tarde, porm, um furioso e prolongado buzinar atraiu-nos  janela. Poirot descia de um 
automvel, na companhia de Japp e Sumimerhaye- O homenzinho parecia transfigurado, irradiava uma 
absurda complacncia, Inclinou-se, com exagerado respeito, diante de Mary Cavendish.

Madame, autoriza-mne a efectuar  uma pequena reunio no salon?  necessrio que estejam todos 
presentes.

Mary sorriu tristemente e respondeu-lhe:

Sabe muito bem, Monsieur Poirot, que tem carte blanche em todos os sentidos.

 excessivamente amvel, minha senhora.

Sempre a sorrir, Poirot conduziu-nos para a sala e foi puxando cadeiras para a frente, enquanto falava:

Miss Howard, aqui. Mademoiselle Cynthia. Monsieur Lawrence. A boa Dorcas. E a Annie- Bienl Temos de 
aguardar uns minutos, at Mr. Inglethorp chegar. Mandei-lhe um bilhete.

Miss Howard levamtou-se imediatamente do lugar que lhe fora destinado e exclamou:

Se esse homem entra nesta casa, eu saio!

No, no!  Poirot aproximou-se dela e falou-lhe em voz baixa

183
Por fim, Miss Howard voltou a sentar-se, resignada. Poucos minutos depois, chegou Alfred Inglethorp.

Quando todos ficaram reunidos e sentados, Poirot levantou-se, com o ar de um conferencista popular, e 
inclinou-se delicadamente diante da assistncia.

Messieurs,  mesdames,  como sabem  fui encarregado de investigar este caso por Monsieur John 
Cavendish. Examinei imediatamente o quarto da falecida, o qual, por conselho dos mdicos, tinha sido 
fechado  chave e estava, consequentemente, tal qual como estivera aquando da tragdia. Encontrei: 
primeiro, um fragmento de tecido verde; segundo, uma ndoa ainda hmida na carpete, junto da janela; 
terceiro, uma caixa vazia de papelinhos de brometo.

Comeando pelo fragmento de tecido verde, encontrei-o preso no ferrolho da porta de comunicao entre o 
quarto de Mrs. Imglethorp e o contguo, ocupado por Mademoiselle Cynthia. Entreguei o fragmento  
Polcia, que no lhe atribuiu muita importncia  nem o reconheceu pelo que era: um fio de uma braadeira 
verde dos servios de terra.

Houve uma ligeira agitao entre os presentes.

Em Styles s havia uma pessoa que trabalhava nos servios de terra: Mrs. Cavendish. Portanto, deve ter 
sido ela que entrou no quarto da falecida pela porta de comunicao com o de Mademoiselle Cynthia.

Mas essa porta tinha o ferrolho corrido do lado de dentro! exclamei.

Quando eu examinei o quarto, tinha, de facto. Mas quanto ao primeiro momento s temos a palavra de Mrs. 
Cavendish a esse respeito, visto que foi ela que a experimentou e declarou que estava fechada. Na 
confuso que se seguiu no lhe deve ter faltado oportunidade para correr o ferrolho. Alm disso, eu j tive 
ensejo de confirmar as minhas conjecturas. Para comear, o fragmento de tecido corresponde exactamente 
a um rasgozinho na braadeira de Mrs. Cavendish. Alm disso, no inqurito, Mrs. Cavendish declarou ter 
ouvido, no seu quarto, a queda da mesa-de-cabeceira. Para verificar a veracidade dessa afir-

184
mao, coloquei o meu amigo, Monsieur Hastings, na ala esquerda do edifcio, do lado de fora da porta do 
quarto de Mrs, Cavendish. Eu prprio, na companhia da Polcia, fui ao quarto da vtima e, enquanto l, 
derrubei a mesa em questo, aparentemente por acaso, e verifiquei que, como alis esperara, Monsieur 
Hastings no ouviu barulho nenhum. Isso confirmou a minha convico de que Mrs. Cavendish no falara 
verdade quando declarara que estava a vestir-se no seu quarto, aquando da tragdia. Na realidade, eu 
estava convencido de que, longe de estar no seu quarto, Mrs. Cavendish estava no da falecida, quando foi 
dado o alarme.

Lancei um olhar rpido a Mary, que estava muito plida, embora sorrisse.

Prosseguirei o meu raciocnio baseado nessa presuno: Mrs. Cavendish estava no quarto da sogra. 
Digamos que procurava qualquer coisa e ainda no a encontrara. De sbito, Mrs. Inglethorp acorda, presa 
de violento ataque. Estende o brao, derruba a mesa-de-cabeceira e depois puxa desesperadamente o 
cordo da campainha. Assustada, Mrs. Cavendish deixa cair a vela, cuja estearina se espalha na carpete. 
Apanha a vela e retira-se rapidamente para o quarto de Mademoiselle Cynthia, sem se esquecer de fechar a 
porta. Corre para o corredor, pois as criadas no a devem encontrar onde est. Mas  demasiado tarde! J 
soam passos na galeria que liga as duas alas. Que fazer? Rpida, volta para o quarto da jovem e comea a 
sacudi-la, para a acordar. Acordadas em sobressalto, as restantes pessoas da casa metem pelo corredor e 
comeam todas a bater  porta de Mrs. Inglethorp. No ocorre a ningum que Mrs. Cavendish no chegou 
com os outros, mas e isto  importante  no encontrei ningum que a tivesse visto vir da outra ala.  Olhou 
para Mrs. Cavendish e perguntou-lhe:  Estou certo, Madame?

Inteiramente certo, monsieur. Espero que creia que, se eu pensasse que beneficiaria o meu marido 
revelando esses factos, os teria revelado. Mas no me pareceu que pudessem ter qualquer influncia na 
questo da sua culpa ou inocncia.

185
Correcto, em certo sentido. Mas esse conhecimento libertou o meu esprito de muitas concepes erradas 
e permitiu-me ver outros factos no seu verdadeiro significado.

O testamento!  exclamou Lawrence.  Foi ento voc, Mary, que destruiu o testamento?

Ela abanou a cabea. e Poirot imitou-a.

No  declarou   o   detective,   serenamente.  S   uma pessoa  podia  ter destrudo esse testamento:  a 
prpria Mrs. Inglethorp!

Impossvel!  exclamei.  Fizera-o nessa mesma tarde!

Apesar disso, mon ami, foi Mrs. Inglethorp que o destruiu. De nenhum outro modo se poder explicar que, 
num dos dias mais quentes do ano, Mrs. Inglethorp ordenasse que lhe acendessem a lareira do quarto.

Abri a boca, pasmado. Que idiotas framos em no termos compreendido a incongruncia daquela lareira 
acesa! Poirot continuou:

A temperatura desse dia, meus senhores, foi de 27 graus  sombra. Mas apesar disso Mrs. Inglethorp 
mandou acender a lareira. Porqu? Porque desejava destruir qualquer coisa e no sabia como consegui-lo 
de outra maneira. Como se devem lembrar, em consequncia da economia de guerra  adoptada em 
Styles, no se deitava fora nenhum papel. Por isso, no havia maneira de destruir um documento grosso 
como um testamento. Assim que ouvi dizer que a lareira do quarto de Mrs. Inglethorp tinha sido acesa, 
conclu logo que deveria ter sido para destruir qualquer documento importante  possivelmente um 
testamento. Por isso no me surpreendeu a descoberta, nas cinzas, do fragmento de papel chamuscado. 
Claro que, na altura, no sabia que o testamento em questo tinha sido feito nessa mesma tarde, e admito 
que, quando tomei conhecimento desse facto, laborei num grave erro. Deduzi que a deciso de Mrs. 
Inglethorp de destruir o testamento forai consequncia directa da discusso que tivera nessa tarde e que, 
portanto, a discusso fora depois, e no antes, de ela fazer o testamento.

186
Estava enganado, como sabem, e fui obrigado a abandonar essa ideia. Encarei o problema de um novo 
ponto de vista. As quatro horas, Dorcas ouviu a sua patroa dizer, colrica: Escusas de pensar que me 
deter qualquer receio de publicidade, ou escndalo entre marido e mulher. Conjecturei, e conjecturei bem, 
que essas palavras no tinham sido dirigidas ao seu marido e, sim, a Mr. John Cavendish. s cinco horas 
uma hora depois  ela empregou quase as mesmas palavras, mas numa perspectiva diferente, quando 
confessou a Dorcas: No sei que fazer; o escndalo entre marido e mulher  uma coisa terrvel. s quatro 
horas, estava colrica, mas completamente senhora de si. s cinco, estava profundamente deprimida e 
aludiu a ter sofrido um grande abalo.

Vendo o assunto psicologicamente, tirei uma deduo que me pareceu correcta. O segundo escndalo 
que ela mencionou no era o primeiro: respeitava a ela prpria!

Reconstituamos. s quatro horas, Mrs. Inglethorp discute com o filho e ameaa denunci-lo  mulher  
que, diga-se de passagem, ouviu a maior parte da discusso. s quatro e meia, em consequncia de uma 
conversa acerca da validade dos testamentos, redige um testamento a favor do marido, que os dois 
jardineiros assinam como testemunhas. s cinco horas, Dorcas encontra a sua senhora num estado de 
grande agitao, com um papel - uma carta, pensa Dorcas  na mo, e  nessa altura que ela lhe manda 
acender a lareira do seu quarto. Presumivelmente, portanto, entre as quatro e meia e as cinco horas 
aconteceu qualquer coisa que originou uma mudana completa dos seus sentimentos, pois ela mostra-se 
to ansiosa por destruir o testamento como antes se mostrara por faz-lo. Que foi esse qualquer coisa?

Tanto quanto sabemos, esteve completamente s durante essa meia hora. Ningum entrou na saleta nem 
de l saiu. Que ter ento modificado a sua sbita mudana de sentimentos? 

Claro que s  possvel conjecturar, mas eu creio que a minha conjectura est certa. Mrs. Inglethorp no 
tinha selos na

187 
secretria  sabemo-lo porque, mais tarde, ela pediu  Dorcas que lhe levasse alguns. No canto oposto da 
sala encontrava-se a escrivaninha do marido  fechada  chave. Ela precisava de arranjar selos e, segundo a 
minha teoria, experimentou as suas chaves na escrivaninha do marido. Sei que uma delas servia, porque 
experimentei. Mrs. Inglethorp abriu, pois, a escrivaninha e, ao procurar os selos, encontrou outra coisa: o 
bocado de papel que Dorcas lhe viu na mo e que certamente nunca fora destinado aos olhos de Mrs. 
Inglethorp. Por outro lado, Mrs. Cavendish convenceu-se de que o bocado de papel a que a sogra se 
agarrava to tenazmente era uma prova escrita da infidelidade do seu marido, John Cavendish. Pediu-o a 
Mrs, Inglethorp, a qual lhe afirmou, com toda a verdade, no ter nada a ver com semelhante assunto. Mrs. 
Cavendish no a acreditou. Pensou que Mrs. Inglethorp estava a proteger o enteado. Ora, Mrs. Cavendish  
uma mulher muito resoluta e, atrs da sua mscara de reserva, tinha furiosos cimes do marido. Decidiu 
que deitaria a mo ao referido papel custasse o que custasse e o acaso ajudou-a nessa resoluo: achou a 
chave da caixa da correspondncia, de Mrs. Inglethorp, que se perdera nessa manh. Sabia que a sogra 
costumava guardar todos os papis importantes nessa caixa.

Portanto, Mrs. Cavendish elaborou os seus planos, como s uma mulher levada ao desespero pelo cime 
elaboraria. Em dado momento dessa noite, abriu o ferrolho da porta de comunicao com o quarto de 
Mademoiselle Cynthia.  possvel que lhe tenha aplicado leo, pois eu experimentei-o e verifiquei que 
deslizava sem o mnimo rudo. Adiou a realizao do seu projecto at s primeiras horas da manh: assim 
seria mais seguro, visto as criadas estarem acostumadas a ouvi-La a p a essa hora. Vestiu-se, com o 
uniforme do seu servio, e passou silenciosamente pelo quarto de Mademoiselle Cynthia para o de Mrs. 
Inglethorp.

Fez uma pausa, que Cynthia aproveitou para dizer: Mas eu  teria acordado  se algum  passasse  pelo  
meu quarto!

188
Se estivesse drogada, no. mademoiselle.

Drogada?

Mais, oui!

Dirigiu-se de novo a todos, colectivamente:

Como se devem lembrar, Mademoiselle Cynthia continuou a dormir, apesar de todo o tumulto e barulho do 
quarto ao lado. Isso sugeria duas possibilidades: ou o seu sono era fingido  no que no acreditei  ou tinha 
sido induzido por meios artificiais.

com a segunda ideia no esprito, exaiminei todas as chvenas de caf cuidadosamente, no esquecendo 
que fora Mrs. Cavendish quem levara o caf a Mademoiselle Cynthia,, na noite anterior. Colhi uma amostra 
de cada chvena e mandei-as analisar... sem qualquer resultado. Contara muito bem as chvenas, no 
fosse terem levado alguma. Mas no: tinham bebido caf seis pessoas e estavam ali seis chvenas. Tive de 
admitir que me enganara.

Depois descobri-me culpado de um descuido muito grave: fora servido caf a sete pessoas e no a seis. 
pois o Dr. Bauerstein passara por l nessa noite. Isso modificou tudo, uma vez que passou a faltar uma 
chvena. As criadas no repararam em nada: Annie, que nessa noite levou o caf para a sala, levou 
tambm sete chvenas, em virtude de ignorar que Mr. Inglethorp no bebia, ao passo que Dorcas, que as 
recolheu na manh seguinte, encontrou seis, como de costume ou, rigorosamente falando, encontrou 
cinco, visto a sexta ter sido encontrada partida, no quarto de Mrs. Inglethorp.

Convenci-me de que a chvena em falta era a de Mademoiselle Cynthia, convico que foi confirmada pelo 
facto de todas as chvenas encontradas conterem acar e Mademoiselle Cynthia nunca adoar o caf. A 
minha ateno foi atrada pela histria de Annie acerca de sal espalhado no tabuleiro do cacau que ela 
levava todas as noites para o quarto de Mrs. Inglethorp. Por isso recolhi uma amostra do cacau e mandei-o 
analisar.

189
Mas o Dr. Bauerstein j tinha feito isso!  lembrou Lawrence.

No tinha feito exactamente isso. O doutor pediu ao analista que verificasse se havia ou no estricnina no 
cacau. No pediu que se determinasse, como eu pedi, a presena de um narctico.

Um narctico?

Sim.  Est aqui o relatrio da anlise.  Mrs.  Cavendish administrou  um  narctico sem perigo, mas eficaz, 
tanto a Mrs. Inglethorp como a Mademoiselle Cynthia. E  possvel que, por causa disso, tenha passado 
um mauvais quart dheure! Imaginem os seus sentimentos quando a sogra adoeceu, subitamente, e 
morreu, e logo a seguir se falou em  veneno! Julgara que a droga para dormir que administrara era 
absolutamente inofensiva, mas durante um terrvel momento deve ter receado ser a culpada da morte da 
sogra.  Tomada de pnico, desceu a escada a correr e apressou-se a esconder a chvena e o pires 
utilizados por Mademoiselle Cynthia numa grande jarra de lato, onde mais tarde Monsieur Lawrence a 
descobriu. Nos restos do cacau no se atreveu a tocar, pois eram muitos os olhos que a rodeavam. Faam 
ideia do seu alvio quando se mencionou a palavra estricnina e ela verificou que, no fim de contas, no era 
a autora da tragdia!

Temos agora a explicao do facto de os sintomas de envenenamento por estricnina terem levado tanto 
tempo a manifestar-se: um narctico tomado com estricnina retarda a aco do veneno durante algumas 
horas.

Poirot calou-se e Mary olhou-o, enquanto a cor lhe subia lentamente ao rosto.

Tudo quanto disse  absolutamente verdade. Monsieur Poirot. Foi a hora mais horrvel da minha vida, nunca 
a esquecerei. Mas o senhor  maravilhoso! Compreendo agora...

O que eu quis dizer quando lhe afirmei que se podia confessar ao tio Poirot, hem? Mas no confiou em 
mim....

Agora   compreendo   tudo  murmurou   Lawrence.

190
O cacau com o narctico, -tomado por cima do caf envenenado, justifica plenamente o atraso...

Exactamente. Mas estaria o caf realmente envenenado? Aqui surge-nos uma pequena dificuldade, pois 
Mrs. Inglethorp no o chegou a beber.

O qu?!  o grito de surpresa foi geral.

Pois no. Lembram-se de eu falar de uma ndoa na> carpete do quarto de Mrs. Inglethorp? Essa ndoa 
tinha algumas caractersticas  peculiares.  Ainda  estava  hmida  e cheirava fortemente a caf. Alm disso, 
encontrei no meio do plo da carpete alguns estilhaozinhos minsculos de porcelana. compreendi sem 
dificuldade o que acontecera, pois menos de dois minutos antes colocara a minha pasta em cima da mesa, 
junto da janela, e a mesa inclinara-se e a pasta fora parar ao cho, precisamente ao mesmo stio da> 
ndoa. Como eu, Mrs. Inglethorp pusera) l a chvena do caf, ao entrar no quarto, na vspera  noite, e a 
traidora da mesa pregara-lhe a mesma partida.

O que aconteceu a seguir  mera conjectura da minha parte, mas creio que Mrs. Inglethorp apanhou a 
chvena partida e a colocou em cima da mesa-de-cabeceira. Necessitada de um estimulante qualquer, 
aqueceu o cacau e bebeuo logo. Agora surge-nos um novo problema. Sabemos que o cacau no continha 
estricnina e que o caf no foi bebido. No entanto, a estricnina deve ter sido administrada entre as sete e 
as nove horas dessa noite. Que outro meio poder ter sido utilizado, um meio to adequado para disfarar o 
gosto da estricnina que parece mentira ningum tenha pensado nele? Poirot olhou em redor e depois 
respondeu, todo empertigado,  prpria pergunta:  O remdio!

Quer dizer que o assassino introduziu a estricnina no tnico?  perguntei.

No havia necessidade de a introduzir, pois j l estava, na composio! A estricnina que matou Mrs. 
Inglethorp era idntica  receitada pelo Dr. Wilkins. Para que o compreen-

191
dam, vou ler um extracto de um simposium que encontrei na farmcia do Hospital da Cruz Vermelha de 
Tadminster: A seguinte receita tornou-se famosa em livros de estudo:

Sulf.    Estricnina    ... Brometo de potssio

Aqua   ad

Fiat Mistura

gr. i

3V

Esta soluo deposita em poucas horas a maior parte do sal de estricnina transformado num brometo 
insolvel em cristais transparentes. Em Inglaterra, uma senhora perdeu a vida por tomar uma mistura 
semelhante: a estricnina precipitada acumulou-se no fundo do frasco e, ao tomar a ltima dose, ela ingeriu-
a quase toda!

Claro que no havia nenhum brometo na receita do Dr. Wilkins, mas devem lembrar-se de que mencionei 
uma caixa vazia, que contivera papelinhos de brometo. Um ou dois desses papelinhos despejados num 
frasco cheio de remdio precipitariam a estricnina, como o livro descreve, e fariam com que fosse toda 
tomada na ltima dose. Viro a saber, mais tarde, que a pessoa que geralmente deitava o remdio de Mrs. 
Inglethorp tinha sempre o cuidado de no agitar o frasco, para deixar o sedimento acumulado no fundo.

Desde o princpio que surgiram indcios de que a tragdia estava planeada para segunda-feira  noite. 
Nesse dia, o fio da campainha de Mrs. Inglethorp foi cortado e sabia-se que Mademoiselle Cynthia passaria 
a noite com pessoas amigas: desse modo, Mrs. Inglethorp estaria completamente s na ala direita, fora do 
alcance de qualquer socorro, e morreria, segundo todas as probabilidades, antes que se pudesse chamar o 
mdico. Mas, na sua pressa de chegar a tempo  festa na aldeia, Mrs. Inglethorp esqueceu-se de tomar o 
remdio, e como no dia seguinte a-lmoou fora de casa, a ltima  e fatal  dose foi tomada vinte e quatro 
horas mais tarde do que o assassino planeara.

192
E foi devido a esse atraso que a derradeira prova  o ltimo elo da cadeia  se encontra agora, nas minhas 
mos.

No meio da curiosidade e da agitao gerais, mostrou trs tirinhas de papel.

Uma carta escrita pelo prprio punho do assassino, mes amis. Se fosse um bocadinho mais clara nos seus 
termos talvez Mrs. Inglethorp, advertida a tempo, tivesse escapado. Assim, ela compreendeu que estava 
em perigo, mas ficou sem saber a forma de que esse perigo se revestia.

Na sala reinava absoluto silncio. Poirot reuniu as trs trinhas de papel e, pigarreando, leu:

Queridssima Evelyn: Deves estar ansiosa por no teres recebido notcias. No h novidade. 
Simplesmente, em vez de ter sido a noite passada ser esta noite. Compreendes. Espera-nos uma boa 
vida uma vez a velha morta e afastada do caminho. Ningum me poder atribuir o crime. A tua ideia dos 
brometos foi um rasgo de gnio! Mas temos de ser muito circunspectos. Um passo em falso...

Poirot fez uma pausa e explicou:

A carta termina aqui, meus amigos. No h dvida de que o seu autor foi interrompido, assim como no 
podem haver dvidas quanto  sua identidade. Todos ns conhecemos a sua caligrafia e...

Um rugido, quase un berro, quebrou o silncio.

Seu demnio! Como a encontrou?

Caiu uma cadeira e Poirot desviou-se, agilmente. Um movimento rpido, da sua parte, e o seu atacante 
estatelou-se ao comprido.

Messieurs, mesdames  disse Poirot, com um floreado, permitam que lhes apresente o assassino, Mr. 
Alfred Inglethorp!
193
Captulo XIII

POIROT   EXPLICA

Poirot, velho tratante, apetecia-me esgan-lo!  afirmei. Que ideia foi essa de me enganar como me 
enganou?

Estvamos sentados na biblioteca, aps diversos dias de grande agitao e azfama. No quarto de baixo, 
John e Mary estavam de novo juntos, enquanto Alfred Inglethorp e Miss Howard se encontravam presos. 
Tinha, finalmente, Poirot s para mim e estava ansioso por satisfazer a minha curiosidade ainda ardente.

O detective deixou passar alguns momentos, antes de responder:

Eu no o enganei, mon ami. Quando muito, permiti que se enganasse.

Mas porqu?

Bem,  difcil de explicar. Compreende, meu amigo, tem uma natureza to franca e um ar to transparente 
que    enfim, -lhe impossvel ocultar os sentimentos! Se lhe tivesse dado a conhecer as minhas ideias, a 
primeira vez que voc encontrasse Mr. Alfred Inglethorp o astuto cavalheiro teria, como se diz no seu 
expressivo idioma, farejado um rato! E ento, bon jour, l se iam as nossas esperanas de o apanhar!

Creio que possuo mais diplomacia do que me atribui.

Meu amigo, imploro-lhe que no se encolerize! O seu auxlio foi inestimvel. A sua natureza extremamente 
bela  que me conteve.

Bem  resmunguei, mas j um pouco apaziguado , con-

194
tinuo a achar que me podia ter dado um palpite, ao menos.

Mas eu dei, meu amigo, dei-lhe at vrios! No tenho culpa de que no os aceitasse. Alguma vez lhe disse 
que acreditava na culpabilidade de John Cavendish? No lhe disse, pelo contrrio, que ele seria quase com 
certeza absolvido?

Sim, mas...

E logo a seguir no falei da dificuldade de levar o assassino  justia? No compreendeu perfeitamente que 
estava a referir-me a duas pessoas inteiramente diferentes?

No, no compreendi perfeitamente!

E ao princpio no lhe repeti vrias vezes que no queria Mr. Inglethorp preso agora? Isso devia-lhe ter 
dado a entender qualquer coisa,

Quer dizer que suspeitou dele desde o princpio?

Sim. Para comear, fosse quem fosse que beneficiasse com a morte de Mrs. Inglethorp, quem beneficiaria 
mais seria o marido. Isso era evidente e inequvoco. Quando me levou a Styles, no primeiro dia, eu no 
fazia a mnima ideia de como o crime fora cometido, mas pelo que sabia de Mr. Inglethorp calculava que 
seria muito difcil descobrir alguma coisa que o relacionasse com o assassnio. Quando cheguei, 
compreendi logo que fora Mrs. Inglethorp quem queimara o testamento e, a propsito, a esse respeito no 
se pode queixar, meu amigo, pois eu fiz os possveis para que compreendesse o significado da lareira 
acesa no quarto em pleno Vero.

Sim, sim  concordei, impaciente.  Continue.

Como ia a dizer, meu amigo, a minha opinio quanto  culpabilidade de Mr. Inglethorp ficou muito abalada. 
Na realidade, eram tantos os indcios contra ele que me senti inclinado a pensar que no era o culpado.

Quando mudou de opinio?

Quando descobri que quantos mais esforos eu fazia para o ilibar, tantos mais ele fazia para ser preso. 
Depois, quando soube que Inglethorp no tinha nada a ver com Mrs. Raikes e que, na realidade, quem 
estava interessado por ela era John Cavendish, no me restaram dvidas.

195
Mas porqu?

Simplesmente por isto: se fosse o Inglethorp que tivesse um romance com Mrs. Raikes, o seu silncio 
seria perfeitamente compreensvel. Mas quando descobri que toda a aldeia sabia que era o John quem se 
sentia atrado pela bonita mulher do lavrador, o silncio de Inglethorp apresentou-se-me com um sentido 
completamente diferente.  Era  estupidez  fingir  que receava o escndalo, pois nenhum escndalo poderia 
amea-lo. A sua atitude deu-me muitssimo que pensar e acabei por ser forado a chegar  concluso de 
que Alfred Inglethorp queria ser preso. Eh bien, a partir desse momento decidi que no seria preso!

Espere um momento. Mas porque desejava ele ser preso?

Porque, mon ami, segundo a lei do seu pas, um homem absolvido de um crime nunca mais poder voltar a 
ser julgado por esse mesmo crime. Ah, a sua ideia era inteligente! No h duvida de que  um homem de 
mtodo. Sabia que, dada a sua situao, seria infalivelmente suspeito e, por isso, teve a inteligentssima 
ideia de forjar uma srie de indcios contra ele. Queria ser preso. Depois apresentaria o seu irrebatvel libi 
e, pronto, estava safo para o resto da vida!

Mas continuo a no compreender como poderia comprovar o seu libi tendo ido, ao mesmo tempo,  
farmcia...

Poirot fitou-me, surpreendido.

Ser possvel? Meu pobre amigo! Ainda no compreendeu que quem foi  farmcia foi Miss Howard?

Miss Howard?

com certeza, quem havia de ser? Foi-lhe muito fcil, de resto. Tem boa altura, voz profunda e mscula... e, 
alm disso, lembre-se de que ela e o Inglethorp so primos e h uma semelhana distinta entre eles, 
principalmente no andar e no porte. Foi a coisa mais simples deste mundo- So uma parelha muito 
inteligente!

 Ainda estou um pouco confuso quanto  histria dos brometos.

196
Vou tentar reconstituir isso o melhor possvel. Tenho a impresso de que Mrs Howard foi o crebro da 
aventura. Lembra-se de ela ter dito, uma vez, que o pai era mdico?  provvel que ela lhe tenha servido de 
farmacutica ou ento que tenha arranjado a ideia num dos muitos livros que devem ter andado l por casa 
quando Mademoiselle Cynthia andou a estudar para o seu exame. Fosse como fosse, sabia que a adio 
de um brometo e uma mistura contendo estricnina causaria a precipitao desta. Talvez a ideia lhe tenha 
acudido de sbito. Mrs. Inglethorp tinha uma caixa de papelinhos de brometo, que tomava ocasionalmente, 
 noite. Que poderia haver de mais fcil do que dissolver,  socapa, o contedo de um ou dois desses 
papelinhos no grande frasco de remdio de Mrs. Inglethorp, quando este chegou do Coots? O risco no era 
praticamente nenhum. A tragdia s se consumaria passados quinze dias. Se algum visse qualquer deles 
a mexer no remdio, entretanto esquecer-se-ia. Miss Howard teria engendrado a discusso com Mrs. 
Inglethorp e partido. O lapso de tempo, e a sua ausncia, afastariam qualquer suspeita. Sim, foi uma ideia 
inteligente! Se se tivessem contentado com isso, talvez o crime nunca Lhes pudesse ser atribudo. Mas 
no se sentiram satisfeitos, tentaram ser demasiado inteligentes... e isso perdeu-os.

Poirot aspirou o fumo do seu minsculo cigarro, de olhos fixos no tecto.

Engendraram o plano de fazer incidir as suspeitas em John Cavendish, comprando estricnina >na farmcia 
da aldeia e assinando o registo com a letra dele.

Na segunda-feira, Mrs. Inglethorp tomaria a ltima dose do seu remdio. Portanto, na segunda-feira s 
seis horas, Alfred Inglethorp arranjou maneira de ser visto por diversas pessoas num ponto distante da 
aldeia. Previamente, Miss Howard inventara uma histria a respeito dele e de Mrs. Raikes, para justificar o 
facto de ele se calar quanto ao seu paradeiro, depois. s seis horas, disfarada de Alfred Inglethorp, Miss 
Howard entrou na farmcia, e, com o pretexto do co doente, conseguiu

197
comprar a estricnina e assinou o nome de Alfred Inglethorp, com a letra de John Cavendish, que tivera o 
cuidado de estudar muito bem.

Mas, como isso no serviria de nada se John (tambm apresentasse um libi vlido, escreveu-lhe um 
bilhete annimo imitando mais uma vez. a sua letra  que o levou a um lugar distante, onde seria muito 
pouco provvel que algum o visse.

At aqui, tudo corre bem. Miss Howard volta para Middlingham. Alfred Inglethorp regressa a Styles. Nada 
o pode comprometer, em sentido nenhum, visto ser Miss Howard quem guarda a estricnina  que alis tem o 
nico objectivo de lanar suspeitas sobre John Cavendish.

Mas surge um contratempo: Mrs. Inglethorp no toma o remdio nessa noite. A campainha, avariada e a 
ausncia de Cynthia  arranjada por Inglethorp por intermdio da mulher  so puro desperdcio. E ento... 
ento ele comete o seu deslize.

Mrs. Inglethorp est ausente e ele senta-se a escrever  cmplice, receoso de que ela tenha entrado em 
pnico, devido ao insucesso do seu plano. Talvez Mrs. Inglethorp tendo regressado mais cedo do que ele 
esperava. Surpreendido, e um pouco atrapalhado, apressa-se a fechar a escrivaninha  chave. Receia que, 
se ficar na sala, possa ter de a abrir outra vez e a mulher veja a carta, antes que possa escond-la. Por 
isso sai e passeia pelos bosques, sem imaginar que Mrs. Inglethorp abrir a escrivaninha e descobrir o 
documento incriniinador.

Mas foi isso que aconteceu, como sabemos. Mrs. Inglethorp l a carta e toma conhecimento da perfdia 
do marido e de Evelyn Howard, embora, infelizmente, a frase acerca do brometo no aadvirta do que a 
espera. Sabe que corre perigo, mas ignora de onde vir esse perigo. Decide no dizer nada ao marido e 
escreve ao advogado, pedindo-lhe que a visite no dia seguinte. E decide tambm destruir imediatamente o 
testamento que acabara de fazer. Conserva a carta fatal.

198
Foi, ento, para recuperar essa carta que o marido forou a fechadura da caixa da correspondncia?

Foi, e pelo grande risco que correu podemos avaliar at que ponto tinha conscincia da sua importncia. 
Tirando essa carta, no havia absolutamente nada que o relacionasse com o crime.

S h  uma coisa que no compreendo: porque no a destruiu logo, assim que se apoderou dela?

Porque >no ousou correr o maior de todos os riscos: o de a conservar na sua pessoa.

No percebo.

Veja as coisas do ponto de vista dele. Cheguei  concluso de que ele s se pde apoderar da carta em 
determinado perodo de cinco minutos: os cinco minutos imediatamente anteriores  nossa chegada  
cena, pois antes disso a Aninie andou a limpar a escada e teria visto algum que passasse, a caminho da 
ala direita. Imagine o que se passou! Ele entra no quarto, depois de abrir a porta com uma das outras 
chaves... so todas muito semelhantes. Corre para a caixa de correspondncia. Est fechada e da chave 
nem sombras.  um golpe terrvel para ele, pois significa que a sua presena no quarto no poder ficar 
ignorada, como esperara. Mas compreende que tem de arriscar tudo para recuperar a maldita prova. 
Rpido, fora a fechadura com um canivete e remexe os papis at encontrar o que procura.

Mas v-se perante um novo dilema: no ousa conservar o papel consigo. Podem v-lo a sair do quarto, 
podem revist-lo... Se o encontram com a carta, est perdido. Alm disso,  provvel que nesse instamte 
oua tambm o rudo feito por Mr. Wells e por John a sarem da saleta. Tem de agir rapdamente. Onde 
poder esconder o maldito papel? O contedo do cesto dos papis no  deitado fora, alm de que ser 
com certeza revistado. No pode destruir a carta e no ousa guard-la. Olha em seu redor e v... v o qu, 
moa ami?

Abanei a cabea.

199
Rasga a carta em tiras fininhas, num instante, torce-as e mete-as apressadamente entre as outras torcidas 
de papel que se encontram na jarra, em cima da prateleira da chamin.

No contive uma exclamao.

Ningum se lembraria de procurar a  continuou Poirot. E ele poder, com tempo e calma, voltar e destruir 
aquela nica prova contra si.

Quer dizer que esteve sempre na jarra das torcidas do quarto de Mrs. Inglethorp, mesmo debaixo do nosso 
nariz?

Sim, meu amigo. Foi a que descobri o meu ltimo elo, e a si devo a afortunada descoberta.

A mim?

Sim. Lembra-se de me dizer que a minha mo tremia, enquanto endireitava os ornamentos da prateleira?

Sim, mas no vejo...

Pois no, mas vi eu. Lembrei-me de que nessa mesma manh, quando estivramos juntos no quarto, eu 
endireitara todos os objectos da prateleira. Portanto, se j tinha endireitado no havia motivo nenhum para 
os endireitar de novo, a no ser que, entretanto, algum lhes tivesse mexido.

Meu Deus,  essa ento a explicao do seu extraordinrio comportamento! Foi a correr a Styles e ainda 
l a encontrou?

Exactamente. E foi uma corrida contra-relgio, creia.

Continuo a no compreender por que motivo o Inglethorp foi idiota ao ponto de a deixar estar onde estava, 
quando no lhe faltaram com certeza oportunidades para a destruir.

Ah, mas ele no teve oportunidades nenhumas! Eu encarreguei-me disso.

,Voc?

(Sim. Lembra-se de me censurar por fazer confidncias a toda a gente da casa, acerca do assunto?

Lembro.

Bem, meu amigo, eu tinha visto que s havia uma probabilidade. Ainda no estava certo se o Inglethorp era 
o criminoso ou no, mas deduzi que, se fosse, no teria o papel consigo

200


e o deveria ter escondido em qualquer lado. Ao captar a compreenso e a simpatia de todos, pude evitar 
efectivamente que o destrusse. J duvidava dele, e quando tornei o caso pblico consegui os servios de 
uns dez detectives amadores, que no deixariam de o vigiar incessantemente. E ele, consciente dessa 
vigilncia, no ousaria dar mais passo nenhum para destruir o documento. Foi, por isso, obrigado a 
abandonar a casa;, deixando-o na jarra das torcidas.

Mas Miss Howard  teve, certamente, diversas oportunidades de o ajudar.

Pois teve, mas ela ignorava a existncia do papel. De acordo com o que previamente tinham combinado, 
ela nunca falava a Alfred Inglethorp. Toda a gente devia julgar que eram inimigos mortais e enquanto John 
Cavendish no estivesse julgado e condenado nenhum deles se arriscaria a encontrar-se com o outro. Claro 
que mandei vigiar Mr. Inglethorp na esperana de que, mais cedo ou mais tarde, ele me conduziria ao 
esconderijo. Mas foi muito inteligente e no correu quaisquer riscos. O papel estava em segurana onde se 
encontrava; como ningum se lembrara de l procurar na primeira semana, no era provvel que se 
lembrassem depois. E se no fosse a sua observao, talvez nunca tivssemos conseguido lev-lo a 
julgamento.

Agora compreendo. Mas quando foi que comeou! a suspeitar de Miss Howard?

Quando descobri que ela dissera uma mentira no inqurito acerca da carta que recebera de Mrs. Inglethorp. 
Mas como podia ter mentido? Viu a carta? Lembra-se do seu aspecto geral? Sim... mais ou menos.

Deve lembrar-se, portanto, de que Mrs. Inglethorp tinha uma caligrafia muito legvel e deixava grandes 
espaos entre as palavras. Mas se reparar na data, ao alto da carta, verificar que a distncia enttre 
Styles Court e 17  muito diferente das outras. Est a perceber o que quero dizer?    ,

201
No  confessei, no estou.  
No v que a carta no foi escrita em 17, mas sim em
7 de Julho, ou seja, no dia seguinte  partida de Miss Howard? O 1 foi posteriormente introduzido  frente 
do 7 para o transformar em 17.

Mas porqu?

Foi isso, exactamente o que perguntei a mim mesmo. Porque suprimiu Mrs. Howard a carta escrita em 17 
e apresentou em seu lugar aquela que falsificou? Porque no queria mostrar a carta de 17, claro- Mas, mais 
uma vez, porqu? E surgiu imediatamente uma suspeita no meu esprito. Lembra-se de lhe ter dito que era 
sensato ter cautela com as pessoas que no diziam a verdade?

E, no entanto, depois disso, apresentou-me duas razes segundo as quais Miss Howard no podia ter 
cometido  o crime!  exclamei, indignado.

E eram muito boas razes! Durante muito tempo constituram um obstculo em que constantemente 
tropeava, at que me lembrei de um facto muito importante: que ela  e Alfred Inglethorp eram primos. Ela 
podia no ter cometido o crime sozinha, mas as razes que disso a impossibilitavam no a impediam de 
ser cmplice. E depois havia o seu dio excessivamente  veemente!  Ocultava  uma  emoo muito oposta. 
Existiai indubitavelmente um lao de paixo entre eles muito antes dele aparecer em Styles. J tinham 
engendrado o seu infame plano: ele casaria, com aquela velha rica mas muito pateta, induzi-la-ia a fazer 
testamento deixando-lhe o seu dinheiro e depois eles obteriam o que queriam mediante um crime 
inteligentemente concebido. Se tudo tivesse corrido conforme os seus planos, talvez partissem de Inglaterra 
e fossem viver juntos do dinheiro da sua pobre vtima. So uma parelha muito astuta e sem escrpulos. 
Enquanto as suspeitas incidiam sobre ele, ela encarregava-se dos preparativos para um desenlace muito 
diferente. Chegou de Middlingham com todos os objectos comprometedores em seu poder e isenta de 
qualquer

202
suspeita. Ningum prestou ateno s suas idas e vindas, na casa. Escondeu o frasco da estricnina e os 
culos na gaveta da cmoda do John. Ps a barba na arca do sto. E tratou de proceder de imodo que, 
mais cedo ou mais tarde, esses objectos incriminadores fossem encontrados.

No compreendo porque tentaram deitar as culpas para cima do John. Ter-lhes-ia sido muito mais fcil 
fazer atribuir o crime ao Lawrence.

Sim, mas por mero acaso. Todas as provas contra ele surgiram por puro acaso, o que deve ter sido muito 
irritante para o par de conjurados.

A atitude dele foi muito infeliz  observei, pensativo-

Pois foi. Claro que j compreendeu a que isso se deveu?

No.

Ento no percebeu que ele julgava que a culpada do crime era Mademoiselle Cynthia?

No!  exclamei, estupefacto.  impossvel!

De modo nenhum. Eu prprio estive quase a ter a mesma ideia. Era, alis, o que tinha no esprito quando 
fiz aquela pergunta a Mr. Wells acerca do testamento. Havia os ps de brometo, que ela preparara!, e o 
facto de ela se mascarar de homem, como a Dorcas nos contou... Na realidade, existiam mais indcios 
contra ela do que contra qualquer outra pessoa.

Est a brincar, Poirot!

No estou nada. Quer que lhe diga porque empalideceu Monsieur Lawrence tanto quando entrou no quarto 
da me, na noite fatal? Porque, enquanto a me jazia na cama, obviamente envenenada, ele viu, por cima 
do seu ombro, que o ferrolho da, porta de comunicao com o quarto de Mademoiselle Cynthia no estava 
corrido!

Mas ele declarou que o viu corrido!

Exacto  confirmou o meu amigo, secamente. E foi precisamente isso que confirmou a minha suspeita de 
que no estava. Ele tentava proteger Mademoiselle Cynthia.

Mas porque havia de querer proteg-la?

203
Porque est apaixonado por ela. Ri-me.

A esse respeito, meu caro, est redondamente enganado! Sei que, ao contrrio de a amar, antipatiza 
positivamente com ela.

Quem lhe disse isso, mon ami?

A prpria Cynthia.

La pauvre petite! Ela estava preocupada com isso?

Disse que no lhe fazia diferena nenhuma.

Ento fazia-lhe com certeza muita diferena. Elas so assim, ls femmes!

O que disse acerca do Lawrence constituiu uma grande surpresa para mim.

Mas porqu? Era evidentssimo! Monsieur Lawrence no ficava com cara de mau todas as vezes que 
Mademoiselle Cynthia falava e ria com John? Metera-se-lhe naquela cabea dura que a pequena estava 
apaixonada por Monsieur John Cavendish. Quando entrou no quarto da me e compreendeu que tinha sido 
envenenada, tirou a concluso precipitada de que Mademoiselle Cynthia sabia o que se passava. Ficou 
desesperado. Primeiro esmagou a chvena do caf debaixo dos ps, ao lembrar-se de que ela subira com a 
me na noite anterior. Assim, no haveria possibilidade nenhuma de analisar o que a chvena contivera. Da 
em diante, defendeu obstinadamente,  inutilmente, tambm, a teoria da morte em consequncia de 
causas naturais.

E a respeito da outra chvena de caf?

Eu tinha quase a certeza de que fora Mis. Cavendish que a escondera, mas precisava de ter a certeza. 
Monsieur Lawrence no compreendeu o que eu queria dizer; mas, depois de pensar um bocado, chegou  
concluso de que, se conseguisse encontrar outra chvena de caf em qualquer lado, o seu amor seria 
ilibado de suspeitas. E tinha toda a razo.

Mais uma coisa. Que significaram as ltimas palavras de Mrs. Inglethorp?

204
Essas palavras eram, sem dvida, uma acusao contra o marido.

Meu Deus, Poirot, creio que j explicmos tudo!  exclamei, a suspirar.  Alegra-me que tenha acabado tudo 
bem. At o John e a mulher se reconciliaram.

Graas a mim. Que quer dizer?

No compreende, meu caro amigo, que foi simples e unicamente o julgamento que os reuniu? Estava 
convencido de que John Cavendish ainda amava a mulher e que ela o amava, igualmente. Mas tinham-se 
afastado muito e tudo por causa de um mal-entendido. Ela casara com ele sem amor, e John sabia-o.  um 
homem sensitivo,  sua maneira, e no quis impor-se-lhe se ela no o queria!. Assim,  medida que ele se 
afastou-, o amor dela. foi despertando. Mas so ambos extraordinariamente orgulhosos e o orgulho 
separou-os inexoravelmente. Ele deixou-se arrastar para uma intriga com Mrs. Raikes e ela cultivou 
deliberadamente a amizade do Dr. Baoierstein. Lembra-se do dia da priso de John Cavendish, em que me 
encontrou a tentar tomar uma importante deciso?

Lembro. Compreendi perfeitamente a sua angstia.

Perdoe, mon ami, mas no compreendeu! nada, O que tentava decidir era se devia ou no ilibar 
imediatamente John Cavendish. Podia t-lo ilibado... embora isso pudesse vir a. significar a impossibilidade 
de castigar os verdadeiros criminosos. Estes estiveram absolutamente s escuras quanto  minha 
verdadeira atitude at ao ltimo momento, o que em parte explica o meu xito. 

Quer dizer que podia ter evitado que o John Cavendis fosse levado a julgamento?

Sim, meu amigo. Mas decidi-me a favor da felicidade de  uma mulher. S o grande perigo por que 
passaram poderia ter

voltado a unir aquelas duas almas orgulhosas.

 Olhei-o, silencioso e cheio de espanto. O colossal desplante

do homenzinho! Quem, a no ser Poirot seria capaz de pensar
205
 num julgamento por homicdio como o restaurador da felicidade conjugal?!

Adivinho os seus pensamentos, mon ami declarou, a sorrir.  Ningum, a no ser Hercule Poirot, teria 
tentado semelhante coisa! E faz mal em condenar tal procedimento, pois a felicidade de um homem e uma 
mulher  a coisa mais importante deste mundo!

As suas palavras recordaram-me acontecimentos anteriores. Lembrei-mi de Mary estendida no sof, branca 
e exausta, a escutar, a escutar. A campainha tocara, em baixo, e ela estremecera e soerguera-se. Poirot 
abrira a porta e, ao ver os seus olhos angustiados, acenar brandamente com a cabea Sim, madame, 
dissera trouxe-lho de novo. Desviara-se e eu sara, e ao sair vira a expresso dos olhos de Mary, quando 
John Cavendish a apertara nos braos.

Talvez tenha razo, Poirot... Sim,  a coisa mais importante do mundo.

De sbito, bateram  porta e a cabea de Cynthia espreitou pela abertura.

Eu... eu s...

Entre!  convidei, levantando-me. Ela entrou, mas no se sentou.

Eu.... eu s queria dizer-lhes uma coisa...

Sim?

Cynthia mexeu nervosamente no cinto e, de sbito, exclamou:

So uns queridos!

Beijou-me primeiro a mim e depois a Poirot e saiu a correr da sala.

Que diabo significou isto?  perguntei, surpreendido. Era muito agradvel ser beijado por Cynthia, mas a 
publicidade do beijo estragava um pouco o prazer.

Significa que descobriu que Monsieur Lawrence no antipatiza tanto com ela como supunha  respondeu o 
meu amigo, filosoficamente.

206
Mas...

A est ele.

Lawrence passou pela porta, nesse momento.

Monsieur Lawrence!  chamou Poirot.  Devemos felicit-lo, no  verdade?

Lawrence corou e sorriu desajeitadamente. Um homem apaixonado oferece um triste espectculo. Cynthia, 
porm, parecera encantadora.

Que se passa, mon ami?

Nada  respondi tristemente.  So duas mulheres deliciosas!

E nenhuma delas para si, hem? No se importe. Console-se, meu amigo.  Talvez voltemos a caar juntos, 
quem sabe? E ento...

F I M
NDICE

CAPTULO   I

Vou para Styles 5

CAPITULO   II

16 e  17 de Julho 19

CAPITULO   III

A   noite   da   tragdia 28

CAPITULO   IV

Poirot  investiga 36
CAPTULO   V

NO  estricnina, pois no?        58

CAPTULO   VI

O inqurito 87

CAPTULO   VII

Poirot paga as suas dvidas        101

CAPTULO   VIII

Novas suspeitas         114

CAPTULO   IX

Dr. Bauerstein       132
CAPITULO   X

A priso      . 147

CAPITULO   XI

O libelo de acusao        164

CAPTULO   XII

O ltimo elo       183

CAPTULO   XIII

Poirot explica      194
